Devaneios pseudocientíficos

e o motivo de tanta gente acreditar neles

Crédito: Heikenwaelder Hug

Algum tempo atrás eu resolvi escrever um texto sobre a Terra plana. Minha ideia era pegar as justificativas dos “terraplanistas” e mostrar o quão absurdas eram as explicações. Mergulhei em fóruns, assisti vídeos no YouTube e anotei todas as explicações que foram dadas. Fui buscar então se de fato a Ciência concordava com aquilo, e vi muitos outros textos e vídeos respondendo àquelas perguntas e justificativas.

Desisti do texto por dois motivos: o primeiro, e mais óbvio, é que ele seria redundante. Há dezenas de outros textos, vídeos e podcasts falando sobre a real Ciência e o motivo pelo qual a Terra plana é um absurdo. O segundo (e mais interessante) motivo foi algo que me intrigou enquanto eu passeava pelos vídeos e fóruns terraplanistas: como é que as pessoas acreditam nestes absurdos?

No século XXI, parece que nada seria tão irrefutável como a Terra sendo redonda, mas um número crescente de pessoas acredita sim que a Terra é plana. Armados como estamos com o senso comum, um pouco de conhecimento científico e a capacidade de voar pela Terra e ver imagens tiradas de satélites e da Estação Espacial Internacional, como isso é possível? Como as pessoas realmente acreditam que a Terra não é redonda? Apesar de soar absurdo, o evangelho da Terra plana prospera no Facebook e no YouTube, impulsionado por memes.

Quais então os motivos? Tentei elencar alguns deles nas próximas linhas.

1 — Teorias prévias

Embora você possa imaginar que os teóricos da conspiração possuem algum tipo de transtorno mental, uma pesquisa mostrou que metade dos habitantes dos EUA acredita em pelo menos uma teoria de conspiração. Não podemos ignorar este número. Isso torna meio improvável que todas estas pessoas tenham algum tipo de psicopatologia.

A maior dica de que alguém acredita em uma conspiração é a sua crença em outras conspirações. Geralmente quem acredita na Terra plana também acredita em (no mínimo) uma das abaixo:

O homem não pousou na Lua;
A Terra é oca e tem apenas 6.000 anos;
Vacinas causam autismo;
Evolução e seleção natural não existem;
Mudanças climáticas não estão sendo causadas por humanos;
O 11 de setembro foi um trabalho interno;
Há restos de disco-voadores na área 51;
A cura do câncer e da AIDS já foram desenvolvidas;
Flúor na água é apoiada pela indústria do alumínio ou fosfato;
O Obama é muçulmano;
Paul McCartney morreu em 1969 e foi substituído por um sósia;
Elvis não morreu.

Acreditar em uma faz a pessoa ter uma maior probabilidade de acreditar em outra, porque se encaixa na visão de mundo de que há uma manipulação pelo governo e /ou outras pessoas.

2 — A Ciência manda questionar tudo

Aqui entra um problema quando divulgadores de Ciência mandam você “questionar tudo”, e eu me incluo nesta dança. O ceticismo científico e a negação não são a mesma coisa. O ceticismo nos diz que uma evidência é digna de crença quando uma observação é repetida sob condições controladas, enquanto a negação nos diz que, por mais reprodutível que seja, uma teoria sempre pode ser rejeitada por uma questão de princípio.

A crença (negacionismo) é colocada em pé de igualdade com o método científico (ceticismo).

Questionar é sim necessário. Controvérsias e debates são importantíssimos, mas “manter a controvérsia” ou “manter o debate vivo” foi transformado em uma estratégia de negação da Ciência. Há um livro/documentário que fala exatamente sobre isso, chamado “Mercadores da Dúvida”.

Se você acha que cientistas concordam com tudo, você nunca foi a um congresso científico… a diferença é que lá a gente discorda com ceticismo, não com negação.

3 — Minha Ciência é melhor que a sua

Muitas das “facções conspiracionistas” geram sua própria base de conhecimentos, que na maioria das vezes está em conflito com comunidade científica. Você pode colocar aqui grupos religiosos (no caso da evolução) e grupos industriais/políticos (no caso das mudanças climáticas). Estes grupos “acreditam em uma coisa”, geram seus próprios dados e não estão abertos ao questionamento.

Para “acreditar em uma coisa”, eles descartam o “acreditar no processo” do método científico. Há uma mudança no pensamento conspiratório: não há mais uma reivindicação “divina”, mas sim reivindicações que eles possuem uma autoridade científica melhor do que os outros, ainda que estas “verdades” já tenham sido refutadas diversas vezes pela Ciência (real, não conspiratória).

Aliás, você nunca ouvirá um cientista (sério) falando que o que ele tem certeza absoluta (o que já é uma redundância). A Ciência faz aproximações cada vez melhores para explicar como o mundo funciona.

Não ajuda quando ressaltamos que o propósito da Ciência é demonstrar a realidade daquilo que não podemos perceber. Segundo eles, isso é só propaganda, e a Ciência deles é que tem razão.

4 — Percepção superior e sensação de fraternidade

Se você prestar atenção, diferentemente da Ciência, onde você tem um consenso e várias autoridades apontando para o mesmo ponto, nas teorias conspiratórias, normalmente há um “guru”. É um cara que sabe mais que você, sabe melhor que você, e (olha só como ele é bonzinho!) está disposto a te “tirar da Matrix”.

Muitas pessoas são atraídas pela promessa de conhecimento superior, a idéia de sabedoria secreta e proibida. Há uma linguagem de fraternidade, sugerindo que aqueles que aceitam a “verdade” se tornam parte de um grupo íntimo e iluminado.

Outra mudança de perspectiva interessante é que antigamente nas teorias de conspiração as “entidades poderosas” eram Deuses… hoje são governos, bancos, Nova Ordem Mundial, entre outros. São organizações malignas exercendo poderes ativos para nos controlar.

É quase como o início de uma nova religião, e como todo início de uma religião, não há uma teoria unificada. Assim, eles muitas vezes passam mais tempo atacando do que discutindo o que realmente acreditam. Para uma teoria da conspiração para prosperar é desnecessário que haja uma versão consistente da crença alternativa. Tudo o que importa é que todos concordem que a narrativa principal é uma mentira.

5 — A arrogância dos ignorantes

Muitas vezes se apela para a arrogância dos ignorantes. Você está adormecido, deixando a “vida te levar”, enquanto a Nova Ordem Mundial domina o mundo. A nova explicação te capacita a superar a confusão causada pelas perguntas e, finalmente, conquistar a iluminação! O bônus? Você não precisa aprender, estudar e entender… é só redefinir as coisas que você não entende como erradas.

É uma espécie de libertação — libertação do pensamento sério.

Na verdade, muitas pessoas não estão interessadas se há um domo e se a Terra plana está acelerando para cima, o que explicaria a gravidade (a explicação mais absurda que eu vi, diga-se de passagem), estes “detalhes” não importam. A única coisa importante é a crença de que estamos sendo controlados e enganados pela elite do mal.

6 — Viés da confirmação e redes sociais

As mídias sociais são planejadas para bolhas, então tudo o que você já tem de “pré-determinado” é reforçado pelo viés da confirmação. Muitas pessoas não sabem, mas se duas pessoas diferentes fizerem a mesma pesquisa no Google, resultados diferentes vão aparecer.

Eu não acho que há “fatos falsos” porque alguém entendeu errado. Há fatos falsos porque é isso que eles gostariam que fosse verdade. Faça uma pesquisa no Google sobre “idade da terra” e você encontrará que a Terra tem 6.000 anos e alguns sites mostrando que as pesquisas sobre datação de carbono e radioatividade não são confiáveis.

7- Cientistas e seus estudos mal desenhados

Algo comum em teorias da conspiração é citar cientistas que fizeram experimentos e “provaram” que o consenso científico está errado.

Há uma grande pressão no mundo científico por publicações e estudos com grande impacto. Eu vivo no meio deste mundo e sofro desta necessidade dos cientistas em progredir na carreira, ganhar mais notoriedade e conseguir financiamentos para suas pesquisas.

O problema é que, como em qualquer área, estamos lidando com pessoas e há mentirosos e trapaceiros no meio do caminho, dirigidos por um viés sócio-econômico-político-religioso. A solução para isso é simples: o número de estudos. Ou a comunidade científica inteira está envolvida em uma grande conspiração comunista ou os poucos estudos que mostram que as mudanças climáticas são naturais estão errados. Não dá para estas duas possibilidades conviverem.

Aliás, recentemente, dois artigos (este e este) mostraram que os 3% dos estudos negando a participação humana no clima possuem erros metodológicos e são irreproduzíveis, o que os torna virtualmente nulos.

O que fazer?

A ironia é que nunca antes na história deste planeta tivemos tanto acesso à informação e à verdade. No entanto, talvez seja precisamente este dilúvio de informação (ou desinformação) a verdadeira causa. É como tentar beber água de um hidrante (não tente fazer isso…). Nós geramos cerca de 2,5 quintilhões de bytes de informação por dia. É uma unidade meio estranha. Aqui está o número:

25.000.000.000.000.000.000 bytes

Traduzindo em algo mais palpável, se esta informação fosse impressa, seriam 185 páginas por pessoa no mundo por dia… 185 diferentes páginas por pessoa no mundo… não as mesmas.

Falta curadoria.

A informação e a capacidade de nos comunicar foi essencial para a nossa evolução. Quando nossos ancestrais viviam em pequenos grupos, a informação era escassa, mas era precisa. É mesmo uma questão evolutiva. Você quer que seu grupo saiba que há um local onde há leões, para que eles não passem por lá e corram o risco de não voltarem. É um investimento no grupo. Provavelmente eu não conheço você que está lendo este texto…então, para mim, não há vantagem nenhuma em te dar a informação correta. Eu poderia espalhar desinformação.

É tipo gordura: no passado, era uma rara fonte de energia calórica importante, mas hoje (em excesso) é um inimigo poderoso.

De acordo com o autor de ficção científica Arthur C. Clarck:

Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia

Então, se hoje temos um pequeno aparelho que nos diz onde estamos, como chegar onde queremos, um médico vem e aponta um laser para o seu olho e de repente você não precisa mais de óculos (eu fiz isso, diga-se de passagem), porque homeopatia não funciona? Porque astrologia não funciona? Em um mundo de “mágica”, qualquer coisa pode funcionar.

O que realmente importa é entender como o mundo funciona e, quando uma informação chegar, saber se ela pode ser realmente confiável. O problema não é a apenas a falta de alfabetização científica, mas também a falta de raciocínio para filtrar tendências conspiradoras. O Google não vai fazer isso para você. Não há um filtro de “porcarias” por lá.

A lição que eu aprendi com terraplanistas não tem nada a ver com a forma da Terra, mas sim tudo a ver como formamos nossos pensamentos e entender como o mundo funciona. Só assim poderemos nos livrar dos absurdos pseudocientíficos que nos atormentam hoje.


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