Não é homem, nem mulher: é uma trava feminina

Também não é ator, nem atriz, é “atroz”. Cantorx, bailarinx, performer. Já foi MC, hoje é só Linn da Quebrada. Que quebrada? Hoje da Fazenda da Juta, extremo leste da cidade de São Paulo, mas crescida entre Votuporanga e São José do Rio Preto, interior do estado. Bixa, preta, periférica. Travesti. “Marginalizada, negada, rejeitada”. Autointitulada “terrorista de gênero”. O motivo? “Será que não fomos por tempo demais inofensivas? Não está na hora de a gente passar a dar medo, a assustar?” Linn é muita, fica difícil resumir. E em 2017 ela foi ainda mais.

Linn da Quebrada e Jup do Bairro (Foto: Nu Abe / Divulgação “Pajubá”)

MC Linn da Quebrada despontou há mais de um ano, chegando com o pé na porta com as músicas “Talento” e “Enviadescer”. Em ambas, a então MC já falava sobre ser bixa e resistir. E não só bixa, mas muito bixa, afeminada, batendo de frente com os preconceitos encontrados dentro da própria comunidade LGBTQ, onde o gay afeminado é malvisto, por seus trejeitos e formas de expressão mais femininas, enquanto o gay heteronormativo, o “gay que não parece gay”, é adorado. Não só isso, Linn prega que é preciso ser cada dia mais viado: “além de enviadescer, tem que bater a bunda na nuca”. E pregar é a palavra certa: vinda de família religiosa, foi expulsa da igreja “porque uma podre maçã deixa as outras contaminadas”, então agora faz de seus shows o seu próprio culto, ao lado de Jup do Bairro, “parceira no crime”, também preta, periférica, bixa, travesti e gorda. Linn é bomba, Jup é bomba; juntas as duas são bomba pra caralho: pobres, pretas, revoltadas. “As bixas vêm pesada e, pra aguentar, segura as preta.” É bom respeitar.

Jup do Bairro e Linn da Quebrada em show no SESC Pompeia, em 9 de novembro de 2017 (Foto: Acervo pessoal)

Em abril desse ano, perdeu o “MC” e passou a ser, oficialmente, só Linn da Quebrada. “Talvez eu esteja MC nesse momento, mas minha arte é muito plural e diversa.” E essa pluralidade veio a tona no mesmo mês, em blasFêmea, sua primeira obra audiovisual, uma mistura de curta-metragem e videoclipe, que escreveu, estrelou e dirigiu.

“blasFêmea”, escrito e dirigido por Linn da Quebrada

A música que rege blasFêmea é “Mulher” e a letra, de autoria de Linn, fala sobre a “amapo de carne e osso, silicone industrial, navalha na boca e calcinha de fio dental”; a mulher que “tem cara de mulher, tem corpo de mulher, tem jeito, tem bunda, tem peito e o pau de mulher”.

“Mulher” é um grito de resistência das travestis que vendem seus corpos “de noite, pelas calçadas, andando de esquina em esquina”, “que lutam para existir e, a cada dia, conquistar o seu direito de viver e brilhar e arrasar” em um país onde a cada 25 horas uma pessoa LGBTQ é morta e a expectativa de vida dos transexuais e das travestis é de apenas 35 anos; onde o preconceito faz com que transexuais se afastem dos ambientes escolares, prejudicando sua formação; e onde cerca de 90% das pessoas trans, em decorrência da falta de oportunidades de um emprego formal, acabam recorrendo à prostituição.

Linn da Quebrada e grupo de transexuais em show no SESC Pompeia, em 9 de novembro de 2017 (Foto: Acervo Pessoal)

blasFêmea foi co-dirigido por Marcelo Caetano, diretor de Corpo Elétrico, que marcou a estreia de Linn nos cinemas. Lançado em agosto, o longa conta a história de Elias, um jovem estilista gay vindo da Paraíba para São Paulo, que trabalha numa confecção de roupas no centro da cidade. Linn é Simplesmente Pantera, “filha” de Marcia Pantera, uma drag queen de sucesso na noite paulista, e faz parte de um dos núcleos afetivos de Elias que, ainda muito novo, está se buscando dentro de si mesmo e em seus relacionamentos com os outros.

Trailer de “Corpo Elétrico”

Nesse meio tempo, Linn lançou a campanha “A bixa pode fazer um pedido?”, junto ao Kickante, para gravar e lançar seu primeiro álbum. A intenção era de trazer para a arte a representatividade trans que ela nunca havia encontrado antes. “Bixa travesti, preta, da quebrada, filha de empregada doméstica. Aqui encontro minha potência. Encontro na minha pele preta o meu manto de coragem. Encontro no espelho a força de resistir. Encontro na música, voz. Encontro no funk poesia. Movimento. Me encontro comigo mesma. E encontro com outras solidões. E passo a perceber que não estava sozinha, que haviam muitas que também compartilhavam das mesmas sensações. E encontro e produzo força a partir do nosso encontro.”, declarou em seu pedido. A bixa foi atendida.

Capa de “Pajubá” (Foto: Nu Abe / Divulgação “Pajubá”)

Em outubro, nasceu Pajubá, seu primeiro álbum — e ele tem resistência das unhas dos pés até o último fio de cabelo, seja ele natural ou peruca. As letras são todas de Linn e, em momento algum, ela se acanha em falar sobre o que é e o que representa: “bixistranha, loka, preta da favela” e “quando ela tá passando, todos riem da cara dela”, mas “se tu for esperto, pode logo perceber que eu já não tô pra brincadeira, eu vou botar é pra fuder”.

Linn resiste na sua condição, faz do seu corpo uma ocupação e transforma a sua sexualidade em arma. Já dizia Luana Muniz, morta em maio desse ano, que “travesti não é bagunça”; Linn da Quebrada vem reafirmar isso. E ela não dá pano pra homem que vem “bancar o machão se valendo de pinto”; Linn faz questão de deixar claro que é mais que muito macho: “cê sabe, eu não sou sarada e nem faço academia, mas arraso numa cama inventando pornografia. E se tu me desse bola, eu dava, eu dava, dava, eu dava, mas te comia. Mas eu sei que tu só gosta de boy viril, glamouroso. Vem aqui, me dá uma chance e vamo fuder gostoso. (…) Eles só quer socar com força, sem carinho e sem cuidado. Comigo vai ser com jeito, vem fuder com os vyadu.” Ela é escrachada e não tem pudor ao falar de sexo, afinal, “sexo é sexo, tem amor e tem orgia” e a Linn é “cadela criada na noite, submissa do sétimo dia”.

Linn da Quebrada e Mulher Pepita, que participa da música “Dedo Nucué”, em “Pajubá” (Foto: Nu Abe / Divulgação “Pajubá”)

Além de Jup do Bairro, o álbum ainda conta com participações de Mulher Pepita, Gloria Groove e Liniker Barros, da Liniker e os Caramelows, amiga de longa data de Linn, a quem chama de “irmã”. Todas fazem parte da cena emergente de artistas que fomentam um cenário musical representativo, de luta e resistência contra a imposição de padrões de gênero, o machismo, a desigualdade social e racial, o preconceito, a homofobia, a transfobia e a LGBTfobia como um todo, cada um com sua luta e toda a luta como uma só. Esse cenário ainda inclui Rico Dalasam, MC Xuxú, Lia Clark, Pabllo Vittar, Johnny Hooker, Jaloo, MC Queer, Danna Lisboa, Gu1hgo, MC Trans, As Bahias e a Cozinha Mineira e muitas outras “bixistranha, ensandecida, arrombada, pervertida” que “tomba, fecha, causa, elas é muita lacração”.

Versão audiovisual de “Pajubá”

Linn volta aos cinemas no próximo dia 30 de novembro, no documentário Meu Corpo é Político (dir. Alice Riff), que mostra o cotidiano, as dificuldades da vida como uma pessoa trans e as lutas de Linn; Paula Beatriz, primeira diretora trans da rede estadual de ensino; Giu Nonato, travesti e escritora; e Fernando Ribeiro, um homem trans. Além disso, Linn também poderá ser vista em breve no filme Sequestro Relâmpago, de Tata Amaral (Antônia, Trago Comigo), e em Bixa Travesty, documentário dirigido a quatro mãos por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, de Olhe pra mim de novo (2012), que contará a trajetória de Linn e explorará a cena musical em que a artista está inserida.

Trailer de “Meu Corpo é Político”, dirigido por Alice Riff


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