Literatura, substantivo feminino #EscrevamMulheres

Por Ana Squilanti.

Imagem: Pinterest

O Sol havia decidido se esconder. Descansar no feriado como os reles mortais. Chuva não favorece praia, mas descemos a serra mesmo assim. Visitaríamos o pai de uma amiga, e arranjaríamos algo para fazer.

Já que leitura não demanda clima, sentada no sofá, lia o último romance que adquirira. Beijos no Chão, da Dani Costa Russo.

— O que você está lendo? — indagou um desconhecido que chegara há pouco. Amigo-do-pai-da-minha-amiga.

— É um livro independente. Fala sobre violência doméstica. Quer ver? — E estendi o exemplar com a mão que segurava o livro. A outra levava uma xícara de café.

Vendo ele examinar o livro todo, desde capa, orelhas, e as centenas de páginas do miolo, pensei se era editor. Quanto interesse.

— João, a Ana é escritora. — disse minha amiga, se aproximando de nós.

— Ah é? — soltou um pouco descrente. No mesmo tom que já ouvi tantas outras vezes de bocas masculinas. Com o mesmo olhar que recebi semana passada, sentada numa mesa de bar, após o lançamento de uma amiga. O escritor passava de grupo em grupo mostrando seu trabalho. Dissemos que também escrevíamos. Ele não deu muita moral. Oito escritoras, aqui, nesse boteco?

— Sim. Faço parte de um coletivo de escrita de mulheres…

— De mulheres? — interrompeu-me.

— Sim. O mercado editorial é predominantemente masculino. Há pouco espaço para nós. O grupo busca fortalecer e estimular a produção do mulherio.

— Não concordo. Mulheres não tem menos espaço. Só escrevem menos.

Desejei ter cerveja naquela xícara para ajudar a descer mais redondo o que ouvia. Ou que houvesse mais café remanescente para jogar nele, e macha-lo como tentava manchar o movimento.

Tentei explicar mas não deu muito certo. O sexagenário que havia cursado Letras não conseguira ver na faculdade a falta de mulheres na literatura, mesmo com a sala empanturrada da nossa espécie. Sei que ele não é o único. Sei que há quem ache que fazer parte de um coletivo como este é segregar. “Feministas não querem igualdade? Para quê separar?”, já ouvi outra vez.

Porque é difícil falar em igualdade quando um lado está em tanta desvantagem. É preciso fortalecê-lo antes. Inúmeros estudos no Brasil, Austrália, e Reino Unido já mostraram que há contrastes tremendos nas publicações. E não é por falta de pegarmos no lápis e papel.


Poemas dos “irmãos Bell”

Cadê as escritoras?

Vida, uma organização americana promotora da paridade de gênero literária, analisou 15 das maiores publicações do meio, como London Review of Books, Times Literary Supplement, Granta e New Yorker.

Em quase todas elas, a maioria gritante dos livros indicados para leitura eram de homens. As resenhas feitas também eram de autores masculinos. A discrepância girava em 25% ♀ x 75% ♂.

Nos séculos 19 e 20, quando a maioria dessas revistas foram fundadas, quase todos os autores e críticos eram homens. O que significava haver um pequeno grupo para se trabalhar, favorecendo a predominância masculina. Mas e hoje? Os críticos e editoras ainda não conhecem mulheres para publicar? Nos meses de Abril e Maio desde ano, 11 dos 37 livros publicados pela Companhia das Letras foram de mulheres. Maioria estrangeira.

A verdade é que desde aquela época já haviam sim escritoras, só não havia espaço. As irmãs Bronte, Charlotte, Emily e Anne, consideradas das maiores novelistas, publicaram primeiramente seus trabalhos sobre os pseudônimos de Currer, Ellis e Acton Bell, para evitarem preconceitos. J.K. Rowling, neste século, ouviu de seu editor, Barry Cunningham, que o público jovem masculino poderia não se interessar por uma ficção escrita por mulher. A saída foi usar J.K. ao invés de Joanne. O impacto da saga teria sido outro? Não sabemos, de fato. Mas quando homens deixam de usar seus nomes por preocupação? Quando são colocados todos sob um subgênero de literatura, como fizeram conosco em “Literatura feminina”?

Nunca. E espero que nós não deixemos mais. Iniciativas para promover a escrita feminina são constantes, crescentes, e importantes. Eu, há pouco tempo, não me via como escritora. Graças a esse coletivo me enxerguei. Me li. E espero que você, mulher que escreve, também passe por isso. E que publique. E que se posicione. E que, na próxima vez que ousarem desmerecer o que sai da ponta de seus dedos, retribua com uma virada de olhos. Acreditando no que você faz, já é meio caminho andado. A gente ainda chega lá. Escrevendo. E juntas.


Durante essa semana a Fale com Elas e a Revista Subjetiva estão promovendo uma parceria, tendo como propósito difundir nossas colaboradoras através da exploração de um tema que nos é muito caro: “Mulheres e a Escrita”! Comente, compartilhe e acompanhe! É sempre um prazer ter você com a gente!


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