Expedição solidária

Foto reproduzida da Internet.

A crise de consciência começou por causa de um e-mail. Estava na sua caixa de entrada e parecia inofensivo à primeira vista. Houvesse ido para a pasta de spam e nada teria acontecido. A proposta no dito correio eletrônico era de uma expedição para escalar uma grande montanha africana — o Kilimanjaro — no qual boa parte do valor pago pelos clientes seria revertido para uma escola e um orfanato locais, beneficiando crianças carentes.

Aquilo caiu como uma bomba atômica dentro dele. Subitamente se sentiu o pior ser humano na face da Terra. Escalava há mais de vinte anos e nunca — absolutamente nunca — pensara em fazer do montanhismo alguma forma de ativismo social.

As dúvidas se sucediam aos borbotões. Seria uma pessoa tão egoísta? É algo tão abominável que queira somente me divertir? Seria um monstro somente por querer espairecer um pouco e ter um tempinho para si?

A seu favor pesava a sensação de que esse pessoal ativista às vezes exagera na dose. Que mania chata esse pessoal tem de querer fazer de tudo um protesto! Tudo tem que ter uma razão, um por quê! Querem problematizar tudo. Se tudo tiver que ter uma finalidade prática, acaba-se com a poesia, a literatura e outra série de coisas belas do mundo. Ele fazia sua parte na questão social assinando petições online e compartilhando, indignado, textões no Facebook. Será possível que um cidadão de bem, pai de família e pagador de impostos não pode ao menos se divertir um pouco sem se sentir culpado? A seu ver, esses ativistas de sofá só querem aparecer nas redes sociais. Mendicantes de likes, é o que são!

Entretanto, aquele pessoal não cabia na categoria “ativista de sofá”. Iriam escalar uma grande montanha — a mais alta do continente africano — com 5.895 metros de altitude e, o mais importante, boa parte do dinheiro da expedição iria para uma escola com 250 crianças e um orfanato com mais de 65 crianças entre 4 a 7 anos.

Se agarrou na clássica resposta de Mallory quando perguntado por um jornalista incoveniente sobre qual a razão de escalar o Everest. “Porque está lá”, foi sua singela resposta. Simples assim. Cada pergunta… Por que você respira? Por que come? Façam-me o favor… Havia ainda aquele fabuloso aforismo de Messner que diza que “os dias que esses homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem”. O papa do alpinismo complementava com “quando os cinco sentidos cobram vitalidade e o homem completo se torna mais sensível”. Viram só? Ele não era um monstro egoísta. Era um homem sensível.

A verdade era que nunca havia se questionado por que razão, afinal, escalava montanhas? Seria um daqueles caras modinhas, que ficam fazendo selfie e postando hashtag sei-lá-o-quê em rede social? Não, isso jamais! Praticava o montanhismo desde a pré-história — a saber, desde antes do Orkut — quando se escalava de kichute e bouldrier improvisado com corda. Era um dinossauro na comunidade de escaladores locais. Na verdade, olhava com certo desprezo para aqueles montanhistas novatos super equipados, com roupas coloridas e nenhum preparo que infestavam as montanhas. Suas montanhas!

Nunca havia pensado em como era difícil verbalizar o motivo de sua paixão pelas montanhas. Era algo difícil de explicar. Quando estava na montanha sentia o sangue circular com força pelas veias. Sentia a alma ampliada e os sentidos aguçados. Se tivesse que apontar uma única razão, diria que escalava pela sensação de liberdade proporcionada pela vida na montanha.

Seria isso mesmo? Pela sensação de liberdade? Ou seria narcisismo? Meu Deus, quantas dúvidas!

Sim. Doía-lhe reconhecer, mas no seu âmago sabia que seu desejo por subir montanhas era, em boa parte, puro hedonismo. Vaidade nua e crua. Desejo de se destacar da grande massa, se diferenciar do cidadão mediano. Tipo assim: na maioria do tempo levo uma vidinha medíocre e sem sentido, mas no fim de semana… Ah, meu amigo! No fim de semana sou uma pessoa especial. Sou membro de um clã tão antigo quanto a humanidade, pois enquanto houver uma montanha no mundo — e sempre haverá — algum homem sentirá o desejo de pisar seu cume.

Maldito e-mail. Tentava equilibrar o fiel da balança. Seria ele um monstro somente por querer dar algum sentido à sua vidinha absolutamente mediana e insossa? Por querer fazer algo que compensasse suas frustrações? Não conseguiu ser astronauta, estrela do rock ou arqueólogo-aventureiro-igual-o-Indiana-Jones, pelo menos o deixem ser um montanhista nas horas vagas.

Sabia que não era um mau caráter. Era até um sujeito bem progressista e fazia o melhor que podia na educação dos filhos. Ao final das contas, era apenas um ser humano com todas as contradições que essa condição implica.

Resolveu seguir o conselho de Lya Luft e declarar uma “anistia pessoal”. Perdoar a si próprio era para homens superiores emocionalmente, o que não era seu caso. Já a anistia era o reconhecimento de que era um ser complexo e contraditório que aceitava suas limitações, embora não abandonasse sua busca por tentar ser um ser humano melhor a cada dia.

Considerando prós e contras, esse turbilhão emocional havia lhe feito bem. O fizera repensar seu papel na sociedade e suas responsabilidades para com os demais. Respondeu ao e-mail agradecendo à gentileza do convite, mas teria que rejeitar a expedição por motivos financeiros. Desejava boa sorte a todos. Quem sabe no futuro?

Fez as pazes com sua consciência e tocou a vida pra frente. Outras expedições e outras montanhas vieram e em todas elas, no fundo do peito, levou consigo a inquietação pelo destino das crianças africanas.


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