Dos limites da zoeira sem limite

E a cultura do assédio que vira bullying

O bullying na nossa sociedade precisa ser observado com um olhar mais atencioso e que principalmente leve em contas as nuances da própria cultura do brasileiro. Somos um povo dito “alegre”, “de bem com a vida”, “brincalhão”, “bem-humorado”, “zoeiro”. E principalmente, um povo que despreza o “politicamente correto”.

E o que é esse politicamente correto? É a ideia básica que deveria vigorar sem esforço que diz que deveríamos respeitar a individualidade e as diferenças de todas as pessoas. Que não deveríamos discriminar quem não atende a um determinado perfil padrão criado e difundido como modelo ideal na nossa cultura ocidental: homem, branco, hétero, magro, rico, neurotípico, sem nenhuma deficiência física (tipo o Super Man, ou o Batman, ou o Capitão América, ou <insira seu herói pop padrão predileto>).

Faça uma rápida lista mental de humoristas brasileiros com alguma popularidade no decorrer do tempo: dos lendários Chico Anysio, Costinha, Ari Toledo, Renato Aragão, Tom Cavalcanti, Tiririca, a galera do Casseta e Planeta, a galera da Praça é Nossa, Escolinha do Professor Raimundo, Pânico na TV, Marcelo Adnet, os oriundos do falecido CQC Rafinha Bastos, Danilo Gentilli, Marco Luque, o pessoal do Porta dos Fundos, Kibe Louco, blogueiros descolados. Você olha para o todo o nosso quadro de comediantes que têm alguma relevância, espaço na mídia e o que você vê? Quase sem exceção: homens brancos, héteros, magros, classe média, neurotípicos. E o que eles fazem? Piadas com quem não é igual a eles: pessoas negras, mulheres, homossexuais, gordos, deficientes físicos, pessoas neurodiversas. É disso que aprendemos a rir. É isso que aprendemos que é engraçado.

Busca por “comediantes brasileiros” no Google: conte nos dedos de uma única mão os humoristas negros, os assumidamente gays, as mulheres, as mulheres negras, mulheres negras gays. Não diga que representatividade não faz diferença.

Toda essa “descontração”, todas essas “brincadeiras” começam com as piadinhas intra-familiares, se reproduzem na escola, são difundidas pela mídia, fortalecidas pelo entretenimento e validadas pela sociedade. Elas atravessam a maneira como as pessoas se relacionam (“Fala aí, seu arrombado, como você está?!”), como elas se comportam coletivamente (“Ei, Dilma, vai tomar no cu!”). E essa “alegria do brasileiro”, que tem como premissa a crítica, ridicularização e humilhação de pessoas tem vários nomes, a saber, de acordo com o perfil da vítima “zoada”: sexismo, racismo, homofobia, gordofobia, classismo, capacitismo. É sobre essa base que se sustenta o nosso humor “zoeiro”, que ri de estupro e pedofilia, uma cultura que flerta abertamente com o assédio moral travestido de naturalidade.

É muito complicado separar o que é “brincadeira” do que é bullying. Simplesmente porque o aprendizado que recebemos sobre “zoar”, sobre “fazer piadas”, passa quase necessariamente por apontar e zombar alguma “falha” do outro. Nossa cultura do humor é profundamente arraigada na humilhação do próximo. E é muito difícil delimitar quando a “zoeira” não é a primeira etapa de uma escalada de intolerância e ódio que redunda em perseguição, violência e morte. Está aí o genocídio da população negra, as taxas de feminicídio, os casos de perseguição e morte de homossexuais, as taxas de bulimia, anorexia, suicídio e depressão de jovens e todas as demais estatísticas das quais é possível se servir para entender o tamanho do preço que se paga por não pertencer ao topo da cadeia alimentar da opressão.

Como desconstruir então uma prática de bullying entre os adolescentes numa cultura que ensina que o humor está em humilhar quem é diferente? Onde se faz muxoxo e deboche sobre a proposta de uma fala “politicamente correta”? Onde a “zoeira” é glamourizada e vista como status, como sinônimo de “esperteza”? Onde a sujeição do outro é vista como sinal de poder? Onde professores “zoam” alunos, pais “zoam” filhos, todo mundo “zoa” todo mundo? Como explicar para uma criança em formação que essa característica tão básica da nossa cultura, essa “espontaneidade”, pode se travestir de profunda perversidade?

Todo mundo ri diante de uma piada, mesmo que seja calcada na humilhação de alguém. Só que isso só tem graça mesmo para quem faz a piada, que se sente poderoso. Os alvos muitas vezes riem porque não têm opção. Porque já se sentem humilhados, excluídos, ridicularizados. E então riem de si mesmo para não chorar em público. E vão cultivar suas dores silenciosamente longe do escrutínio público. Vão moldar sua postura, sua personalidade, sua vida inteira em torno da rejeição social que essas brincadeiras desvelam.

Pensar como trabalhar a cultura do bullying passa por repensar nossa própria cultura e nossos próprios valores. Perder o medo de parecer antipático, de falar sério. Ter apreço pelo respeito e pelos sentimentos das outras pessoas, não validar posturas de intimidação, não dar ibope para comediantes que fazem riso às custas do choro alheio.

Crianças espelham seu comportamento nos adultos ao seu redor. É muito difícil dar limites para um humor que é violento e humilhante numa sociedade que acredita que para a zoeira não tem limites.



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