Eu não acredito no sofrimento

como vocês acreditam.

Imagem: Reprodução (Google)

Eu não acredito no sofrimento como vocês acreditam. Eu não vejo vantagem em sentir o amargo da vida para valorizar a doçura. Tampouco compreendo os motivos pelos quais os devotos fazem sacrifícios para alcançar a graça. O bom da vida vem de graça, com o perdão da troca de sentidos na palavra. Vem de graça quando nasce uma criança no mundo, sem malícia e cheia de esperança. Vem de graça quando a língua sente o sabor da língua da pessoa amada. Vem de graça quando a fruta se desmancha na boca e espalha lá dentro todo o doce do universo.

Dirão: “Há males que vem para o bem”. Direi: Se o mal vem para gente que tem caráter, é manifestação de injustiça. Categoricamente injusto, esse mal não tem raiz na pessoa que sofre, não tem razão a não ser fazer sofrer. E, repito, eu não acredito no sofrimento como vocês acreditam. E não digo isso em tom intransigente, próprio de quem não quer mudar de opinião. Digo isso como quem já sofreu coisa que não merecia. E tenho certeza de que eu, você e qualquer outra pessoa no mundo não merecemos muita coisa ruim que nos acomete.

Ter de passar pelas provações, 40 dias e 40 noites no deserto, com sede, com o diabo te oferecendo dolly guaraná ou milk shake de baunilha, e não aceitar? Tenho que dizer, para o bem da minha sanidade, que torturar a si mesmo não parece coisa boa, não mesmo. “No pain no gain”. “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Ora, faça-me o favor. Eu não acredito no sofrimento como vocês acreditam, porque eu acredito em felicidade e amor. E quem acredita nessas duas grandezas, em minha humilde opinião desprovida de ciência, não pode acreditar em sofrimento como meio.

É claro que, infelizmente, a dor existe. A amargura, a mágoa, o ódio, a intolerância, a injustiça, o desprezo… tudo a que o ser humano deu nome existe. Existe e é inevitável. Mas é dispensável também. Eu acredito mais na empatia em relação ao sofrimento alheio do que no sofrimento na própria pele, para que se sinta a dimensão do que é valorizar a vida. Eu acredito mais na abstração do que as dores podem vir a causar no corpo para que se busque a prevenção, do que na ocorrência da moléstia para que se busque a cura. E já que citei provérbios: “Melhor prevenir do que remediar”. Nesse eu acredito.

Por quê? Bem, eu não acredito no sofrimento como vocês acreditam. Eu acredito na atração do bem em relação ao bem, do amor em relação ao amor. Por isso, não acredito em vinganças. Nunca me verão devolvendo um tapa, uma provocação, uma injúria. Não na mesma moeda irracional da ofensa. Diferente disso, eu devolvo, sim, informação, esclarecimento e, às vezes, silêncio, este último que é, ao mesmo tempo, barreira de proteção e convite à reflexão.

Eu acredito na desconstrução desse paradigma de que o sofrimento é o único caminho possível para tornar a pessoa digna, de que “o indivíduo deve apanhar da vida para aprender a ser gente”. Pelo contrário, eu acredito que a dor causa revolta; que a revolta, muitas vezes, leva ao desespero; e que o desespero, por sua vez, pode levar pessoas a semear a dor em outros solos.

Enfim, eu não acredito no sofrimento como vocês acreditam.



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