“Doutor Sono” se prejudica pelo tempo mal distribuído, mas engaja especialmente aos entusiastas de “O Iluminado”

Andressa Faria de Almeida
Nov 7 · 4 min read

Missão difícil essa que o Mike Flanagan abraçou! Dirigir a adaptação cinematográfica da continuação literária de “O Iluminado”, que tem uma versão icônica para as telonas desenvolvida por Stanley Kubrick e que por sua vez é bastante rechaçada por Stephen King com certeza não foi nada simples, mas ele se saiu bem no trabalho, apesar de alguns problemas que não podem deixar de ser notados.

Mas vamos à sinopse: “Doutor Sono” nos apresenta a um Dan Torrance ainda atormentado pelos fantasmas do Hotel Overlook, se descobrindo na meia idade arruinado pelo álcool e por seus traumas. É na chegada a uma nova comunidade que ele encontra a chance de superar suas dores, se tornando enfermeiro no asilo local, onde usa sua iluminação remanescente para dar conforto àqueles que estão partindo.

É nesse ínterim que o homem conhece Abra Stone, uma pré-adolescente que têm poderes tão ou mais fortes que os seus na infância, capazes de despertar a sanha de um grupo de devoradores forasteiros, que buscam no sofrimento e na morte alheia o caminho para uma vida mais longa.

É interessante notar o esforço da produção em se manter fiel à obra de King, mas sem fugir das consequências repercutidas pela adaptação de “O Iluminado” para os cinemas. Por exemplo, aqui o Hotel Overlook ainda existe, como seguiu existindo no longa de Kubrick. mas o enredo original do livro é bastante respeitando, com exceção de adaptações pontuais que não são nada graves ou problemáticas. Talvez isso seja produto de um roteiro desenvolvido à quatro mãos pelo próprio escritor na companhia do diretor Flanagan, e é claro o esforço de ambos para conciliar todas essas pontas que ficaram soltas ao longo dos anos, reconciliando artistas memoráveis e suas premissas particulares sobre uma mesma história.

As performances do elenco também empolgam, não há como duvidar, O trabalho de Ewan McGregor mostra bem as marcas que foram deixadas no menino Dan com o passar das décadas, mas seu esforço para se reconectar aos seus dons e fazê-los úteis a Abra potencializam sua valentia. Ao mesmo tempo temos uma Kyliegh Curran iniciando sua carreira, mas brilhando tanto que em alguns momentos chega a ofuscar o colega veterano. Impressionam sua desenvoltura e seu encaixe perfeito com a personagens! Só elogios também à atuação de Jacob Tremblay, em uma pequena ponta que impacta o enredo por inteiro e a Rebecca Ferguson, que encarna com perfeição a antagonista sexy, desprendida e profundamente vingativa!

As questões técnicas são igualmente bem trabalhadas, e temos uma fotografia que mistura o alaranjado e o azul constantemente, trazendo dois contrapontos do espectro de cores e nos colocando todo o tempo dentro de uma dualidade que vai do medo ao conforto, muitas vezes mesclando as duas propostas na mesma cena. A trilha sonora é cuidada pelos Newton Brothers (clique aqui para ouvir no Spotify) e combinada a um design de som magnífico nos emerge na nostalgia da obra de 1980, sem deixar de ter uma personalidade muito própria e interessante.

Agora não dá para dizer que não existem questões prejudiciais nessa adaptação, infelizmente, porque elas são bem palpáveis. Um filme com 2 horas e 31 minutos de duração poderia ter seu tempo mais bem distribuído, o que colaboraria para uma exploração mais rica de coadjuvantes importantes na história, além de um cuidado maior com o desfecho, que se comparado ao início do longa é bastante encurtado. Não que a obra se torne necessariamente cansativa, mas fica óbvio que certas partes foram alongadas sem o retorno esperado, perdendo objetividade e outras foram completamente ignoradas, nos tirando da potência de um clímax bem desenvolvido!

Ainda assim, “Doutor Sono” é bastante envolvente em sua premissa de nos mergulhar em um clima constante de terror e encantamento, algo típico nas obras de Stephen King e que é muito bem trazido para as telas de cinema mais uma vez. Um cuidado maior para evitar inchaços e situar mais caprichosamente certas situações teria nos premiado com um filme ainda mais enxuto e coeso, mas o resultado que nos é brindado é satisfatório, especialmente para os fãs incontestáveis desse autor!

Nota: 8,5

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