Deus salve Peter Morgan, digo, a Rainha!

Edson Amaro De Souza
Jan 10 · 4 min read
Cartaz de Divulgação da Segunda Temporada da Série “The Crown” — Netflix/Reprodução

Quando adolescente, li os 2 Livros dos Reis no Velho Testamento e me iniciei na leitura do teatro de Shakespeare. Desde então, enraizou-se em mim a convicção de que a principal utilidade dos monarcas é dar assunto para os escritores. Foi Sócrates que disse que a Guerra de Troia aconteceu para que os poetas tivessem motivos para cantar? Pois então: cresci achando que os monarcas existem para dar aos autores motivos para escrever.

Então, o principal motivo de eu não querer que a monarquia volte ao Brasil é que nossos monarcas não inspiraram uma grande literatura. Nem o romance clandestino de D. Pedro I (IV de Portugal) com a Marquesa de Santos fez nascer alguma peça tão boa quanto as tragédias cariocas de Nelson Rodrigues. O romance de Pedro I de Portugal com Inês de Castro ao menos valeu belas páginas de “Os Lusíadas” e uma tragédia em versos que até hoje não consegui ler: “A Castro”, escrita por António Ferreira. Experimenta procurar um PDF desse texto pelo Google! Mais fácil achar agulha em palheiro. — E os demais monarcas portugueses? D. João V ainda conseguiu uma ponta no “Memorial do Convento”, de Saramago. Carlos I também tem algumas páginas de fama no “Equador”, de Miguel Souza Tavares. Mais alguém?

Então a monarquia britânica é a única que sustenta pela arte. Shakespeare é o grande propagandista do trono. Há uns bons filmes sobre a rainha Victória: “Sua Majestade Mrs. Brown” e “Victória e Abdul”, em que a mesma atriz interpreta, com 20 anos de intervalo, a mesma rainha.

Mas em termos de dramaturgia, a privilegiada é mesmo Elizabeth II, atual monarca. Em 2007, dez anos após a morte de Lady Diana Spencer, vimos nos cinemas “A Rainha”, um longa estrelado por Helen Mirren e escrito por Peter Morgan — se examinarem bem, o filme atualiza a tragédia grega (o povo é o coro, a imprensa é o corifeu, Tony Blair e Elizabeth II defendem os seus valores, estando ambos corretos conforme suas respectivas visões de mundo e os papéis que a vida lhes deu). Mirren ganhou o Oscar de melhor atriz e, posteriormente, concedido por Sua Graciosa Majestade, o título de “Dame” (feminino de “Sir”) e Peter Morgan tem agora a oportunidade de se estender por muitas páginas escrevendo sobre sua mais importante personagem: a hoje nonagenária chefe de Estado de 16 países: a série “The Crown”, exibida pela Netflix, nos dá, a cada episódio, a mesma tensão que sentimos vendo o já clássico longa-metragem.

Amo “The Crown” porque cada episódio dá ao público argumentos contra e a favor da monarquia. Ao mesmo tempo que gera no público empatia pela misteriosa família real, vendendo a ilusão de intimidade com a realeza, mostra-os como seres humanos e expõe suas fragilidades. A princesa Margaret teve que escolher entre casar-se com o homem que amava, divorciado, e os privilégios de sua condição real; a Rainha tem que engolir sapos dos políticos porque precisa se mostrar neutra em público — e o que é pior: várias vezes ela confessa sua ignorância sobre diversos assuntos — ; Charles tem sua vida planejada por outros, sua voz sufocada, não podendo fazer suas próprias escolhas. O que nos faz pensar: todos eles seriam mais felizes se o trono não existisse. Mas é o charme da jovem Rainha que garante que uma ex-colônia africana negocie com o Reino Unido e não com a União Soviética; é a ousadia da princesa Margaret que garante um empréstimo da Casa Branca ao governo em crise; é a Rainha, como chefe supremo das forças armadas, que consegue, com uma só palavra, abortar um golpe militar contra um governo de esquerda. Cada capítulo da série poderia gerar acalorados debates — e lamento mesmo que ela seja exibida tão só na Netflix: melhor seria que fosse transmitida em horário nobre pela TV aberta, assim o povo brasileiro entenderia conceitos como Estado de Direito e democracia. — Sim, muitos brasileiros não entendem que um chefe de Estado não tem poderes ilimitados como o Herodes da Bíblia, que mandou matar as criancinhas de Belém porque sentia-se ameaçado pelo Cristo recém-nascido.

E os momentos mais surpreendentes são as cenas em que a Rainha se reúne com o primeiro-ministro. Isso se dá uma vez por semana, quando o chefe de governo relata à soberana o que fez na semana anterior e ouve os conselhos dela — podendo segui-los ou não. Justamente porque a Rainha tem que se mostrar neutra publicamente, essas reuniões são ultrassecretas e nenhum ministro revela o conteúdo desses diálogos. Cada uma dessas cenas, então, é uma atrevida fantasia de Peter Morgan e eu as assisto com inveja e admiração: ao mesmo tempo que gostaria de escrever um texto assim, faltar-me-ia coragem de colocar certas frases na boca da Rainha. Esse mesmo atrevimento de Peter Morgan mostra a solidez das instituições e da democracia britânicas: a Rainha, se assiste ou não à série não sabemos, não se pronuncia sobre como está sendo representada. Ela respeita a obra dos artistas.

Num país em que artistas e jornalistas são quase diariamente desrespeitados pelo atual governo, temos, para nossa vergonha, que aprender com a família real britânica como se faz uma República.


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