Homens e a participação no movimento feminista.

Algumas considerações sobre o protagonismo e lugar de fala da mulher.

Sempre estive meio em cima do muro em relação a questão que volta e meia se torna debate entre feministas: qual o papel do homem na luta feminista? Muitas defendem que eles podem contribuir para a luta como coadjuvante, algumas defendem a campanha He for She lançada pela Emma Watson, outras dizem que eles não devem ter qualquer tipo de participação.

Sinceramente, nunca achei muita graça em homem se dizendo feminista, também não achava que eles deveriam estar completamente fora, mas, ao mesmo tempo, não vejo um espaço para eles como coadjuvantes. Um dia li um texto da incrível Djamila Ribeiro e teve uma frase que prendeu meus pensamentos:

“Daí, no movimento formado para combater isso, nós ainda seguiremos apartados? Não perceber a importância disso me faz questionar até que ponto se é aliado”

Bingo! Era isso que me incomodava e ela conseguiu colocar em palavras. Exatamente isso: até que ponto se é aliado? Até que ponto em um movimento que luta contra o patriarcado, a dominação masculina, a hierarquia de gênero, um homem pode participar? Até que ponto ele contribuirá para o movimento ou ofuscará nosso protagonismo e nossas pautas que são o que realmente importam?

O interessante é que essa frase me fez lembrar de uma situação, um tanto quanto desagradável, que me aconteceu.

Em mais um dia de vestibulanda, tivemos uma aula com a discussão voltada para sei lá o que. Prestava atenção quando escutava alguma coisa que me interessava, depois mudava de foco e eu voltava a viajar dentro de minha cabeça. Até que escutei uma palavrinha que fez minha mente entrar em alerta: “feminismo”.

O cara começou a falar que a partir dos anos 1960 as mulheres passaram a assumir comportamentos semelhantes aos dos homens, sendo que os homens que deveriam ter aproveitado as características ditas femininas como a sensibilidade e que nós, mulheres, estávamos a perdê-la porque foi nesse momento que o feminismo ganhou força.

Antes que ele me deixasse falar, eu tinha feito uma série de anotações, mas na hora a única coisa que saiu foi: “Mas professor, não acho que seja isso necessariamente, porque isso reforça estereótipos e o feminismo passou a ser mais aceito há pouco tempo pela desconstrução da visão de um feminismo misândrico, além disso existem várias correntes diferentes dentro do movimento, então acho válido não generalizar”. O cara ficou puto e começou a discutir comigo, não debater, discutir mesmo.

Eu nervosa da cabeça aos pés e ele com o ar de superioridade tentando mostrar base para o que tinha falado anteriormente de um jeito incrivelmente condescendente. Aquilo tava me incomodando demais, tava me sentido sufocada, eu sabia rebater mas senti que não tinha forças ou até mesmo o direito de contestá-lo. Meus pensamentos estavam a mil e eu respondia o que me vinha a cabeça, no que ele encerra a discussão com um:

“Se você sabe tanto sobre feminismo então vem aqui dar aula no meu lugar!”

Depois dessa fiquei quieta e me recolhendo à insignificância de tudo aquilo que penso e acredito. Me senti um lixo, me senti burra, me senti intimidada. Me senti mal porque ele nem ao menos tentou entender o porquê de ter me incomodado. Fiquei irritada por ele ter sido tão hostil a ponto de que eu nem conseguisse mediar meus pensamentos direito.

O encerramento da discussão por parte dele me pareceu: “se coloque no seu lugar”, como um: “eu tenho autoridade para falar o que estou falando, porque além de ser homem, também estou acima de você na hierarquia professor-aluno e por isso o que eu digo é verdade absoluta, você não tem o direito de contestar”.

Alguns disseram que interpretei mal, que não era bem aquilo que ele tinha dito. Mas de qualquer jeito continuei me sentindo incomodada, porque era o dever dele se justificar e esclarecer, porque ele não poderia ter falado assim comigo, já que em momento nenhum fui grossa e por eu ser uma mulher falando sobre feminismo, mas, mesmo assim, ele teve uma postura pedante. Além disso, seu “argumento” final foi de uma falta de educação sem limites, aquilo não tinha desculpa.

Foi a partir desse momento em que a frase “até que ponto se é aliado” passou a fazer sentido pra mim. Foi exatamente nesse momento, porque apesar do cara se intitular feminista e achar que estava fazendo bem em falar sobre isso, não quis deixar uma mulher perguntar e pedir para que ele esclarecesse o que havia dito. Porque o que mais me incomodou foi ele ter desmerecido tudo e completamente o que eu falei, me fazendo pensar que era melhor ter ficado calada.

Nos anos 1960 começou a segunda onda do feminismo, que ao contrário da primeira não lutaria apenas por direitos políticos, mas também pelo fim da discriminação e a total igualdade entre os gêneros. Acredito que ele tentou fazer uma referência à Simone de Beauvoir em seu livro Segundo Sexo, já que este que teve como objetivo mostrar como a mulher se tornou “segundo sexo”, por meio de uma construção histórica e social tendo base até psicológica, criando uma hierarquia de gênero na sociedade.

Nesse livro, Simone questiona o que é ser mulher (inclusive nosso comportamento e sensibilidade "naturalmente femininas") e acho que era isso que ele tinha tentado falar, apesar de não ter se expressado bem. Tentou abordar o aspecto comportamental da mulher e como a segunda onda teve mais força que a primeira, mas não mais que a terceira que teria inicio nos anos 1980, pelo fato de abranger além de direitos políticos. De qualquer forma, a mulher não perde sua sensibilidade ao se tornar feminista. Sensibilidade é algo humano, não feminino, ou ao menos deveria ser.

Além do mais, o movimento feminista começou a ser mais aceito recentemente. Escritoras renomadas que abordam essa pauta, como a Clara Averbuck, dizem que hoje em dia é mais fácil ver uma mulher se "assumir" como feminista. Complemento dizendo que é justamente pela desconstrução de que todas as mulheres que apoiam o movimentos são feias, gordas, peludas (ah, o padrão de beleza), ranzinzas e odeiam homens. Além da repercussão que o feminismo, principalmente o liberal, teve nas redes sociais que dos anos 2000 pra cá ganharam muita força.

A partir desse dia e do texto de Djamila não me sinto mais em cima do muro. O homem pode apoiar as reivindicações, como ocorre quanto a legalização do aborto, ao compartilhar informações em redes sociais, pode bater de frente quando amigo fala coisa machista. Entretanto, o homem não pode ser feminista por que aí, como Djamila disse, nos encurrala num movimento que tem por objetivo nossa liberdade, autonomia e protagonismo, porque ele se sente no direito de falar o que bem quiser sem ser contestado.

Sou a favor da luta contra o racismo, posso até conversar com alguém sobre isso, mas jamais impor minha opinião. Se um negro ou uma negra discordarem de mim, é minha obrigação escutar os pontos de vista e ver se é necessário adaptar meu discurso. Isso pelo motivo de que sou branca e por isso já estou numa posição privilegiada em relação as mulheres negras e homens negros. Portanto, é meu dever escutá-los e dar voz a eles, pois é o movimento liderado por negros e não por brancos que são contra o racismo.

Homens brancos já escreveram e protagonizaram toda a história mantendo negros e mulheres à deriva, está na hora de eles aprenderem que nem tudo é sobre eles, que não precisamos deles pra que nossa luta tenha legitimidade. Esse sentimento de que eles devem ter o direito a opinar em tudo é fruto de privilégios dos quais eles gozam há séculos, suas vozes sempre foram escutadas, mas agora é nossa vez.

Logo, se algum homem apoia a luta das mulheres e acredita na igualdade de gêneros é muito legal, super apoio. Contudo, não me venha propagar sua opinião como verdade absoluta pra cima de mulheres. Pode tentar contribuir revendo suas ações, quem sabe até conversar com seus amigos homens pra ver se amplia a conscientização e melhora seu meio social. No mínimo ao entrar em debate tentar entender o porquê de ser contestado. Pode ser pró feminismo e apoiar a luta, mas feminista não.


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