Entenda a situação política e histórica da Somália

No sábado, dia 14 de outubro de 2017, aconteceu o pior massacre na história da Somália, dois caminhões-bomba mataram pelo menos 300 pessoas e deixou mais de 300 feridas, e o número de mortos pode aumentar. O mais provável culpado é o grupo extremista Al-Shabab.

A instabilidade na Somália não vem de hoje, se formos contar desde o golpe militar sofrido no país já são 48 anos, mas se contar desde a sangrenta Guerra Civil são 26, e mesmo assim é ignorado pelas agências internacionais. A primeira vez que tive contato com a história do conflito somaliano, eu tinha 14 anos, que obviamente não foi no colégio, pois sabemos como o ensino sobre a África é escasso, mas foi através de um programa que passava no canal Multishow, chamado “Não Conta Lá Em Casa”, onde André Fran, Felipe UFO, Bruno Pesca e Leonardo Campos tinham como destino os lugares mais polêmicos do mundo e um desses lugares foi a Somália.

Nunca tinha ouvido falar sobre este país, mas como sempre me interessei pela a histórias dos países, principalmente os do Oriente Médio e da África, fui pesquisar sobre e infelizmente me deparei com um país devastado por guerras e considerado um dos países africanos que mais se teve conflitos no último século.

A história dos conflitos na Somália

A República Democrática da Somália é o país mais oriental do continente Africano, localizado no conhecido como o “Chifre da África”, um lugar estratégico geopoliticamente, que durante sua história foi colonizado por diversos países, como Portugal, Itália, Reino Unido e França.

Praticamente toda a população da Somália pertence a mesma etnia, que é a Somali e dentro dela se encontra a divisão em duas principais famílias de Clãs: Somale e Sab. Esses dois clãs são divididos em seis principais subclãs: Hawie, Dir, Isaq, Darod, Digil e Rahawayn. Cada clã tem uma espécie de “contrato social” onde todos os membros que fazem parte daquela sociedade devem respeitar suas leis e cultura. A maioria segue o islamismo sunita.

O país foi castigado por muitas tragédias e se for falar de todas detalhadamente, este texto ficaria com milhares de horas de leitura, então fiz um recorte histórico, onde irei tratar apenas dos conflitos internos que aconteceram a partir de 1969.

A Somália ficou dividida entre Itália, Reino Unido e França até 1960, quando as áreas divididas entre os italianos e britânicos uniram-se, formando a República Somali, onde não dura muito tempo devido a brigas de como dividir as tarefas, então pouco tempos depois, um referendo aprovou a unificação dando origem a República da Somália em 1 de julho de 1960.

O presidente eleito foi Abdirashid Ali Shermarke, da Liga de Juventude Somali, que fica no poder de 10 de junho de 1967 até 15 de outubro de 1969, dia que é assassinado por seu guarda-costas, que afirmou ter matado o presidente por ter sido mal tratado. Aproveitando a instabilidade, com acusações de compras de voto pelo governo, no dia 21 de outubro de 1969, liderados pelo general Mahammad Siad Barre, as unidades do exército tomaram posse de lugares estratégicos do país e instituíram o golpe. O Conselho Supremo Revolucionário, novo órgão do governo, nomeia Mahammad Siad Barre presidente e com isso tomam o palácio presidencial prendendo os lideres democráticos, abolem os partidos políticos, fecham a Assembléia Nacional e suspende a constituição.

Mahammad Siad Barre

Barre quando assume se vê no meio da Guerra Fria, e entre 77 e 78 acontece a guerra contra a Etiópia. O conflito foi um cenário clássico da época, onde a Somália era apoiada pelos EUA e a Etiópia pela União Soviética. O conflito que ficou conhecido como a Guerra do Ogaden, acaba no dia 15 de Março de 1978, com a derrota Somali. A derrota causa revolta da população que fica impaciente com a sua liderança e acaba deixando um vácuo de representatividade, com um governo enfraquecido, e com a moral baixa.

Em paralelo a tudo isso, durante a década de oitenta, grupos de facções internas começam a se fortalecer, pois estavam revoltados com o atual governo, que tentou de todas as maneiras ir contra a estrutura da sociedade somali, fazendo políticas contra o sistema de clãs existentes, e claro, os clãs menores eram os que mais sofriam com repressões.

As principais facções que se formaram na época foram: a Frente Democrática de Salvação Somali (FSDS), formada majoritariamente pelo clã Majerten; o Movimento Nacional da Somália (MNS), formado pelo clã Isaaq; o Congresso Somali Unido (CSU), liderado pelo clã Hawiye.

O principal grupo formado foi ao norte do país em 1987 até 1990, onde conseguiram adquirir grande controle do território somali, fazendo com que o governo no final de 1990 tivesse controle apenas de 10% a 15% do território. Porém, devido as diferenças internas, como classe e etnia, em 1991, o grupo foi desfeito e dividido em dois: MNS ao norte e Movimento Patriótico Somali (MPS) ao sul do país. No nordeste, a FSDS já dominava os territórios e o CSU estava na capital pressionando cada vez mais o governo.

Com o crescimento do poder dos rebeldes, fica inviável que Barre continuasse no poder, então em janeiro de 1991, os movimentos vão a capital do país, Mogadísco, e decretam de vez a queda dos militares e a partir deste momento a Somália entraria em uma espiral de crises que até os dias de hoje não conseguiu se recuperar.

A deposição do presidente apenas trouxe instablidade, transformando o sul e o centro do país campos de batalhas entre os grupos lutando para conquistar o controle dos territórios. A Somália em 1991 entra em um estado de anarquia, gerando violência e acentuando ainda mais a pobreza.

Por não existir mais unidade nacional, o país se fragmentou em 4 regiões. A única que se auto-declarou independente foi Somalilândia ou Somaliland em 18 de maio de 1991, e foi a única região que conseguiu manter uma existência estável, devido ao forte domínio do governo e boa infraestrutura econômica, mas não foi reconhecida por nenhum país. As outras três reivindicaram autonomia dentro de uma Somália unificada e de paz: Galmudug, Puntlândia e Maakhir.

Outro diferencial da Somalilândia com as outras regiões é como os clãs se tratam. Em Somalilândia os clãs mesmo que diferentes conseguiram criar um interesse em comum, que é lutar pela independência de seu país, já nos outros, principalmente na capital da Somália, os clãs não se respeitam, apenas se matam para ver quem irá conseguir dominar aquela terra.

Bandeira de Somaliland

Somalilândia não conseguiu reconhecimento internacional de sua independência por fatores como a ONU acreditar que esse é um problema da União Africana, mas os países da União Africana tem seus conflitos internos e não tem interesse de se meter no conflito separatista de outros países, pois se interferissem abririam precedentes contra si mesmos.

A partir de 1992, a ONU inicia a sua entrada na Somália, através de uma ação humanitária, encabeçada por tropas dos Estados Unidos — que tinha interesse no Petróleo — , porém a operação foi considerada um fiasco que ficou marcado com a morte de 18 soldados norte-americanos, e sem números oficiais, a estimativa foi de 1000 à 3000 rebeldes mortos da Aliança Nacional Somali e civis durante a Batalha de Mogadíscio. Em 2001, a batalha virou o filme “Falcão Negro em Perigo”.

Neste momento, o conflito estava dividido em 3 “Senhores da guerra da Somália”: Hussein Farrah Aidid, seu filho Mohammed Farah Aidid e Mohammed Said Hersi Morgan.

Após a primeira intervenção com centenas de mortos, a ONU volta a Somália com outras operações, com a finalidade de estabelecer um ambiente seguro para que a assistência humanitária chegasse, porém, devido as grandes baixas em dezenas de batalhas, os americanos deixam o país em 1993, deixando a ONU e sua tropa sozinhas, onde em 3 de março de 1995 batem em retirada.

Com isso as facções ficam isoladas lutando uma contra a outra, em um território devastado pela guerra, até quando finalmente em 2000 realizam uma reunião no país vizinho, Djibuti, com mais de 200 delegados somalis. O evento acabou estabelecendo a criação de uma Assembleia Nacional e repassou o governo ao presidente Abdulkassim Salad Hasan. No mês de outubro, o novo governo foi formado. Logo em seguida, alguns grupos armados dissidentes não reconheceram a nova autoridade e, com isso, preservaram o desgastante estado de guerra.

Abdulkassim Salad Hasan

Em 2004, se realizou uma nova reunião entre os diversos grupos envolvidos e se formou o Governo Federal de Transição (GFT), que iria fazer a transição para um Governo Federal da Somália. Em outubro de 2004, acontece a eleição para presidente no Nairobi, Quênia, pois a Mogadíscio estava perigosa demais, pois estava sendo controlada pelos “Senhores da Guerra”, que jamais deixariam a votação ocorrer em paz. Elegem Abdullahi Yusuf Ahmed como presidente do Governo Nacional de Transição.

Abdullahi Yusuf Ahmed.

União dos Tribunais Islâmicos

Enquanto os grupos se preocupavam com os acordos, nos territórios ia crescendo a União dos Tribunais Islâmicos e rapidamente conseguiram dominar a capital Mogadíscio em 2006. O grupo surge com o apoio de empresários locais para restabelecer a ordem na capital que estava tomada pelos rebeldes.

Apesar de ter aparecido forte somente em 2006, o grupo estava desde a queda de Barre fazendo uma espécie de trabalho de base, com as côrtes islâmicas baseadas na Sharia, oferecendo serviços como educação e saúde, já que o Estado não estava mais presente. Tinham sua própria polícia para reduzir a violência local, com isso a população que já era predominantemente muçulmana vê nessa instituição algo que estavam precisando e a apoiam fortemente.

Bandeira do Conselho Supremo das Cortes Islâmicas.

Após anos preparando o terreno de conquista da população e de terra, conseguem montar uma milícia forte e em maio de 2006 entram em conflito com a Aliança para Restauração da Paz, iniciando a Segunda Batalha de Mogadíscio, que destrói a tentativa de formação de um governo central forte e novamente a Somália esta imersa em uma guerra civil.

Rapidamente as milícias islâmicas tomaram partes importantes do país, desesperado com o número de mortos e perdendo território, em junho de 2006 o governo somali de transição assina um acordo com a UCI de reconhecimento mútuo.

Em Julho de 2006, mesmo com o acordo, a UCI já controlava todo o sudeste do país e a capital, e avançava por mais, por isso o governo de transição pede ajuda ao Conselho de Segurança da ONU, que envia força militar. Com essa ajuda, conseguem tomar de volta as cidades que estavam nas mãos da UCI, inclusive Mogadíscio. As tropas dos países ficam até 2008 — entre eles a Etiópia, que também estava em guerra com o grupo islâmico — quando é assinado um acordo de cessar fogo.

Em 2009, com a saída completa das tropas, se inicia a organização de um novo Parlamento, que agora é tomado pela oposição islâmica moderada, mas fora o governo tem que enfrentar as milícias islâmicas extremistas como o grupo Al Shabab, ala radical da União das Cortes Islâmica.

Al Shabab

Harakat al-Shabaab al-Mujahidden, mais conhecido como Al Shabab, que significa “A Juventude” em árabe, nasce no início dos anos 2000, entretanto se fortalece a partir de 2006 como uma ala radical da UCI. Segundo estimativas, o grupo tem de 7 mil a 9 mil combatentes.

Sua finalidade é estabelecer um “Estado Islâmico Somali”, pra isso conta com diversas alianças com grupos terroristas, como a Al-Qaeda desde 2012, que hoje em dia não é mais tão forte, mas continua com bastante influência na região; Boko Haram da Nigéria; e o Daesh (Estado Islâmico), devido a proximidade de suas ideias e o grupo ter começado a usar as mesmas técnicas de ataques, recrutamento e propaganda, como vídeos atrativos aos jovens, semelhante aos do Daesh.

O único país que se tem evidências de apoio ao grupo é a Eritreia, que apoia o movimento extremista para se opor à sua principal inimiga Etiópia que tem relações próximas com a Somália e com tropas no país. Mas o país nega o apoio.

Defendem a versão Wahabista do Islã, que é uma corrente ideológica muito antiga da religião e se destaca entre os fundamentalistas por ser extremamente literal em sua interpretação. E por não respeitar a orientação do outro, perdeu o grande apoio popular da época da UCI. Nas suas áreas de controle, impõe as leis rígidas da Sharia — que é o código de leis do islamismo — com perseguições e mortes de quem não respeita tais leis.

O recrutamento é feito nos mesmos moldes do Daesh, através de propagandas chamativas pela internet e de sequestro de jovens de idade escolar, no qual são obrigados a lutar e morrer na guerra. Se acredita que o grupo tenha milhares de estrangeiros, do Afeganistão e Paquistão, no qual já tem experiencia de batalha em seus países, e do ocidente também, principalmente britânicos e americanos.

Cinco anos depois após de seu fortalecimento, em 2011 o grupo já controlava 55% do território somali, com isso começou a se expandir para fora do país, chegando ao Iêmen, Nigéria, Quênia, Uganda e Etiópia.

Temendo cada vez mais esta expansão em 2011, as forças da União Africana, expulsam o grupo da de Mogadíscio, porém a Somália é um país majoritariamente rural, então os extremistas se aproveitam disso para se instalar em vilarejos, explorar seus moradores obrigando-os a pagar uma certa quantia, assim conseguem se manter.

Devido a perda de territórios importantes, com isso, combatentes e dinheiro, começou a focar em ataques terroristas em diversos países africanos em represália a intervenção das tropas da União Africana na Somália. Os principais foram em 2010, matando 76 pessoas em um ataque suicida duplo na capital de Uganda, Kampala; em 2013 assumiram a responsabilidade pelo ataque que deixou dezenas de mortos num shopping de Nairóbi, também no Quênia; Em abril de 2015, o Al-Shabab atacou o campus de uma universidade na cidade de Garissa, no noroeste do Quênia, e deixou mais 147 estudantes mortos; e agora na Somália o mais mortal de todos com mais de 300 mortos e 400 feridos.

Após passar por tantos capítulos de conflitos, fica claro que os motivos do país se encontrar no caos são múltiplos e de anos. Onde envolve fatores internos e externos, como o fim da guerra fria e com isso a suspensão de ajuda internacional, pois não era mais interessante geopoliticamente. A derrota na guerra do Ogaden levou o governo a perder o apoio popular, o que internamente favoreceu o crescimento dos grupos insurgentes, devido a repressão de Barre contra a estrutura dos clãs. Sem um governo forte, que conseguisse suprir a necessidade do povo, grupos radicais viram um bom terreno para crescer, e assim nasce o Al Shabab, suprindo todas as necessidades da população e em troca impondo suas leis radicais.

Assim sendo, não devemos apenas lembrar de Paris, Orlando ou Barcelona, pois todos estão sendo vítimas do mesmo radicalismo — lembrando que não existe apenas islâmico, pois no Brasil, por exemplo, estamos vivendo uma época de fundamentalismo cristão forte, com ataques a terreiros e a pessoas que seguem religiões de matriz africana; ataque aos direitos das mulheres, aos LGBTQ e outros pela bancada evangélica no Congresso — , então devemos sim nos preocupar e pressionar os meios de comunicação que divulguem, pois apenas com a divulgação vamos entender o que acontece nessas regiões que são ignoradas pelos governos do mundo todo e assim chamar atenção para sua falta de direitos humanos. A mídia, seja ela grande ou pequena, ou apenas pessoas autônomas falando sobre o assunto fará com que os governos tomem finalmente medidas de socorro esses países.

Mesmo que os ignorantes achem que não, a vida do norte americano vale a mesma coisa que a do somali, que vale a mesma coisa do russo, que vale a mesma coisa que o do brasileiro. Todo tipo de ataque a vida deve ter a mesma importância e não uma indignação seletiva, devido a cor da pele, religião, nacionalidade ou gênero.


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