Para que (e a quem) serve o atual jornalismo de games brasileiro?

O Brasil é um país pobre, em crise, batendo recorde de desemprego.

Um Nintendo Switch aqui custa mais de dois salários mínimos.

Éramos um país dominado por consoles nos anos 90 e 2000, no auge da pirataria e do CD de “Campeonato Brasileiro” para Playstation 1 por 5 reais. Mas fatores como o alto preço dos consoles novos, a dificuldade em pirateá-los, a crise, os smartphones, os jogos free-to-play e o barateamento dos PCs mudaram radicalmente esse cenário.

Hoje somos o país do League of Legends, CS, dos jogos free-to-play, mobile, etc. No ano do Scorpio e Switch, nosso hit provavelmente será o Mega Drive.

Mas você nunca diria isso lendo os sites de jornalismo nacionais.

Nintendo Switch e Zelda: Breath of The Wild, Horizon: Zero Dawn, Scorpio, PS4 PRO,VR…esses são os grandes temas da mídia nacional. Jogos aos quais uma parcela mínima da população — mesmo entre os gamers — têm acesso.

É como se a revista Quatro Rodas fosse focada em Ferraris e Porsches.

Como chegamos a esse ponto?

A nova mídia

O Warpzone tem uma retrospectiva fascinante sobre a história do jornalismo de games no Brasil, desde a Odyssey Adventure em 1983 até hoje.

O ponto chave é quando, no início dos anos 2000, sites independentes feito por fãs começam a surgir — Jovem Nerd, Omelete, PS2 Millenium, Judão, Delfos, etc. Com a explosão da internet, a “blogosfera” acabou por substituir as antigas revistas de jogos, se tornando a grande mídia “nerd” e dos games.

Mas o que se perdeu nessa transição, ao se trocar equipes de dezenas de jornalistas por blogueiros, casters e “personalidades” cheias de opinião?

Ironicamente, perdeu-se o contato com a comunidade em geral e criaram-se grupinhos isolados. Perdemos repórteres com anos de experiência, ficamos com “nerds” falando sobre o que gostam. E só sobre o que gostam.

A Perda de Conteúdo

As revistas tinham reviews péssimos (o que ainda existe hoje), mas também ajudavam a galera a descobrir o mundo dos games: como montar um PC que rode Unreal, como criar mapas para Counter-Strike, como “destravar” seu Super Nintendo, a diferença entre sistemas NTSC e PAL-M, etc.

Outra coisa extremamente útil eram as traduções ensinando a jogar jogos em inglês (ou até japonês!). Quem é da época se lembra da Gamers Book: a lendária primeira edição vinha com um detonado de 82 páginas traduzindo TUDO de Final Fantasy VII — te explicava as mecânicas, a história, os chefes, como criar chocobo, etc. E ainda vinha com páginas sobre Vampiro: A Máscara, explicando o RPG, os clãs, a lore, etc.

Muito mais fácil fazer algo assim hoje, sem se preocupar com número de páginas e com vários sites oferecendo guias… Mas falta vontade.

Cadê esse tipo de conteúdo hoje? Brasileiro é tudo fluente em inglês?

Vários jogos agora são traduzidos, é verdade, mas esses ainda são minoria. Skyrim e Dark Souls nunca foram traduzidos. Terraria e mesmo Minecraft demoraram anos, jogos survival como RUST ainda estão sendo… um guia básico quando sai um jogo popular novo ajudaria MUITO.

Mais do que tradução, muitos jogadores querem conhecimento — como jogar um roguelike, como instalar ou fazer mods, como usar o RPG Maker, GameMaker ou AGS para fazer seus próprios jogos, qual é a lore de Warhammer 40K, como montar um PC a preço acessível que rode LoL, jogos grátis interessantes, como usar DOSBox, etc.

Conteúdo além de press release, opinião ou vídeo de gameplay.

A falta de curadoria

“Ah, mas hoje na internet você acha tudo isso!”

Tá, mas onde? E será que existe em português? E está explicado de uma forma acessível? Será que precisam de divulgação? Parte do trabalho da mídia deveria ser justamente essa curadoria — o tal “gatekeeping”.

Como parte da pesquisa para meu livro, escrevi ano passado para o Gamasutra um artigo sobre a origem dos JRPGs — explicando o hardware da época, a mentalidade japonesa, listando curiosidades, etc. É um conteúdo que estava na internet, mas espalhado por centenas de sites, páginas da Wikipédia e fóruns — além de diversas línguas.

A PC Gamer usou meu texto de base e fez um artigo resumido informando o público deles. No Brasil, nada. Isso que teoricamente o povo curte JRPG.

Da mesma forma, não se fala por aqui das palestras de developers na GDC (nem quando temos uma Brasileira lá), dos excelentes artigos “post-mortem” no Gamasutra, das mesas redondas com designers, de grandes canais sobre game design como o GameMaker’s Toolkit ou Ahoy, etc.

Lembrando que já tivemos conteúdo como a EGM chamando o criador da lendária cs_rio para ensinar leitores como fazer mapa de Counter-Strike:

Fora revistas como CD Expert, que vinham com editores como o Worldcraft.

É mais um exemplo de como a mídia atual se desconectou da comunidade. Quer coisa assim, vai ler fórum, guias no Steam ou Youtubers especializados. Lá é que se colabora, pensa e cria; na imprensa o foco é o hype. Não há interesse em educar o público, e nem o leitor cobra por educação.

Raramente fazem sequer o básico e mostram links interessantes da semana, como fazia o Gamesfoda e faz o RPS lá fora. Reclamam que o público não prestigia conteúdo de qualidade, mas eles próprios também não promovem.

Existem sites Russos, Poloneses, Espanhóis, Chineses e Japonêses dedicados à tradução de matérias sobre game. E lógico, dezenas de sites traduzindo conteúdo Japonês, como entrevistas, anúncios exclusivos da Famitsu, etc.

No Brasil, o que se traduz é press release de lançamentos AAA. O que não faz sentido — quem se importa com PS4 e Xbox One muito provavelmente tem grana, sabe inglês e poderia ler o press release original no Kotaku.

Não adianta posar de engajado social no Facebook e Twitter se depois vai escrever como se morasse em Miami. O atual jornalismo de games brasileiro é elitista e completamente desconectado da realidade do país.

Zona de conforto

Tudo isso acentua outro problema enorme: o comodismo.

Em geral o jornalista de games BR tem uns 25–35, cresceu com um SNES / Mega Drive e provavelmente só começou a usar PCs no final dos anos 90. São em sua maioria homens brancos, classe média/alta, do sudeste, consolistas, amantes de certos gêneros de jogos e ignorantes de outros — e é assim que enxergam o mundo. É para seus semelhantes que escrevem.

Isso afeta tudo. Se as notícias do momento são pautadas pelo hype gringo, o passado é pela nostalgia BR. São sempre as mesmas histórias: “Battletoads que era difícil, meo!”, “Mega Drive ou Super Nintendo?”, “Final Fantasy VII foi meu primeiro RPG!”, “Allejo mito!”, etc.

O foco é o “ah, eu também lembro!”, raramente o “nossa, não sabia!”

Tente achar artigos sobre coisas que não fazem parte da “cultura gamer” brasileira, como computadores dos anos 80 e 70, séries como King’s Quest, Ultima e Wizardry, gêneros como roguelikes e RTS, etc. Apesar de ser a área de trabalho deles, eu duvido que tenha no Brasil muitos jornalistas que sequer TENTARAM jogar um jogo de Apple II, ou foram experimentar Arena, Daggerfall ou mesmo Morrowind antes de falar sobre Skyrim.

Quantos dos “nerds super cultos e curiosos”, fãs de Elder Scrolls, algum dia tiveram a curiosidade de ir atrás dos primeiros jogo da série? E eles estão GRÁTIS pra download no site da Bethesda!

Sempre achei decepcionante que sites como o Jovem Nerd fazem podcasts com convidados explorando vários temas interessantes — menos games. Os vídeos sobre games são 20 minutos de vídeo-cassetadas. É como se não houvesse nada para ser discutido — ou talvez nenhum dos brothers saiba sobre esses temas, então melhor deixar quieto.

Na verdade existem pequenos grupos, sites e blogs indo atrás disso tudo — mas eles não fazem parte da panelinha e são ignorados.

As malditas panelinhas

O que nos leva a outra tristeza: como sempre vemos as mesmas figurinhas.

Desde que mudei para Tóquio ano passado tenho encontrado vários brasileiros (e brasileiras!) que trabalham aqui. Programadores, designers, produtores…. galera que trabalhou em Final Fantasy, Bloodbourne, Dragon Quest, Uncharted, Kingdom Hearts, Monster Hunter, etc. Mas você nunca ouviu falar deles porque a mídia brasileira não conhece eles.

Quando se critica a mídia de games no Brasil dizendo que são uma panelinha, não quer dizer que passam o fim de semana juntos no boteco (apesar que alguns o fazem); quer dizer que é uma rede preguiçosa formada por “ah, conheço um fulano que…”, não por pesquisa ou relevância. E nisso muitas histórias ficam de fora.

Quem aí sabe que o mais popular mod de Doom — o Brutal Doom, que foi assunto nos maiores sites internacionais — é feito por um brasileiro?

Exemplo #348329 de conteúdo brasileiro que descubro pela imprensa estrangeira.

Que temos grupos que traduziram jogos como Silent Hill 2 e Skyrim para o português? Quantos outros grandes modders ou grupos fazendo traduções de seus jogos favoritos não existem? Cadê eles?

O pesquisador Marcus Garrett lançou um livro GRÁTIS sobre a chegada dos video games ao Brasil e agora produz um documentário sobre o assunto mas não houveram matérias, podcasts ou entrevistas. Ele é invisível à panelinha.

A série Momodora também foi criada por um Brasileiro, é sucesso de crítica e vendeu mais de 150 mil cópias. Alguém soube que anunciaram o QUINTO jogo da série, todo em 3D? Alguém viu isso, ou a polêmica que isso causou e levou o criador a abandonar o twitter?

Mesmo a notícia de que o Estúdio Kokku, de Recife, trabalhou no tão-amado Horizon: Zero Dawn mal foi noticiada fora da IGN. Teve mais repercussão em fóruns e no reddit que na mídia.

Obviamente, não descarto uma certa malícia nisso tudo também.

É interessante para algumas pessoas ser “autoridade” no assunto — e apresentar ao público pessoas mais bem-sucedidas ou que as contrarie ameaça o status delas. Quem vai fazer fila para palestra de mané bocudo que nunca lançou um jogo na vida quando se tem um artista de Horizon: Zero Dawn ou uma programadora de Dragon Quest na área?

Mas a imprensa fica nessa troca de figurinha com os chegados — eu te promovo, você me promove. É assim que você vê palestras e eventos que não dão em nada: tem famosinhos mas não tem conteúdo ou experiência.

É assim que nascem os/as “Bel Pesce” da vida.

Nem vou nem entrar no mérito de como essa panelinha se omite, evitando QUALQUER crítica pra não ficar mal na foto. É regrinha da cena, quem critica se torna persona non grata. E vira alvo da fúria de fanboys.

Mantem-se assim a estagnação.

As exceções

Há bons exemplos de jornalismo de games no Brasil? Claro.

A IGN Brasil, apesar de fiascos como o artigo plagiado de Breath of the Wild, acertou em cheio com o Gamepedia da Flávia Gasi, uma série de mais de 90 vídeos dinâmicos e educativos. Um vídeo de 10 minutos dela fala mais sobre RTS do que todos os outros grandes sites brasileiros nos últimos 10 anos.

O documentário Paralelos, da Red Bull Games, que conta a história da pirataria e dos mods no Brasil é fascinante — mesmo que embalado por celebridades para ter apelo ao público. Que vergonha deste público.

Imagine um mundo em que dinheiro de Patreon financia mais disso, não videozinho de gameplay.

Quantas outras histórias ainda esperam para ser contadas? Estou para ver artigo sobre a reserva de mercado de informática, a lei da ditadura que proibiu a importação de computadores nos anos 70 & 80 e é diretamente responsável pelo país não ter tido jogos de PC na época. Me parece importante, mas requer pesquisa e tals… dá trabalho, né?

O UOL, mesmo entre vários click-baits, mostra a importância de uma estrutura jornalistica e faz matérias interessantíssimas com múltiplas fontes e opiniões, além de regularmente entrevistar developers. O Que Fase! do GamesFoda é um ótimo exemplo de como dá para criar um público crítico.

E lógico que todo site vez ou outra faz algo bom. Você leitor deve estar pensando em um ou dois exemplos — “ah, teve aquele artigo/podcast…” — mas se for ver provavelmente são exemplos de anos atrás, ou aquela série de vídeos que morreu no 4º episódio porque não dava audiência.

Infelizmente são casos isolados, que se destacam justamente porque o nível médio é baixíssimo. Os próprios leitores sabem disso — artigos bons são lembrados por anos e os comentários são claramente diferentes.

Fora dos press releases, reviews e vídeos de gameplay, sobram opiniões. Raríssimos são os casos de reportagem em si, de ir atrás de conteúdo novo — mas temos um exército pronto pra comentar e dar pitaco em matérias de terceiros, a maioria gringa e longe da nossa realidade.

Big Gamer Brasil

A chegada de serviços como o Patreon poderia ter sido a salvação: tendo uma grana fixa todo mês, sites mais “autorais” poderiam se importar menos com pageviews para focar em grandes matérias de conteúdo próprio.

Inclusive, foi o que vários sites prometeram.

Infelizmente, não foi o que aconteceu. Ao invés de mais jornalistas independentes produzindo conteúdo de qualidade, o Patreon criou mais streamers e YouTubers. Mesmo aqueles que prometeram conteúdo mais detalhado agora focam em mostrar jogos, fazer streams, podcasts, etc.

Qualquer pérola de conhecimento está escondida entre horas de papo de boteco e piadas internas, virtualmente inacessível pra quem já não é fã.

Hoje é mais fácil encontrar boas entrevistas e artigos detalhados em blogs minúsculos e sem nenhum apoio. As grandes personalidades estão ocupadas sendo grandes personalidades.

O que nos resta?

A Internet é uma ferramenta incompreensivelmente poderosa.

Com um toque é possível ler sobre qualquer coisa — traduzido de qualquer língua. É possível conversar com pessoas do mundo todo — dá até pra receber grana de desconhecidos para realizar um projeto pessoal!

Um zé ruela como eu, sozinho em casa e sem um centavo de doação, conseguiu entrevistar algumas das maiores lendas da indústria, estudar jogos de 40 anos atrás, editar um livro com mais de 100 pessoas de todo o mundo e ter seus artigos citados como referência pelas maiores publicações internacionais. Isso é meu hobby, algo que faço de final de semana.

“Ah, mas aqui no Brasil não temos acesso!”- Veja o desafio que foi entrevistar um dos maiores game designers do mundo. Depois entrevistei mais uns 15 devs famosos. E alguns deles ainda escreveram artigos para meu livro.

Infelizmente, profissionais com muito mais recursos usam a Internet para encontrar seus semelhantes e se isolar num mundinho próprio.

Quem sabe inglês se vira lá fora com conteúdo muito melhor. 
Quem não sabe e não faz parte do “perfil demográfico”, que se foda.

Parte da culpa é dos leitores, que não exigem ou apoiam mais pesquisa, informação e conteúdo que amplie seus horizontes. Parte é dos criadores, por terem alienado grande parte do público e agirem mais como celebridades do que jornalistas.

De qualquer forma, o “novo” jornalismo de games brasileiro se torna mais irrelevante a cada dia que passa.

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PS: Não escrevi esse artigo para escrachar — dava para enfiar o dedo bem mais fundo na ferida e não tenho nenhum rabo preso ou medo de ofender amiguinhos do meio, ser detestado pela “blogosfera” e tals.

Mas acho que essa bolha não é uma questão de maldade, e sim um deslumbramento — “olha, posso viver de dar opinião na internet!” -, sem ver o peso e a responsabilidade que assumiram, ou mesmo o potencial disso.

É um toque de que tanto público quanto criadores podem ter mais do que um “Mais Você” dos Games, comentando notícia e tendo papo de comadre.