Escrever ainda é um privilégio

A importante discussão sobre quem, de fato, domina a escrita.

Certo dia, estava na sala junto com meus avos, eles assistiam televisão e eu rolava o Facebook no meu celular incessantemente, tentando achar algo interessante. De repente, minha avó me pergunta se eu posso escrever algo para ela colocar no livro da minha irmã, que tem seis meses. Sem entender o porque de eu escrever, pergunto-lhe o porque. Ela me diz que tem medo de escrever errado, assim como meu avô também, e de não querer que minha irmã no futuro veja dessa forma. Na mesma hora, me faltou palavras.

Meus avos — nordestinos de origem, ambos não terminaram o Fundamental I, trabalharam na roça desde pequenos, apostaram sua vida vindo para o Rio de Janeiro nos anos 80 — com medo da lembrança que minha irmã terá deles ser “falha”, segundo o padrão conservador, tradicional e clássico da norma culta. Infelizmente, ainda há o pensamento de que quem domina o padrão conservador, tradicional e clássico da língua portuguesa poderá ascender socialmente. É uma falácia, porque se fosse assim todo professor de português estaria no topo da piramide social, porém, não é isso que acontece na maioria das vezes. Ao contrario, fazendeiros que não dominam o português básico, detém hectares e hectares de terra, mandando e desmandando naquele território. A norma culta não lhe faz ascender socialmente, o que lhe faz é possuir condições financeiras para isto.

A lógica do mérito ainda está enraizada na nossa sociedade como força de fazer as pessoas se esforçarem para chegar a algum lugar, sendo que não passa de uma crença, porque se fosse dessa forma pessoas como meus avos que trabalharam dia e noite toda sua vida estariam, hoje, no topo da pirâmide. Na realidade, este topo é apenas para os 5% mais ricos do Brasil e do mundo, sem a desigualdade não há acumulo de riquezas, de saberes, muito menos hegemonia.

Escrever ainda é um privilégio para muitos, ainda existe o não aceitamento da multiplicidade de formas de linguagem e expressão no português brasileiro, ainda existe um conservadorismo de querer que exista apenas um padrão. A sociedade sobrevive desses padrões, sempre haverá um conservadorismo impedindo o progresso. A tradição transmite segurança, o descobrimento do novo só vem pelo desapego dela. “Encontramos as coisas boas nas nossas frustrações”, diria Heidegger.

Mariana, minha irmã, num futuro não muito distante, lembrará-se das boas lembranças, dos bons momentos, carregará com ela cada segundo vivido ao lado daqueles que a amaram como se não houvesse amanhã, assim como eu. Escrever é apenas uma forma de registrar uma pequena porcentagem de tudo que vivemos, uma forma de expressar, desabafar, sentir. Toda vez que você, caro/a leitor/a, escrever, lembre-se que isso ainda é um privilégio, há quem não consiga tal feito, e quando você se deparar com esse tal alguém, não a corrija, incentive-a.


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