Enquanto a gente não se vir como opressor, a opressão não acaba

É preciso exorcisar o colonizador que habita dentro de cada um de nós, participantes do patriarcado branco

Alessandra Nahra
Revista Subjetiva

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Salvador. Foto da minha amiga Angela Pires, mãe de Oliviana, a figurinha que atravessa a rua.

Mestre Moa do Katendê morreu assassinado na noite de domingo, em Salvador, após uma discussão com um eleitor do Bolsonaro.

Mestre Moa era amigo do meu mestre de capoeira Angola, Zelão.

(o que eu estou fazendo na capoeira e o que busco lá é incerto — eu não tenho resposta. capoeira Angola não é esporte, é cultura, é resistência de um grupo do qual não faço parte. ou seja, eu não pertenço ali, e este é um dos motivos pelos quais hoje em dia eu não mais me coloco como participante, mas como amiga e observadora externa).

Zelão chamou todo mundo lá segunda-feira à noite para uma conversa. Apesar de não estar mais frequentando os treinos, eu fui. Para oferecer minha solidariedade ao meu mestre querido e às pessoas do grupo, que estão se sentindo ameaçadas (muito mais que eu). E para ouvir. Eu preciso aprender. Tenho lido Rachel Cargle e Ijeoma Oluo e tô aprendendo que não basta não ser racista, é preciso ser anti-racista. Eu tenho MUITO a aprender com a capoeira Angola, concluo.

Zelão contou um episódio relatado por um amigo. Uma pessoa perguntou a esse amigo em quem ele tinha votado. Ele deu a resposta que se tornou impopular desde o golpe. A outra pessoa o ofendeu abertamente. O amigo olhou, disse "tudo bem", foi embora.

Nesses tempos, disse Zelão para o grupo de pessoas jovens e na maioria negras, é preciso usar mais a negativa (negativa é um movimento de capoeira através do qual o jogador se esquiva de um golpe). Não é momento para sair reagindo ou atacando.

Uma menina perguntou "por que estamos com tanta raiva?" (mestres de capoeira não ensinam só a jogar; são quase como o Yoda). Nesse ponto eu tive vontade de responder também, mas NÃO É MEU LUGAR DE FALA. Eu estou ali para aprender e escutar. Aliás, é algo que comecei a aprender com a permacultura. A exorcizar o colonizador que habita dentro de mim. A ficar quieta e ouvir.

O que eu tive vontade de dizer era uma hipótese para explicar a raiva. Que eu tinha lido aqui nesse texto de umair haque. O título e sub, em tradução livre, é mais ou menos Por que o mundo está desmantelando — o que acontece quando as pessoas descobrem que o capitalismo é uma mentira. Ele diz que o capitalismo promete algo que não pode cumprir: prosperidade para todos. Não pode cumprir por duas razões: a prosperidade defendida pelo capitalismo é dependente da acumulação e do consumo, há que se produzir cada vez mais; no entanto, não é possível crescimento infinito em um planeta de recursos limitados — e o resultado é a grande destruição ambiental e humana que estamos testemunhando. A segunda razão é que a premissa do capitalismo invalida a promessa dele: para que alguns tenham dinheiro e riquezas, outros devem permanecer na miséria e sendo explorados. Não, amigos, vocês não vão "chegar lá" através do trabalho duro e honesto. Poucos chegam. Segundo o autor, o sistema está implodindo pelo esgotamento. E as pessoas estão se dando conta de que nunca vão ser ricos como seus modelos de sucesso na vida. E estão ficando com raiva. E, dependendo do contexto do país, isso descamba aonde? No fascismo e totalitarismo. Tchan.

A mentira que foi o capitalismo produziu exatamente o oposto do que prometia às pessoas. O proletariado nunca se tornou um capitalista. O capitalista nunca se tornou uma pessoa civilizada e democrática. Todos não tiveram uma vida melhor. Pior de tudo, os vencedores não eram os nobres e justos. Eles eram, e são, o indecente e o obsceno, o vergonhoso e o predatório — os Trumps do mundo. Por isso, naturalmente, há cada vez menos pessoas que acreditam na mentira tola e infantil do capitalismo.

— umair haque

Ontem, também motivado pela morte de Moa, recebi pelo Whatsapp uma porrada — quer dizer, um texto escrito por uma pessoa que eu não sei quem é — mas que certamente é negro e obviamente está farto. Não preciso nem dizer do que ele está farto — ou talvez precise, porque o ponto do desabafo dele passa por aí: o quanto a gente, classe média branca, ignora a questão racial e o racismo diário com o qual o povo negro convive há séculos. Inclusive a gente, os cultos, de esquerda, que fazem capoeira e vão na manifestação da Marielle: a gente tem certeza que não é racista. Mas o moço que escreveu o texto denuncia: quando você fala que a morte da Marielle foi fascismo, você está apagando o racismo. Tem que dar o nome certo: é racismo. Um monte de branco no partido, ele diz, e quem morre? A negra. Mas essa não é a nossa pauta. Então a gente chama de fascismo, que é o que nos toca, e cobre o espelho, porque não gostamos da imagem que ele reflete.

(depois eu achei o autor e o texto aqui no Medium, e é uma leitura fundamental pra quem quer tirar a bunda branca do conforto da poltrona reclinável; vai lá e lê o texto do Maicol William: Morto, espremido entre o racismo da direita e o da esquerda).

Digo aqui como disse no caso da Marielle: não teria acontecido se as pessoas que choram sua morte fossem de fato cotidianamente firmes contra o racismo. O mesmo pro Bolsonaro. Ele não chegaria até aqui se as pessoas que são contra ele fossem de fato contra o racismo. A gente não precisaria da marcha do #elenão se a galera ali fosse de fato de combater o racismo. Se fossem contra o racismo mesmo, nada disso teria acontecido. Porque como já disse, machismo, homofobia, classismo e toda essa forma destrutiva de se relacionar com o outro, incluindo aí a natureza, decorre do racismo. É uma sobreposição de modos culturais.

— Maicol William

Enquanto a gente não se vir como opressor, a opressão não acaba. Enquanto eu não reconhecer o opressor DENTRO DE MIM (como uma pessoa de classe média branca privilegiada que nasceu no sul do país e sempre teve comida, escola particular, suporte familiar), nada vai mudar.
O patriarcado branco é daninho, mano. Fato. Encara. "Só ver que, onde foram, derrubaram sociedades equilibradas/prósperas. Encontraram sociedades em que se vivia em comunidade, sem o classismo, destruíram; encontraram sociedades que viviam o matriarcado, mulheres no topo, destruíram; encontraram sociedades em que se reconhecia uma diversidade de gêneros, destruíram (já li sobre uma que reconhecia papo de uns 7 gêneros); encontraram sociedades que viviam em equilíbrio/harmonia com a natureza, destruíram. Enfim, todas as relações equilibradas e respeitosas que vocês buscam agora carecem de precedentes na sua própria historia/sociedade, e na nossa vocês destruíram, por racismo", atira Maicol.

Eu sei que tá todo mundo com raiva dos bolsominions e eles de nós, mas filho, deixa eu te dizer, a gente tá todo mundo junto nessa. Essa foi uma das respostas que Zelão deu ontem pra pergunta da menina. É uma construção conjunta. Eles existem porque todos nós criamos as condições para que eles existissem. Zelão deu o exemplo de Hitler na Europa: não existia apenas o Hitler. A Europa era toda Hitler. Inteiramente. O fascismo no Brasil não começou com o Bolsocoiso. A mentira do capitalismo, aliado ao nosso "ai, não tenho nada a ver com isso" criou o que a gente tá vendo hoje. E a classe média apavorada. Anos pisando em caixas de ovos, tentando não quebrar a frágil estrutura que sustenta seus empregos, sua vida bonita, apê e carro na garagem. Contaram uma mentira pra todos nós, e a gente acreditou, porque era confortável. Só que a gente acreditar nisso custa sangue.

Deixa eu te dizer, se tu ainda não percebeu: não tá tudo bem. Mas não é de agora: há 500 anos não tá tudo bem. Esse país é forjado em dor, sofrimento, escravidão, violência, destruição. Tu pode ter conseguido sobreviver na tua torre de marfim fingindo não notar a miséria, a pobreza, a exploração, o racismo. Mas, se tem um ponto positivo no que está acontecendo com esse país agora é que não tá mais dando pra fingir que tá tudo bem.

Vai lá e trabalha todos os dias pra expulsar o colonizador de dentro de ti assim como a gente toma chá de mastruz pra cagar verme.

Já vai ser um começo.

Gosto de hortas, bichos, dança, sol, mar, mato, gente pelada, comida-planta, amor, desejo, entusiasmo, gratidão. MAS ATUALMENTE TÔ COM RAIVA TAMBÉM, pelas minhas irmãs de planeta que estão sendo perseguidas, e não ando conseguindo ser fofa. Mas como eu acho que sem afeto não se vai a lugar nenhum, fica aqui meu amor e um ❤

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Alessandra Nahra
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Escrevo, planto, estudo, viajo. Falo com bichos, abraço árvores, e vice-versa.