Eu era uma adolescente nos anos 00

Há um mês vi no meu feed de alguma rede social um meme. No caso era um comentário de youtuber feito num vídeo do Simple Plan por um usuário explicitando sua vontade de ter sido um adolescente na década passada. Parando para pensar que a galera que tem 18 anos nasceu em 1999, numa época em que Britney Spears, com então 17 anos, chocava o mundo por fazer uma capa da revista — ainda relevante — Rolling Stones com apenas uma roupa bem curta, é fácil entender o desejo do cara. Lembro-me que quando tinha 15 queria era ter nascido nos anos 70 para assim ser adolescente na década de 80/90. Acredito que todo jovem passa por uma fase assim. E visto isso, queria revelar que eu era uma adolescente nos anos 00 e é sobre isso que quero falar para a recente juventude que frequenta esta rede social.

Quando os anos 00 chegaram, eu tinha 11 anos. Quando acabou, já tinha 21. Então, vivi muito bem a minha adolescência entre 2000 e 2010. Não havia uma internet veloz e nem para todos. Nesta época, a internet era bem cara e paga por pulso telefônico. Apenas após meia noite e antes das 6 da manhã que era possível baixar vídeos e música (pelo Emule ou o Napster), vê-los para conferir se era isso mesmo ou um vídeo pornô, conversar com seus amigos por ICQ, chat da UOL ou MSN e conferir emails. Neste horário também não havia possibilidade de ninguém ligar para sua casa, afinal, a internet e o telefone usavam a mesma linha, e se fosse usar ao longo do dia, ou era um ou outro. Visto isso, todas as informações de músicas novas e clipes recém-estreados eram por acesso a canal MTV.

A tão odiada Internet Discada.

MTV não era como é hoje, um lugar onde apenas passa seriados fabricados pela matriz americana. Era um canal relevante com VJs (assim eram chamados os apresentadores), programação voltada 80% para a música com shows ao vivo, acústicos, ranking de clipes mais assistidos (Disk, quem se lembra?) e outros. Havia polêmicas (como o ““primeiro”” beijo gay na TV) e um fluxo de informações relevantes e importantes voltadas para jovens, como frequentes propagandas de sexo seguro e uma mobilização que acontecia todo dia 2 de dezembro para o dia mundial de combate ao HIV. Havia outros canais não tão populares, como o Mix TV e o Much Music (que não durou nem um ano), mas a MTV era totalmente voltada para pessoas que como eu, eram viciadas em música e não possuíam uma boa internet.

Foi por lá que conheci o New Metal (vertente do Hard Core cujo representante principal era o Linkin Park e Limp Biskit) e sim, fui uma adolescente emo. Quer dizer, tentei ser. A idade mínima para trabalhar era 18 e até lá meu sustento vinha da minha mesada de 50 reais. Não dava para comprar aquela saia plissada que todas as minas alternativas usavam. Contentava-me em fazer minha própria pulseira de bolinhas para me sentir mais incluída no movimento. Neste momento, já existia o Orkut, um irmão mais velho do Facebook, e lá poderia postar minha melhor foto tirada com a maquina fotográfica digital de 128 MP do meu pai com a minha franja e caras e bocas infantilizadas.

Algo tipo isso

Emo era uma vertente do gótico dos anos 80. E foi uma febre, muito maior do que é a K-Pop de hoje em dia. Era usar preto, franjas compridas, escutar NX Zero, Paramore e My Chemical Romance sem medo. E como uma adolescente criativa, também lia fanfics (gays) dos integrantes das bandas que eu gostava, como o MCR, Simple Plan e Panic at the Disco. Havia uma grande parte de adolescentes que também liam de séries, como The OC, e de livros (que depois viraram filmes), como Harry Potter.

Ser uma adolescente nos anos 00 era se vestir errado. A saia longa jeans, cinto largo de couro, uma mistura de tecidos num mesmo look, copiar o Look da Sabrina Sato no BBB ou achar super legal o que a Paris Hilton usava. Não gosto de fotos dessa época porque eram tenebrosas. Os anos 00 foi uma péssima época para a moda.

Ashley Tisdale, o resumo desta época.

Como carioca, existia a Radio Cidade, a rádio do rock, um refugio para adolescentes revoltados que não queriam saber de Christina Aguilera ou de Lasgo (lembram?). Mas também tinha a Jovem Pan e a Transamérica. Ou seja, como não existia Spotify, tínhamos que percorrer os 100.00 FM da vida para achar aquela música que tanto gostávamos. Ou para descobrir bandas novas, esperando até o final do bloco para saber o nome e assim anotar em algum lugar para esperar a madrugada e saber mais.

Andávamos em shopping com amigos apenas por andar. No RJ, após completar 18 anos andávamos na Lapa (que na época possuía um morrinho perto dos arcos) apenas por andar. Conhecíamos gente em filas de show, em cinema, em chats, na escola e nas matinês. Ouvíamos escondido Bonde do Tigrão, abertamente Guns N’Roses e eu era a única do meu ciclo de amizades que conhecia o Franz Ferdinand. Era difícil procurar informações de bandas fora do circuito e depender da internet antes da Google não era fácil.

Foi uma boa adolescência. Mas oh, cada época a sua época. Por ser adolescente nos anos 00, não curtia Hannah Montana (não era da minha época, já não era mais criança) e nem achei nada demais o Oasis ter vindo para o Rock in Rio em 2001 (porque também não era algo do meu interesse. Só foi se tornar anos mais tarde). Foi divertido usar All Star, uma camisa de banda no culto da igreja e beijar algumas bocas e se apaixonar por elas na mesma intensidade de descobrir o Strokes na minha vida. Mas algo ainda me mantém ligada a vocês, que tem quase ou um pouco mais que 18 anos hoje ou tiveram há 20 anos… Os jovens ainda são incompreendidos. E ainda usaremos roupas escrotas, ficaremos com caras babacas e faremos amizades na fila do show. Escutaremos música que nunca mais ouviremos, teremos amigos que não importarão mais depois de anos e nos sentiremos sozinhos em algum momento. Mas cada época sua peculiaridade. E este texto é um ode de uma época deliciosamente divertida.


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