Mãe de planta

Thaís Campolina
May 10 · 7 min read
Imagem de uma matéria da Hypeness sobre a casa da norte-americana

Meu apartamento, seis meses atrás, era como qualquer outro. Cama, armários, geladeira, fogão, micro-ondas, um computador, uma tevê, mesa para quatro, filtro de barro, escrivaninha, uma estante, um sofá e acho que só. Isso me incomodava. Eu sentia que morar em um lugar sem identidade dizia algo muito grave sobre mim. Temia que alguém me visitasse e percebesse que eu era uma dessas pessoas que não sabia muito bem quem era e as fofocas sobre minha residência sem personalidade me tornassem uma espécie de pária no mundo dos autênticos.

Minha casa mostrava muito sobre mim. Essa é a verdade. Por isso, me aborrecia tanto entrar pela sua porta e me deparar com aquele vazio que significava que eu era um ser ainda em formação e, pior, nem sabia fingir ser algo diferente. Nessas horas, me esquecia que a questão não era só não saber para onde estava indo ou quem de fato eu era ou queria ser, mas, principalmente, a realidade da minha conta bancária e a possibilidade de amanhã eu ter que estar em outro lugar. Não havia grana o suficiente para encomendar móveis ou decorar meu apartamento com produtos da Tokstok. Comportamentos decorativos que, por algum motivo, são vistos como um sinal inegável de autenticidade em nossos tempos.

Aflita e depois de ver um milhão fotos no Pinterest de casas incríveis cheias de plantinhas, vasinhos, estantes e poucos móveis, decidi adicionar mais vida ao espaço branco que chamava de lar e acabei comprando uma samambaia. Depois vieram os vasinhos de cactos. E, a partir disso, foi questão de tempo para meu pequeno apartamento se transformar numa selva particular.

Minha casa se tornou um refúgio da cidade grande para mim e point com carinha de moderno e sustentável para amigos e conhecidos. De um dia para o outro, a casa sem identidade se transformou em um local de encontro entre aqueles que sentiam seu lado jardineiro, antes adormecido, pulsar.

Cuidava de cada vasinho com o amor que nunca fui capaz de dedicar a mim. Me esforçava para aprender o segredo das plantas e punha a mão na massa sem os nojinhos que me acompanharam durante toda a minha vida de garota urbana nascida e criada numa das maiores cidades do país.

Era tudo muito bonito, tranquilo, relaxante. Uma jornada de descoberta que eu estava adorando viver. Cheguei a arrumar um minhocário, aprendi produzir adubo com lixo orgânico e até decoração de vasinhos de barro com tinta colorida, eu passei a fazer. As plantas ficavam cada dia mais exuberantes e, num ataque de orgulho, me declarei mãe de planta para quem quisesse ouvir.

Apesar de ter postado esse anúncio no Instagram, no Facebook e no Twitter, foi em casa que senti que fui de fato ouvida. Um som agudo, muito agudo, e manhoso me acordou no outro dia antes mesmo de amanhecer. Era domingo e eu odiei com todas as forças a criança birrenta que algum vizinho arrumou até chegar na sala e perceber que minha Orquídea Dendrobium era quem emitia aquele som horrível. Quando dei por mim, ninava seu vasinho feito de barro cantando bem baixinho uma música sobre sementinhas.

Os gritos logo cessaram, mas ela seguia choramingando e eu não sabia o que fazer. Demorou, mas acabei me lembrando que no dia anterior tinha arrancado umas folhas velhas de seu tronquinho e decidi apreciar o local. As marcas dos cortes pareciam ter inflamado durante a noite. Quando passei o dedo para testar, ela voltou aos berros iniciais e eu corri para o Santo Google que me aconselhou a passar canela em pó nos cortes. Cicatrizante natural, sabe? Cuidada, ela se acalmou e voltou a se concentrar na fotossíntese.

Depois de ver o sol amanhecer com uma planta desesperada no colo, meu pijama estava todo sujo de suor, terra, canela e fluídos que eu não sabia de onde tinham saído. Cocô, xixi, seiva ou lágrima de orquídea? Aparentemente tudo isso e mais um pouco. Era impossível não pensar no quanto eu precisava de uma chuveirada.

Limpa novamente e conformada que ao menos essa novidade biológica sobre orquídeas não fedia muito e indicava que provavelmente eu não ia precisar mais me dedicar tanto ao minhocário, fui preparar meu café da manhã.

Chegando na cozinha, percebi que todas as plantas da casa tinham abandonado a passividade esperada delas e se moviam, conversavam e me encaravam. A orquídea foi a primeira a despertar desse sono vegetal, mas agora eu tinha que lidar com mais trinta seres vivos desesperados por diferentes tipos de atenção e cuidado.

Pinterest

Os Cactos, como bons adolescentes rebeldes, me ofendiam e gritavam como me odiavam quando eu chegava perto. As Samambaias queriam brincar comigo e tentavam me fazer tropeçar com rasteiras dadas pelos seus galhos delicados e riam descontroladamente toda vez que tentavam. A Palmeira-ráfia me enchia o saco querendo que eu acariciasse suas folhas e a chamasse pelo seu nome científico. A Palmeira-leque me pedia água o tempo todo. Toda hora vinha com um “borrifa mais um pouquinho” e reclamava da Begônia que não parava de cantar. O manjericão? Ai, ai, o Manjericão… Esse só sabia reclamar de ser comestível e pedir esterco de qualidade. Esse desgraçadinho só sossegou quando eu contei que o tal do esterco de qualidade é feito com bosta de um tanto de bicho que rumina pedacinhos de grama, plantinha, florzinha e até ervinha. Só depois de chocado com o ciclo da vida e o destino de seus parentes, ele se calou. Nem comento sobre a Comigo-ninguém-pode. Essa me testou de todas as maneiras possíveis e impossíveis provando que esse nominho dela diz muito sobre a realidade de seu temperamento. Uma hora cheguei a me pegar com uma tesoura de jardim pensando em dar um fim naquela chata! Só os Lírios ficaram na deles, não por bom comportamento, deixo claro, eles queriam me atingir me dando um gelo daqueles por puro ciúme.

Lá pelas dez, Rafael me enviou um áudio no Whatsapp me convidando para conhecer a casa que ele agora dividia com o namorado. O programa? Tomar um brunch caseiro e maravilhoso com tomatinho confit feito por eles. Mensagem que me deixou com água na boca, mas que só li porque minutos antes eu tinha tomado a iniciativa bem controversa de me trancar no banheiro e deixar o pau quebrar lá fora. Quando pensava onde eu ia arrumar uma babá para as plantas, a Palmeira-ráfia, aproveitando de seu tamanho, olhou pela fechadura da porta e viu que eu estava só mexendo no celular sentada na privada e começou a gritar para as outras que a mamãe não gostava mais delas e todas passaram a chorar como a orquídea chorou às cinco e pouco da manhã. Pelo menos já era um pouco mais tarde, o que diminuía drasticamente a chance de alguém reclamar da barulhada do meu apartamento para a síndica.

Um golpe baixo esse da Palmeira-ráfia. Sair do banheiro foi difícil, eu sentia culpa, queria chorar, mas não podia dar esse gostinho para nenhuma daquelas coisinhas insuportáveis que eram piores que ervas daninhas, mas precisavam de cuidados. Elas me encararam com arrogância e mágoa e andar pelo corredor até a sala me lembrou os piores tempos de escola.

Fui obrigada a voltar a atender as necessidades de cada uma delas. Toda hora, uma coisa diferente. Era adubo, era corte, era passar canela em pó nos tronquinhos igual eu fiz com a Orquídea e causou ciúme no resto da trupe. Era troca de vaso, decoração das floreiras, carinho e muito ouvido aberto para conhecer as picuinhas delas. Elas também me acariciavam, me falavam palavras bonitas e faziam coisas engraçadinhas, o que piorava a culpa que eu sentia por não amá-las como eu achava que amava antes desse dia começar e elas se tornarem minhas filhas.

Exaustão se tornou meu nome, sobrenome e arroba no Twitter. Fui dormir quase uma da manhã e o sono era tanto que nem consegui mandar uma mensagem para minha mãe perguntando algumas coisinhas sobre jardim e família.

Acordei cinco horas depois com o despertador gritando e com o pensamento fixo no desafio do dia: como eu iria passar dez horas fora de casa e deixar sozinhas trinta e uma plantas de todas as idades?

O silêncio dos outros cômodos me respondeu. Nunca precisei saber o que fazer nessa situação, porque elas tinham voltado ao estado vegetativo habitual.

Quando vi a sala com sua paz de sempre restaurada, ri pensando na esquisitice do pesadelo da vez até notar o quanto o chão, o sofá e a mesinha estavam cheios de terra, pedaços de folhas, caules, seiva, canela em pó e tudo mais. De fato já era segunda-feira.


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Pró pijama, pró naninha e pró feminismo. 29 anos, contadora de casos, louca de papelaria e fã de jogos. Me acompanhe em: https://www.facebook.com/thaisescreve/

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