Foto reproduzida da Internet.

Eu atirei em um homem

"Eu não acredito que eu fiz isso!"
"Eu não queria..."
"Eu..."
"O que eu faço agora?"

"Ele mereceu!"
"Você não me ama mais?"
"Acho que não!"

Tinha acabado de chegar em casa, estava trabalhando muito naquele verão, e me encontrava extremamente exausta de passar um mês fazendo hora extra, sem folga, porque nós estávamos tentando comprar um carro.
Passavam das onze da noite quando cheguei em casa e encontrei tudo escuro. Estava no corredor do nosso quarto e escutei alguns gemidos, não me toquei, achei que talvez ele estivesse vendo algum filme adulto. Foi quando cheguei no quarto e me deparei com os dois entrelaçados na cama.

Fiquei paralisada por alguns segundos tentando processar aquilo tudo sem sucesso, quando lembrei que tinha um revolver na bolsa, pequeno e prateado com detalhes em madre perola no cabo, tinha sido um presente do meu avô. Só o carregava como uma forma de me lembrar dele, que era um grande colecionador de armas. 
Peguei ele e sem pestanejar, atirei. Foi uma reação automática.

Foi como se meu corpo quisesse fazer aquilo.

"Meu Deus, o que eu fiz?"
"Será que ele ainda está respirando?"
"Porquê você fez isso comigo?"
"Você não me ama mais?"

Ele balbuciou que iria ligar pra polícia. Mas eu não deixei e ele não protestou, estava muito assustado pra se mexer. 
Eu estava furiosa. Apontei a arma pra ele, perguntei quem era aquele homem que eu tinha acabado de matar. Ele sussurrou que era um amigo.

“Bom, era! Agora está morto!”

Encostei o cano do revolver em sua têmpora:

"Me ajude a sumir com o corpo! AGORA!"

Eu tinha uma vaga ideia de como ocultar um cadáver. Então tracei um plano. 
Iríamos desmembrá-lo. Colocar as partes em caixas de isopor e levar para o quintal da casa. O quintal em questão era grande e cheio de entulho. Lá tinha um tambor de latão, nele queimaríamos o corpo e quando sobrassem só as ossadas, eu levaria para enterrar em algum terreno longe dali.

E assim nós fizemos.

Depois de dois dias e um colchão novo. Ninguém diria que tinha morrido alguém naquela casa.
Ele ficou impressionado com o quanto eu fui fria com toda a situação. O que ele não sabia, é que naquele dia eu morri com aquele homem. 
E a vontade de matar nunca mais foi embora.

Todos os dias eu olhava nos olhos dele, e via meu amor por ele morrendo e um ódio mortal crescendo.

"Porquê você fez isso comigo?"
"Você não me ama mais?"

Depois do ocorrido permanecemos juntos por mais um ano. 
Acho que ele tinha medo da minha reação se me deixasse, mas eventualmente ele acabaria me abandonando. Mas seis meses depois, ele acabou tomando coragem e indo embora. Cheguei em casa e só encontrei o tal colchão novo. O resto ele tinha levado. As únicas coisas que ele me deixou foram o colchão e um bilhete colado no batente da porta da sala. Nele estava escrito em letras trémulas:

ASSASSINA.

Mas eu não liguei. Eu não me importava mais com nada.

Sozinha, o ódio acabou me dominando por completo, e aos poucos fui deixando de ser humana. Deixei o monstro que tinha nascido daquela semente de traição crescer e me substituir.

"Nós somos tão frágeis, não é?"

Desde então comecei a matar homens. Todos os dias tenho um ritual de procurar uma nova vítima. Todo o planejamento, horas de observação, me ajudam a escolher o alvo perfeito: homem, alto, magro, pálido, louro de olhos claros e com um ar de intelectual. Em todos esses homens que consigo matar eu o vejo. Toda vez que observo a vida se esvaindo daqueles olhos claros e sem vida, é como se eu assistisse ele morrer. Cada corte que faço em suas peles pálidas, o sangue vermelho que vejo escorrer e manchar minhas mãos. Essa sensação se tornou o maior dos êxtases para mim. Foi como se finalmente tivesse me encontrado.

Eu acabei de voltar pra casa. A mesma casa, ainda moro aqui, comprei móveis novos e a redecorei toda de acordo com meu gosto. Uma mistura de lanchonete dos anos sessenta, com casa da Barbie moderna, ninguém diria que mora alguém como eu aqui. Estou suja de sangue. Tiro a roupa e jogo na máquina de lavar. Tomo um bom e minucioso banho. São três da manhã, e eu fiz mais uma vítima. E eu não tenho como expressar o quão prazerosa é essa sensação de matar. Ver a vida esvaindo, ver os olhos perdendo o brilho conforme a alma deixa o corpo… eu não consigo descrever o quão boa é essa sensação.

“Agora eu entendo que nasci pra isso.”


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