Estagiário de mídias sociais malhava peito quando descobre que fez besteira

Henrique malha peito enquanto ouve “Notificação Preferida”, de Zé Neto e Cristiano.

Uma notificação toca no meio da música. Henrique para de malhar peito.

Não, não é das preferidas.

É o chefe. A mensagem dizia:

“Que porra foi essa henrique??”

Henrique tira suas luvas de musculação e desbloqueia o celular.

Renato digitando…

Renato: porra henrique. tá dando merda no instagram.

Renato digitando…

Renato: haroldo do jurídico acabou de me passar um zap. vai dar processo.

Henrique clica no botão de áudio e começa a falar.

“Renato, o que houve? Não tô entendendo nada. Tô na academia, mas qualquer coisa me liga.”

Henrique é estagiário e gere seis contas de Instagram pra empresa de comunicação do Haroldo. Cada conta é de uma marca diferente. Hoje é dia das crianças e o rapaz fez uma postagem comemorativa pra todas as marcas.

Pode ter dado merda de seis maneiras diferentes.

Henrique não se deu o trabalho de conferir, conta a conta, o que podia ter dado merda.

Ele precisava concluir sua série de peito.

E voltou a malhá-lo.


Começa a tocar “Poesia Acústica #6 — Era Uma Vez”, de vários artistas. É o toque de celular do Henrique.

Na tela, a foto de Renato. Henrique atende.

“Oi, Renato.”

“Porra, Henrique. Que porra foi aquela que tu postou no Instagram da Lady Modas?”

Henrique faz a careta de quem acabou de tomar uma tequila de procedência duvidosa.

“Pô, então foi aquilo…”

“Foi aquela porra, Henrique. Foi aquela merda.”

“Desculpa, Renato.”

“Agora tu vem me pedir desculpa? Tu não teve aula de ética na faculdade, não?”

Na verdade, Henrique teve. Mas não era muito assíduo em “Ética Comunicacional I”. Costumava ir pra praça, em frente ao campus, beber com os amigos da Atlética.

“Me explica um negócio, Henrique. Você botou uma foto de uma figura pública sem a autorização dela, porque querendo ou não, aquela Melody é famosa.”

Henrique ouvia a tudo enquanto respirava fundo, ainda sentado no aparelho de malhar peito.

“Depois, tu fez uma montagem dessa garota, que tem 11 ANOS. Porra, vou repetir: 11 ANOS!, e vestindo uma lingerie da Lady Modas.”

“Errei.”

“A Lady quer comer o meu cu, Henrique! Comer o meu cu!”

“Eu achei que ia hitar, Renato.”

“Como é que é?!”

“Hitar. É uma expressão que a gente usa quando alguma coisa fica famosa nas redes sociais.”

“Então tu conseguiu, meu filho. O energúmeno do Felipe Neto compartilhou essa merda. Tá denunciando o pai dela no Ministério Público.”

Henrique se anima.

“Então o processo não é com a gente, né? É do Felipe Neto com o pai dela.”

“Porra, Henrique. Raciocina, cara. Raciocina uma vez na vida. Malha a porra do cérebro!”

Henrique se desanima.

“O pai tá sendo processado, mas também tá processando a gente. Difamação e uso indevido de imagem.”

“Caraca, mas eu fiz a postagem tem nem quatro horas.”

“É a internet, Henrique. Você nunca teve aula de internet, não?”

Na verdade, teve. Mas Henrique estava usando seu smartphone (conectado à internet) e não prestava a atenção na aula “Marketing para Novas Mídias”.

“Henrique, por que você fez isso, meu filho?

Henrique dá de ombros.

“Não sei, Renato. É dia das crianças, cara. A Melody é uma criança precoce, vive fazendo clipe de biquíni. Peguei e fiz uma montagem dela com a lingerie da Lady Modas. Mas eu expliquei, pô. Tá escrito na foto: ‘sua filha está se tornando uma moça? Nessa fase especial, dê a ela uma Lady Modas’.”

Silêncio na linha.

No sistema de som da academia, toca “Péssimo Negócio”, de Dilsinho.

“Henrique, você tá se ouvindo, meu filho?”

Henrique não responde.

“Tem cabimento o que tu fez?”

Henrique faz sinal de negativo com a cabeça, ainda sem palavras.

“Você tá demitido, cara. O processo tá na tua conta. Entro em contato com você em breve pra te atualizar dos trâmites legais.”

Renato desliga.

Henrique recoloca suas luvas de musculação, mas com desânimo. Diminui 10 quilos no aparelho e volta a malhar peito.

Henrique, quinto período de Publicidade e Propaganda, entrou por ampla concorrência na UFF, conseguiu um estágio, através de indicação do pai (também publicitário), na RR Comunicação Digital.

1400 reais de bolsa. 165 de auxílio alimentação. 30 horas semanais.

Em sua entrevista de estágio, passou por ser descolado, ter mais de 5000 seguidores no Instagram, ter nascido em família de nome, ser secretário de comunicação na atlética de sua faculdade e, sobretudo, heavy user de redes sociais.

Jovem, bonito, solteiro, de classe média e, agora, desempregado.