Fascismo: uma check list

Suásticas e sigmas já estão nas ruas; o que estamos esperando para chamar o fascismo pelo nome?

Guernica, de Pablo Picasso (Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia/Divulgação)

Diz a Lei de Godwin que, à medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou nazistas tende a 100%. Claro que é uma provocação irônica feita pelo escritor americano Mike Godwin, mas que evidencia a falácia perigosa de se usar conceitos como nazismo e fascismo de forma descontextualizada. Há, no entanto, um erro ainda mais perigoso: não reconhecer o fenômeno quando ele de fato se apresenta.

George Orwell escreveu, em 1944, ainda em plena guerra, sobre a dificuldade em se definir o fascismo e como o termo era usado como xingamento. Afinal, os governos fascistas da época (Alemanha, Itália, Portugal e Espanha) apresentavam diferenças profundas entre si. O mais próximo a que se chegava de uma definição era associar a palavra a “algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista, antiliberal e anticlasse trabalhadora”, resumia o célebre autor de 1984 e Revolução dos Bichos.

O verbete “Fascismo” do Dicionário do Pensamento Social do Século XX também faz ressalvas quanto à dificuldade de definição, mas aponta o “minimum fascista num mito central da nação renascida”. Já a ameaça ao bem-estar da nação é muito variada, e pode abarcar o comunismo (hoje diríamos marxismo cultural), o materialismo, o internacionalismo (hoje diríamos globalismo), o individualismo, etc.

Além disso, seria o fascismo um fenômeno historicamente datado e geograficamente localizado? Em outras palavras, é possível o fascismo nas Américas? Convém lembrar que houve movimentos fascistas nos Estados Unidos, como o América em Primeiro Lugar, cuja principal figura pública foi o aviador Charles Lindbergh, e, no Brasil, com o integralismo de Plínio Salgado. Só não chegaram ao poder. Quanto à possibilidade de um retorno do fascismo na contemporaneidade, já dizia Brecht: a cadela do fascismo está sempre no cio.

O filósofo e ensaísta holandês Rob Riemen chama a atenção para esse risco. Em seu livro Para combater esta era: considerações urgentes sobre fascismo e humanismo (ainda não publicado no Brasil), ele evoca o romance A Peste, de Camus, como exemplo. Sob o pretexto de não gerar pânico, as autoridades negam, contra todas as evidências, a existência de uma epidemia até que ela se alastra e uma cidade inteira é posta em quarentena.

Rob Riemen, filósofo holandês (Divulgação)

Vejamos as características do fascismo contemporâneo apontadas por Riemen:

  • Fenômeno de massa que se nutre do ressentimento;
  • Massas facilmente manipuláveis por um líder carismático, mas, em sua essência, desprovido de ideias, valores e de um projeto político próprio;
  • Devoção a um líder que se apresenta como antiestablishment e fala a “língua do povo”;
  • Adoção de um inimigo interno adequado a cada contexto (judeus, negros, homossexuais, comunistas, terroristas, etc.);
  • Profunda aversão aos intelectuais e a tudo o que é diferente;
  • Ideia de que tudo era melhor no passado;
  • Uso da mentira e da distorção do significado das palavras.

O fascismo prospera em sociedades dominadas pelo medo, daí a importância de um inimigo interno. Como é, segundo Riemen, um fenômeno essencialmente desprovido de ideias, amolda-se com facilidade à cultura local, escolhendo o inimigo interno apropriado. É, portanto, um erro associar necessariamente o fascismo ao antissemitismo. Temos visto o florescimento de um fascismo anti-islâmico na Europa.

Ressalve-se, no entanto, a avaliação negativa feita por Riemen da sociedade de massas: tem como pressuposto uma crise da civilização provocada pela perda de valores espirituais. Inspirado em Ortega y Gasset, ele lamenta a perda de valores absolutos, universais, o que trai, talvez, certo etnocentrismo de quem vislumbra o mundo a partir de sua condição privilegiada de europeu ocidental branco, cujos valores, do seu ponto de vista, corresponderiam ao que de melhor a humanidade já produziu e mereceriam ser universalizados.

Em 1995, o escritor italiano Umberto Eco proferiu uma conferência na Columbia University sobre o “fascismo eterno”. Para ele, o fascismo “adapta-se a tudo, porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos e ele continuará a ser sempre reconhecido como fascista”.

Aliás, o autor considera difícil que todas as características do fascismo se manifestem simultaneamente em um mesmo regime. Ao debater o fascismo, trabalhamos com um tipo ideal, que não se aplica integralmente a cada realidade observada.

Umberto Eco, escritor e filósofo italiano (Divulgação)

As características do “fascismo eterno” para Umberto Eco são:

  • Culto à tradição;
  • Recusa da modernidade;
  • O culto da ação pela ação;
  • Rejeição à crítica;
  • Racismo;
  • Apelo às classes médias frustradas;
  • Nacionalismo;
  • Elogio da guerra permanente;
  • Elitismo popular;
  • Culto ao heroísmo;
  • Machismo e repressão sexual;
  • Populismo qualitativo;
  • Novilíngua fascista.

Várias dessas características estão interligadas e algumas são decorrência lógica de outras. Por exemplo, o culto à tradição é marcado pela ideia de que “não pode haver avanço do saber”, pois a verdade foi revelada no passado, de uma vez por todas. Daí decorre também a rejeição à modernidade, como rejeição aos ideais do iluminismo e adesão ao irracionalismo. O anti-intelectualismo fascista se inscreve nessa perspectiva e se expressa também pelo culto à ação pela ação, que é o elogio da ação sem reflexão (no limite, o elogio da violência). O irracionalismo e o anti-intelectualismo se combinam com a rejeição à crítica, pois toda forma de questionamento ou dúvida é considerada traição. E o fascismo se caracteriza por um léxico e uma sintaxe pobres, a novilíngua fascista, com a finalidade de “limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico”.

O culto à ação pela ação também guarda relação com a guerra permanente. A propensão à violência é uma virtude e o pacifismo, uma fraqueza. Pior, pacifismo é traição, pois a nação está em guerra permanente contra algum inimigo interno ou externo. O nacionalismo emerge, assim, como forma radical de alteridade, pela afirmação da identidade em contraponto a um outro que é o estrangeiro, potencialmente perigoso ou inimigo declarado. Por isso, o fascismo também é xenófobo e dado a teorias de conspiração.

Como a guerra permanente exige que haja inimigos, internos ou externos, estes devem ser suficientemente fortes para despertar o horror e a repulsa do povo, mas fracos o bastante para serem derrotados. Isso leva a uma concepção ambígua de inimigos ao mesmo tempo fortes demais e fracos demais, ironizada por Eco: “os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitucionalmente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo”. Outra decorrência lógica da ideia de guerra permanente é o culto ao heroísmo. Cada um é educado para se tornar um herói na defesa dos valores sagrados que irmanam a nação. Associado ao culto ao heroísmo está o culto à morte, cuja expressão mais famosa é a consigna das falanges franquistas “¡Viva la muerte!”

Para Eco, como a guerra permanente e o heroísmo são “jogos difíceis de jogar”, o fascista transfere sua “vontade de poder” para o sexo, que também é um jogo difícil de jogar. Daí a dificuldade em lidar com as mulheres e com a diversidade de comportamentos e orientações sexuais. O fascismo rejeita a diferença e busca a homogeneização da sociedade. Para Eco, o fascismo é racista por definição. Xenofobia, machismo, homofobia e racismo se combinam para oferecer ao regime os inimigos preferenciais.

O populismo qualitativo consiste em uma espécie de “elitismo popular”. É a ideia de que os membros da nação são o “melhor povo do mundo”. Mas é um elitismo anti-individualista, porque o indivíduo não tem direitos, não tem voz. É o povo, concebido como uma entidade monolítica, que expressa uma vontade comum. Dentro da nação, porém, há hierarquias, com o líder no topo, e o desprezo do dominador por seus subalternos em todas as escalas da hierarquia. Por outro lado, a base social do fascismo tem inequívoco caráter de classe: é constituída pelas classes médias ressentidas, pressionadas por crises e ameaçadas em seu status pela ascensão de classes subalternas.


Homem ostenta suástica na cidade de Unaí-MG (G1/Divulgação)

Talvez melhor do que dizer que essas são as características que definem o fascismo, seja dizer que esse conjunto de condições tem no fascismo sua “expressão politicamente organizada”, para usar uma expressão de Wilhelm Reich.

O exercício agora é verificar quantos dos itens da check list acima correspondem à situação brasileira. Fiz o teste aqui e, apesar de trabalharmos com um tipo ideal, o Brasil gabaritou.

Assim como o aparecimento dos ratos mortos no romance A Peste, suásticas e a letra sigma dos integralistas começam a aparecer em praça pública. Quanto tempo mais vamos demorar para chamar a epidemia pelo nome e combatê-la como se deve?

ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2019.

ORWELL, George. O que é fascismo?: e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro, Zahar, 1996.

RIEMEN, Rob. Para combatir esta era: consideraciones urgentes sobre fascismo y humanismo. Barcelona: Taurus, 2018.

Revista Subjetiva

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Helton Lucinda Ribeiro

Written by

Jornalista, sociólogo e escritor.

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