Eu sou uma Mulher Intersexo. E daí?

UFA. Que alívio escrever isso. Só de digitar o título eu já senti minhas costas um pouco menos pesadas. É difícil carregar um segredo por tanto tempo, fica tudo meio engasgado, enfezado e tentando escapar pelos poros.
É mais complicado ainda quando o segredo mora dentro desses mesmos poros, em cada célula do corpo. Escondido dentro das mitocôndrias reveladas apenas aos médicos e a alguns poucos familiares.
Eu descobri quando tinha uns 15 anos e a menstruação não veio. Antes disso ficava ansiosa esperando e contando os dias pra virar mocinha e poder sair por aí comprando absorventes toda orgulhosa de ser uma mulher adulta. Nunca aconteceu.
Lembro da ginecologista tentando explicar, lembro de algumas outras conversas com alguns outros médicos. Morava no Rio e só tratavam "disso" em São Paulo. Hoje moro aqui e conheço melhor a cidade, mas na época só passei rápido pra fazer uma cirurgia que tinha a ver com "aquilo" e morri de medo de tudo. Minha mãe e minha irmã se hospedaram em um flat e a gente comeu massa em uma cantina da Oscar Freire.
Chamavam de hermafroditismo. Aquilo. Eu só entendi que meu DNA e minha parte de dentro era "de homem" enquanto meu corpo por fora era "de mulher". O que significa que na verdade eu não entendi nada. Mas aprendi que nunca menstruaria, e antes disso havia aprendido que homens têm penis e mulheres têm vaginas, de acordo com um dos pupilos do "Um Tira no Jardim da Infância". Eu tinha vagina, então era mulher.

A tentativa de simplificar a diversidade humana faz com que a gente aprenda umas coisas bem erradas e passe a acreditar que elas são certas.
Ser intersexo significa que ao invés de ser um ser masculino ou feminino eu sou uma terceira forma de vida que normalmente não existe como opção em formulários que perguntam o "sexo" de um bebê ou de um adulto se matriculando em uma academia.
Sexo (feminino, masculino e intersexo) é diferente de gênero (homem, mulher, agênero, transgênero, etc.), mas o gênero costuma ser construído socialmente a partir de uma observação do sexo, então como a minha aparência exterior sempre foi de uma pessoa do sexo feminino, fui criada e socializada como mulher.
Isso fez com que eu me sentisse uma grande e redonda farsa, já que não vivi uma boa parte das experiências de mulheres que nascem com o sexo feminino. Não menstruei, não tive espinha, não produzo pêlos no corpo e nunca tive que me depilar. Também nunca vou poder gerar um bebê ou amamentar uma criaturinha.
Lembro de uma amiga de infância que me viu pelada uma vez e começou a gritar pelo prédio: "Camila não tem pentelho! Camila não tem pentelho!". Chorei por dias e tentei fazer uma peruca (é sério).
Demorei mais de 30 anos até aceitar meu corpo, minha condição e a mim mesma. Foi um processo muito doloroso, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Me machuquei muito tentando habitar minha própria carne e ainda vacilo de vez em quando.
A sensação de solidão da pessoa intersexo é muito real e vai além de não existir em formulários ou certidões de nascimento. A maioria dos médicos não conhece a condição, a maioria dos terapeutas não conhece a condição, a maioria das pessoas ignora a existência de um corpo que não esteja encaixado no binarismo do masculino e feminino. É difícil se conectar com outras pessoas quando sua natureza é desconhecida.
Apesar de tudo, acho que tive bastante sorte por nascer na época que nasci. As gerações anteriores deram grandes passos em relação à quebrar tabus de sexualidade e conquistar direitos necessários, mas a nossa geração usa a internet e catalisa transformações em tempo real. A intersexualidade hoje é comentada em grupos de Facebook e até pelo Dráusio Varela. Aos poucos estamos nos encontrando, nos reconhecendo e ganhando voz.
Conseguir esse espaço e ter visibilidade é fundamental na construção de um futuro mais justo e confortável, que acolha crianças intersexo sem tabus ou preconceitos, para que cresçam sem as sensações de isolamento que me assombraram. Somos 1% da população. Parece pouco, mas somos mais de 70 milhões e temos direito a uma vida plena.
Por isso esse texto confessional, por isso preciso falar desse assunto, por isso jogo fora a capa de invisibilidade que é o meu privilégio de poder esconder minha intersexualidade.
Sei que o risco é grande e que muitas pessoas que me conhecem podem usar isso contra mim. Também sei que a tentativa de difamação pode até funcionar, já que a sociedade ainda caminha lentamente rumo à uma utopia de diversidade e respeito. Talvez me confundam com uma mulher trans, talvez passem a me perguntar sobre meus genitais, talvez questionem a sexualidade dos meus parceiros. Não vou me incomodar.
O medo da ignorância dos opressores não pode me impedir de me assumir como oprimida.

