Entre o racismo institucional do IBGE e a assertividade criminosa da polícia, somos todos fatalmente negros.

A celeuma entre tonalidades de pele diversificadas dentro da população negra é real e ilustra muito bem o porque eu sou uma defensora ferrenha da anulação do termo ~pardo~ inclusive como tática racista institucional, mantenedora do apagamento de identidades negras pela continuidade do processo de miscigenação imposto e criminoso.

O IBGE faz essa divisão. Muitas instituições, com a desculpa de estar seguindo a classificação do IBGE também usam essa divisão.

Ela é ineficaz e sem sentido, só corrobora com o colorismo que no Brasil, é bastante hábil em manter a alienação de pessoas negras de pele clara.

É fato que pessoas negras de pele clara, acabam por se tornar afroconvenientes e fingir para si mesma que é aceita pela branquitude, quando lhe convém.

Um bom exemplo disso, são as mulheres negras de pele clara que, criticam mulheres negras de pele escura que denunciam o seu preterimento e a exclusão que sofre no ~mercado afetivo~, usando como argumento que se relacionam com homens brancos e negros.

Ora…sabemos que homens negros e brancos, quando se relacionam com mulheres negras de pele clara, em geral, estão “disfarçando” a negritude dessas mulheres e se apoiando do estereótipo da mulata. Tão logo a canalhice deles vem a tona, essas mulheres são abandonadas e/ou trocadas pela mulher branca padrão de aceitabilidade social para o homem branco e passaporte do homem negro para adentrar a sala de estar da branquitude.

Homens negros de pele clara agem de maneira mais triste ainda…eles simplesmente se embranquecem, jogam no lixo sua negritude, se valendo de maneira cínica do colorismo da branquitude.

Até que um dia recebem uma banana na cabeça de algum europeu racista (redundância) acompanhado de um sonoro “MACACO!” Depois disso, alguns acordam do sonho dourado de uma identidade branca inexistente.

Existem ainda, aqueles que se valem da miscigenação óbvia do Brasil, para se aproveitar da onda de Empoderamento negro alardeada pela mídia e que força uma negritude por parte de algum parentesco, mas se esquece que a leitura social aqui é determinante das mazelas do racismo que o indivíduo irá sofrer. E essa leitura condena pela tonalidade da pele e pelos traços negróides visíveis combinados.

É uma covardia, pessoas lidas como brancas, se passando por negras quando lhes convém. Até porque essas pessoas são, grosso modo, colaboradoras incansáveis da ideologia racista e não pensam duas vezes em deixar isso bem “claro”. Particularmente, considero extremamente agressivo, ver pessoas que tem descendência negra se assumindo como negro e falando sobre coisas que nunca viveu, porque sua leitura social é de pessoa branca, suas oportunidades são pautadas por essa leitura e o acúmulo de privilégios é óbvio.

Ainda que a intenção dessas pessoas pareça boa, elas exitam em romper com o privilégio que tem e não expõe essa face nociva do colorismo.

Não se comportam nem como aliados e ainda esvaziam os discursos antirracista, afirmando com as próprias atitudes que toda crítica racial é vitimismo, já que a pessoa branca, ao não reconhecê-la como negra, sabe inclusive que ela não experimentou os problemas que está relatando.

Mas, não faz sentido, cairmos em um abismo de discussões intermináveis, quando o foco deve ser a luta contra o racismo e todas as práticas que o sustentam, incluindo o colorismo, que é um ponto de discórdia e confusão entre pessoas negras, que se mostra bastante eficiente.

Somos todos pessoas negras, de pele clara ou escura, guardados os devidos níveis de visibilidade dos traços negróides ou do fenótipo incontestável.

Não importa a tonalidade. O que não podemos é, reproduzir racismo entre nós. Ou cair na ilusão de que, por ter a pele mais clara e traços “suaves”, está isento do racismo.

Não está. Duvida?

Pergunta pra polícia.

Ela é mais habilidosa que o IBGE em enxergar que somos todos negros e portanto, indesejáveis dentro de uma sociedade estruturada pelo racismo e suas práticas.