Juno e representação, mais de uma década depois

O filme independente e feminista que ganhou melhor roteiro no Oscar

Fernanda Maria
Mar 12, 2019 · 6 min read

O ano era 2008, e um filme de baixo orçamento e muito charme foi indicado a 4 estatuetas no Oscar, levando a de melhor roteiro original. O longa tinha vários elementos que viriam a ser presentes, não apenas na premiação dos anos seguintes, mas no cinema de modo geral. Uma protagonista carismática, uma grande preocupação com cenário, designe e fotografia, trilha sonora distinta, e roteiro com elementos bastante autorais.

divulgação/reprodução

Vamos a sinopse original: “O filme mostra situações de uma menina de 16 anos chamada Juno, que engravida de seu companheiro de classe Bleeker, e desiste de fazer um aborto. Com a ajuda do pai, da madrasta e da melhor amiga Leah, a jovem adolescente procura o casal “perfeito” para criar seu filho, e encara situações delicadas e incomuns para sua maturidade.”

O enredo era original na forma que resolveu abordar o assunto de gravidez na adolescência. Isso sem limitar a protagonista a esse fato ou cair em um melodrama. Mas com bastante tato e humor, o filme falava de um assunto sério. Entre cenas engraçadas e irônicas como a do time masculino de atletismo correndo em câmera lenta quanto era dado um zoom em seus shorts. Até discussões sobre saúde e liberdade sexual feminina.

Foi um grande e merecido sucesso tanto de público como de crítica. Lembro que eu tinha 15 anos na época, e amei o filme logo de cara. A trilha sonora ainda é uma das minhas favoritas, assim como Ellen Page. Era um filme que falava com adolescentes sem ser condescende, e sem apostar em um moralismo barato ou lição de moral.

O roteiro foi escrito por Diablo Cody. Ex stripper e atendente de tele-sexo que escreveu sua biografia Candy Girl: A Year in the Life of an Unlikely Stripper (na tradução algo como “Garota Doce: Um Ano na Vida de uma Stripper Improvável”), e tornou-se um fenômeno em vendas, chamando a atenção de David Letterman. Em março de 2006 foi entrevistada por ele em seu programa. Com Juno foi indicada ao Globo de Ouro e ganhou o Oscar e o BAFTA de Melhor Roteiro Original.

Mas embora sua recepção inicial tenha sido bastante positiva, após seu Oscar houveram várias críticas a sua posição pouco clara sobre aborto. E de repente um filme que tinha uma imagem tão progressista, escrito por uma mulher feminista e ex stripper, era taxado como conivente com ataques de conservadores. Em uma cena em que Juno visita uma clínica de atendimento a mulheres, que também performa aborto existem um protesto do lado de fora. Isso é um fato recorrente* nos EUA, onde o aborto é legalizado. Protestos acontecem em frente as clínicas, assediando as mulheres que precisam dos serviços oferecidos lá.

Talvez sim, o filme tenha sido meio vago no assunto. Não exatamente por Juno fazer ou não um aborto, mas talvez por essa possibilidade não ser tão abertamente discutida abrindo margem para uma interpretação de condenação sobre o assunto. No aniversário de dez anos do lançamento do filme, a autora Diablo Cody falou sobre em uma sessão onde contou com a leitura do roteiro:

Diablo Cody, Oscar

“De certa forma, sinto que tinha a responsabilidade de ser mais pró-escolha, e não era”, disse Cody. Embora ela também “nunca tenha tentado esconder” seus valores, “Eu tomei o direito de escolha como algo garantido na época.Algo que me incomodou ao longo dos anos é que as pessoas viam Juno como um filme anti-escolha”, continuou ela. “Foi muito bom para mim ter um representante da Planned Parenthood esta noite e dizer que ela apoiou a narrativa.” No final, a decisão de Juno de não fazer um aborto foi mais devido aos “pecadilhos pessoais” de Cody do que “qualquer enigma moral”. Por exemplo: “Tenho medo de dar sangue, eu conseguia me ver pirando na sala de espera de uma clínica de aborto”, disse ela.

É importante notar o contexto da época. Se hoje em dia existe uma onda conservadora nos EUA e em boa parte do mundo, esse não era exatamente a situação em 2008. No mesmo ano que Juno estreio os Estados Unidos elegeriam meses depois Barack Obama. O primeiro presidente negro da história do país. Com um governo bem mais progressista do que seu antecessor, George W. Bursh. Apontando uma mudança na visão do que o país queria dali pra frente.

Em 2019, já temos um cenário bem diferente. Com a eleição de Trump, o país segue uma onda de conservadorismo que põe em jogo até mesmo os direitos já conquistados por minorias. Na mesma sessão onde Diablo comentou sobre o roteiro, o diretor do filme, Jason Reitman, fala o seguinte sobre o projeto: “Considerando o tanto que esta eleição fez contra as mulheres e o que a Planned Parenthood fez pelas mulheres, pensei que seria legal ouvir o roteiro com uma voz só feminina”. E assim na sessão todos os personagens foram lidos por atrizes. Nos primeiros meses deste governo, Trump assinou um regulamento que permitia aos Estados retirar o financiamento público à Planned Parenthood.*

Mais de uma década após Juno podemos ver um cenário político bem diferente. São novos desafios que naquela época não sabíamos que iríamos enfrentar. No Brasil ainda tentamos ter uma discussão série sobre liberdade reprodutiva das mulheres, mas acabamos sempre esbarrando em discursos conservadores.

Michael Cera e Ellen Page em Juno

Tendo em mente o quanto estamos em um momento ultraconservador tendo direitos ameaçados em todo o mundo. É importante reconhecer e valorizar mulheres que abriram portas para a noção geração. Assim como entender suas motivações, e como podemos contribuir para que histórias diferentes sejam contadas. Conhecer e apoiar o trabalho delas é uma forma genuína e bastante eficaz de abrir o debate e ser capaz de travar discussões que gerem resultados.

Em entrevista ao canal da revista Glamour no Youtube*, Diablo Cody falou de seu grupo de mulheres com quem costuma colaborar: Liz Meriwether (escritora, produtora e apresentadora de TV) Lorene Scafaria (roteirista, dramaturga, atriz, cantora e diretora), Dana Fox (roteirista). As amigas costumam chamar seu grupo de “Fempire”, algo como um “império feminino”. E há anos apoiam o trabalho uma das outras. Cody ressalta a importância de apoiar outras mulheres.

A forma como consumimos mídias através dos anos mudou bastante. Temos uma noção bem mais ampla sobre como funciona o processo de criação. Queremos saber quem fez, como fez e porquê. São preocupações justas, porém é importante não esquecer de que existem camadas nas respostas a essas perguntas. E como pessoas, movimentos e sociedade é preciso que a gente leve em consideração como essas discussões são feitas e qual resultados esperamos com elas.

Na mesma entrevista ela fala sobre porque escrever sobre mulheres: “O que eu escrevo é mais sobre o que estava faltando nos filmes que eu via. Eu pensava ‘Eu conheço essa mulher, porque eu nunca vejo ela em um filme?’ Parecia que existiam tantas histórias incríveis sobre mulheres que ainda não haviam sido contadas”.

E ainda existem tantas histórias que não conhecemos, que talvez estejam tão fora da nossa realidade que seja difícil entender como elas surgiram. Mas podem e devem ser contatas, discutidas e repensadas. Não precisamos e nem queremos modelos perfeitos, mas uma representatividade que reflita sobre nossa realidade. E isso só é possível com diversidade e apoio.

*http://www.adorocinema.com/filmes/filme-121167/

* https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/02/sob-a-mira-dos-conservadores-clinicas-de-aborto-fecham-nos-eua.shtml

*https://www.vanityfair.com/hollywood/2017/04/diablo-cody-sets-the-record-straight-on-juno

*https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/22/internacional/1542843589_775822.html

*https://www.youtube.com/watch?v=hRrC2xmCFAE&t=258s

*https://pt.wikipedia.org/wiki/Diablo_Cody

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Fernanda Maria

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