Foto: Fernanda de Oliveira

Do chão às prateleiras

Sempre que chegava em um país novo, o Papa João Paulo II beijava o chão. Demonstrava respeito e amor pela nação logo que descia do avião, ao encostar os lábios na pista. Agamenon quando retornou à Grécia, depois da Guerra de Troia, beijou o solo por, finalmente, matar a saudade da terra natal.

Maiara e Maraísa, o palco, depois do sucesso do show em Campo Grande. Jogadores de futebol sempre beijam o gramado quando entram em campo ou fazem gol.

A protagonista do romance “Beijos no Chão”, da escritora e jornalista Dani Costa Russo, no entanto, não o beija por amor, carinho ou gratidão. Para a autora, beijar o chão é garantir segurança. “Do chão, ninguém passa”, diz.

E assim, a protagonista sem nome buscava no chão da narrativa o colo, a cama, e o esconderijo. Quando o marido chegava em casa, e ela sabia que haveria uma discussão que a machucaria não só com palavras, corria para o quarto dos filhos, e lá ficava. Beijava o chão por estar salva, e, nem que fosse só por mais uma noite, ainda estar inteira.


Dani Costa Russo, autora de “Beijos no chão”. Foto: Francisca Valentina

Violência contra a mulher

Beijos no Chão de romance, só tem o gênero. A história do livro gira em torno da violência contínua que uma mulher de classe média alta, com dois filhos pequenos, sofre na mão do marido alcoólatra. A protagonista não tem nome, porque poderia ser qualquer uma.

Hoje, muito se fala em violência contra a mulher, mas quando a própria autora a sofreu, pouco se comentava. Quando ela começou a rascunhar a história, também não. Não encontrou literatura, nem matérias, nas livrarias ou internet, escritos sobre violência doméstica. Qualquer coisa que a fizesse entender o que se passara consigo. O mundo era outro, e a informação pouco acessível.

“Quando escrevi a história e a costurei, vi que ali estava algo que mostrava como é o cenário da violência marital, da indiferença da sociedade, das consequências de se abandonar um marido abusador”, disse.

A necessidade de elucidar essa situação foi o gatilho para começar escrever a história, e a forma como as pessoas reagem e se identificam com ela, combustível para que, hoje, continue trabalhando.

Muitas mulheres lhe escrevem relatando terem vividos histórias semelhantes em cenários diferentes, e que reagiam como a protagonista. Se viam desamparadas, sós, inundadas de medo.

“É preciso elucidar essas questões, expor a violência, para que ela não mais aconteça”, relata.


A autora e Jarid Arraes, no lançamento. Foto: Francisca Valentina

Autolançamento literário

Há exatamente um ano, no dia 21/09/2016, a capixaba radicada em São Paulo lançava seu primeiro romance, de forma totalmente independente, na Livraria Blooks. Se lançar independente quer dizer cuidar, sozinha, sem o auxílio de uma editora, de todas as etapas da publicação.

Dani relata ter enviado o original, logo após a redação, em 2008, para inúmeras editoras nacionais.

Teve o livro rejeitado por todas, das pequenas aos peixes grandes, e resolveu engavetá-lo. Anos depois, tentou de novo. Tirou a poeira, fez algumas alterações, e enviou-o a outras editoras. Nada. Nenhum aceite. A autora passou a achar que sua obra não era boa, e quase desistiu de vez de publicá-la.

Foi em 2015, quando começou a frequentar as reuniões do Clube da Escrita para Mulheres, grupo de promoção literária feminina, criado pela escritora e cordelista Jarid Arraes, sua maior incentivadora, que reverteu a situação.

Entendeu que seu texto tinha sim valor, e que não ter uma editora por trás do processo não a excluiria de pertencer ao mercado literário brasileiro. Ainda, que era, sim, escritora, independente de já ter publicado ou não. “Até hoje, quando digo que sou escritora, principalmente a homens, me perguntam: quantos livros você fez? Porque ter escrito só um romance não basta. Que validação desnecessária”, disse.

Depois de trabalhar a autoconfiança, tirou o livro da gaveta, só que dessa vez não o colocou de volta. Resolveu publicá-lo por si só. Era hora de sua história ser lida.


Dani e seu filho livro. Foto: Francisca Valentina

Parindo o filho em folha

O processo de escrever um livro é como parir um filho. E, como diz o ditado, se depois de parir uma criança é necessária uma aldeia para criá-la, com o ser de papel não haveria de ser diferente.

Dani contou com sua criatividade para redigir, o olhar de Jarid Arraes para realizar mudanças, a minuciosidade do ex-marido para editar, e com o ex-sogro para financiar a impressão. Amigos e muitos outros profissionais, que ajudaram com braços, likes, ou descontos, foram fundamentais para dar vida ao livro.

A escritora criou uma rede de leitores através da internet, e sua fanpage no Facebook já soma quase 14.000 seguidores. Na página, são compartilhas fotos dos ensaios feitos para o livro, booktrailers, trechos do romance publicado e de outros projetos que estão por vir.

Foi da internet também que ela tirou empolgação para escrever. Dani possuía um blog, onde postava os escritos do que viriam a se tornar o primeiro capítulo de Beijos no Chão.

Os leitores que a acompanhavam diziam se comover com o que liam no html, o que motivou a escritora. Ela foi tecendo outras histórias, teclando-as na empolgação, até que, depois de seis meses, e muitas madrugadas viradas escrevendo, conciliando a escrita com a vida puxada de mãe e repórter, tinha um livro em mãos.

O processo de redação era diário. Quando não escrevia um capítulo, passava a limpo ideias. Quando não editava, lia o que estava feito para firmar o caminho que estava trilhando. Quando estava muito cansada para fazer qualquer coisa, conversava com alguma amigo via Skype, sobre os futuros passos.


Versos de “Beijos no Chão”. Foto: Francisca Valentina

E para quem está começando?

Nas palavras da autora:

Peça ajuda, converse com quem já passou pela experiência de se lançar.

Não isole-se, não faça disso uma luta solitária. Não dê ouvidos aos que desmerecem seu trabalho, principalmente se você for mulher. O que mais encontrei foram homens diminuindo minha escrita, esses vão surgir aos montes. Ignore-os.

Aceite críticas, aprenda com elas. Ouça diferentes opiniões sobre seu texto, muitas ideias podem surgir para enriquecer a obra.

Valorize quem está fazendo o mesmo que você — não adianta querer se lançar, mas não reconhecer os outros talentos. Divulgue-se, mesmo que poucos vejam. Em algum momento, alguém irá te ler, e isso, te garanto, será só o começo da magia.


Dá para se lançar então?

Dá, queride escritor. Dani contou com um empréstimo financeiro, dilapidou salários e até se individou, mas há outros caminhos.

Inúmeras são as formas hoje existentes para arrecadar dinheiro: você pode iniciar uma campanha de crowdfunding no Catarse ou no Benfeitoria, e colocar como recompensa aos apoiadores o livro, e outros brindes, pedir auxílio no Apoia.se e até se inscrever para editais e concursos. Proac, Prêmio Sesc, e Kindle são iniciativas que buscam lançar novos autores.

A questão é, como diz aquela velha frase, que ninguém sabe a autoria: não deixe que o medo te impeça de tentar.

O medo não impediu a Dani. Que tal se inspirar nessa história? ;)


Confira o site da autora para adquirir o livro, e a página no Facebook.


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