Eu Não Me Olho Nos Olhos.

Sobre quando nos evitamos.

[Alerta de Gatilho — Depressão e Ansiedade]

Foi você!
Sem sombra de dúvidas que foi você que colocou aquela carta na minha mochila, mas quando isso aconteceu?

É uma grande coincidência!
Será que nós escurecemos em sincronia?


“São Paulo, 02 de Fevereiro.

Passei a noite rolando na cama de um lado para o outro e constatei algo que me dói profundamente toda vez que falo em voz alta…

Hoje, agora, na calada da noite, percebi que eu não me olho nos olhos.
Isso mesmo, às vezes eu me
evito.
Finjo facilmente que não existo.

Você entende a gravidade disso? Eu me excluo de mim, basta eu querer e PAH! não me vejo no espelho… bem, eu ainda estou lá, mas é como se eu fosse aquelas pessoas que a gente não vê quando está atrasando e andando a passos largos numa estação de trem.

Elas estão lá, mas a gente não vê.
Na verdade,
meio embaçado.
Mas é como se
não existisse.
Mas existe.

Eu sou uma pessoa estranha a mim mesmo… Como que se confia assim?

Penso que deleguei muito de mim para as pessoas erradas, sabe? Distribui minha autoestima, meu amor próprio e o meu bom senso para quem estava por perto, só que em um determinado ponto todo mundo foi embora.

Uns de mansinho.
Outros chutando o balde.

Só que ninguém me devolveu tudo que eu tinha dado.
As partes do meu
quebra-cabeça foram se perdendo por aí.
E eu sobrei, como de costume.

Só que dessa vez eu não consigo reconhecer o que foi que sobrou… Quem é essa figura do mesmo peso e altura que me persegue pra todo lado? Eu? Imagine… eu não sou isso que sobrou aqui, não posso ser.

Onde que acende a luz?
perdido no escuro.
Tô perdido em
mim.

Estou esfriando, entretanto o sol brilha lá fora.
Você compreende?

Sabe o que é pior? Eu não consigo me olhar nos olhos e nem olhar em nada relacionado a esse corpo… eu não consigo trocar de roupa sem alterar o meu campo de visão… não gosto de nada daqui (de dentro e de fora).

É como se eu tivesse morrido, mas estivesse (ao mesmo tempo) aprisionado dentro de corpo que não é o meu… ou será que sempre foi esse eu nunca notei?

Me preocupei tanto com coisas supérfluas e sem valor que fui me desligando de mim… me preocupei demasiadamente com as pessoas e suas percepções sobre mim que… me fui? Ou estou aqui ainda? Não sei.

Que loucura! Quanto mais lhe escrevo, mais encontro um caminho de volta? Para onde? Não sei dizer…

Como já diria o Gato Risonho: “quando a gente não sabe para aonde vai, qualquer caminho serve”. Digamos que eu não estou num momento de recusar os pequenos insights da vida, por isso (e somente por isso) resolvi te escrever.

Nesse processo tento transpor em palavras aquilo que me parece improvável, aquilo que faz meu corpo se contorcer de dentro para fora, não se iluda… meu sorriso diário não diz nada, observe meu olhar da próxima vez… lá está todo caos, todas as respostas (caso seja de seu interesse, claro).

Espero que essa carta chegue antes do… bem, você sabe… nós caminhos por becos tão similares, não acha?

Tenho uma ideia de como e por onde recomeçar.
Espero que você também
encontre o caminho.
Estamos juntos.

K.