Mães que resistem à todo custo

A história das “Las madres de la Plaza de Mayo” que resistem procurando seus filhos e netos à 40 anos.

“Que apareçam com vida os detidos e desaparecidos”

No dia 24 de março de 1976, a Junta Militar tomou o poder na Argentina, era formada por comandantes das três armadas: Jorge Rafael Videla, general do Exército, que foi designado para o cargo de presidente ; Orlando Agosti, comandante da Força Aérea e Eduardo Massera, almirante da Marinha. Realizam o golpe em nome do autodenominado Processo de Reorganização Nacional, para trazer a ordem e aniquilar os subversivos. Assim começa a época mais obscura do país, onde sequestraram e assassinaram trabalhadores, militantes sociais, estudantes, professores e até crianças, ao total são cerca de 30 mil pessoas que sumiram nesta época segundo organizações argentinas.

Os dois primeiros anos foram os mais violentos, usavam das táticas mais cruéis para calar quem era contra o regime. As seguiam, capturavam e as encaminhavam para os centros clandestinos de detenção, onde as vitimas eram torturadas e mortas. As mulheres grávidas sequestradas eram poupadas até darem a luz, após isso eram assassinadas e seus filhos entregues para outras famílias e muitas vezes a dos próprios militares. Nesta época a Argentina perdia uma geração inteira, pois os que não foram mortos, saíram do país com medo do mesmo destino que seus colegas.

General Jorge Rafael Videla e a Junta Militar

As mães dos desaparecidos, sofrendo sem notícias e sem mais saber o que fazer, iam sozinhas até a porta dos quarteis e prisões em busca de notícias. Enquanto esperavam, acabavam se aproximando de outras mães por terem em comum a dor de não saber o paradeiro de seus filhos. A aproximação dessas mulheres as faziam mais fortes, juntas o temor diminuía e assim cobravam explicações. E esse foi o grande triunfo dessas mulheres, não terem ficado se lamentando e sim ter ido atrás e batalhar, mesmo que as chamassem de loucas.

Começam a se encontrar na igreja para rezar e conversar sobre o ocorrido, mas uma situação deixou uma delas furiosa, foi quando um padre as recomendou a ter “santa paciência”. Azucena Villaflor, cansada que lhe digam para ter paciência, se irrita diz:

“Individualmente não vamos conseguir nada, porque não vamos a Plaza de Mayo? Quando verem que somos muitas, Videla terá que nos receber.”

E é assim que no sábado dia 30 de abril de 1977, as mães realizam a primeira passeata, com 14 mulheres ocupando a icônica Plaza de Mayo — uma famosa praça em Buenos Aires, onde fica a casa rosada — para exigir que devolvessem seus parentes. E a partir daí não pararam mais, todas as quintas feiras, marchavam no nariz do governo ditatorial e isso fez com que a praça se tornasse o território das mães. O comando com medo do crescimento do grupo, mandava a polícia,pressionar para que saíssem do local e diziam “Circulem, circulem, não podem ficar aqui em grupo” — com o Estado de sítio valendo, era proibido que pessoas ficassem paradas na rua em grupo de três ou mais, por ser algo potencialmente subversivo. Como mais um ato de resistência, elas se juntavam em pares e andavam ao redor do principal monumento da Plaza de Mayo, o monumento Belgrano — O grande herói da independência argentina.

De boca em boca passava a notícia da existência do grupo, então cada vez mais parentes de desaparecidos se juntava a elas. Com o aumento de pessoas, começou a ficar difícil de identificar quem fazia parte, então para padronizar, tiveram a ideia de usar as fraldas brancas de seus filhos na cabeça — lembrando que antigamente não existia fraldas descartáveis. Assim, esses panos brancos viraram o grande símbolo do grupo.

Durante as suas caminhadas pela Plaza de Mayo e outras manifestações, começaram a carregar as fotos dos sequestrados, como uma forma de afronta ao governo, para demostrar que eles de fato existiam e que não era invenção de “velhas malucas”, a imagem que o governo queria passar delas.

“Essas mulheres são loucas, loucas de merda. São contos, estão mentindo.” — Capitão do exército argentino
“Sim, provavelmente somos loucas sim. Loucas de raiva e angústia por tudo que está acontecendo com nossos familiares. Se somos loucas ficamos com o título, somos as loucas da Praza de Mayo, mas que nos respondam onde estão nossos filhos.” — uma mãe.

Desde o começo, a mulher com mais garra e liderança no grupo foi Azucena Villaflor de De Vicenti, uma mulher forte e que conseguia fazer com que todas as mães tivessem forças para estarem todas as quintas feiras nas ruas. Azucena teve a ideia de começarem a produzir uma lista chamada Só pedimos a verdade, que tinha como objetivo colocar o nome de todos os desaparecidos e publicar num jornal exigindo que a Junta Militar desse respostas sobre o paradeiro dos sequestrados, que seria publicado no dia 10 de dezembro de 1977.

Um pouco antes do início da produção da lista, um militar consegue se infiltrar no grupo, o general Alfredo Ignacio Astiz, que chega as mães falando que sequestraram seu irmão. Muito inteligente, percebe quais eram as mulheres mais ativas no grupo e se aproxima de Azucena conseguindo colher informações sobre elas.

Após conseguir identificar as mulheres mais ativas do grupo, em um ato covarde, Astiz aponta três mulheres, entre elas a Azucena e também Esther Ballestrino de Careaga — foi grande amiga e chefe de Jorge Bergoglio, o Papa Francisco — e María Ponce de Bianco. Entre os dias 8 e 10 de Dezembro 1977, elas e mais outras 11 pessoas ligadas ao movimento desapareceram, e anos depois se descobre que elas foram levadas para a Escola de Mecânica da Armada, o mais sinistro campo de detenção e tortura. Para termos noção das cerca 5 mil pessoas que foram levadas pra lá, menos de 150 sobreviveram. A maioria foi assassinada de uma das maneiras mais cruéis possíveis, foram dopadas — mas muitas acabavam acordando no meio — , amarradas, colocadas em um avião, nos “voos da morte” e jogadas vivas sobre o Rio da Prata.

Neste momento, após o desaparecimento das dessas mães a luta fica mais difícil, muitas desistem temendo o mesmo destino e o grupo quase acaba, mas algumas resistem e vão de casa em casa pedindo ajuda e implorando para que todas as mães voltassem a praça.

Passado o primeiro impacto da perda de suas companheiras, elas voltam a praça com mais medo, mas também com a garra que aprenderam a ter com Azucena, Esther e María Ponce. A repressão fica mais dura, a policia soltava os cães, eram golpeadas, lançavam gás lacrimogênio e eram presas. Neste momento, elas estavam cada vez mais organizadas, então quando uma era detida, todas as outras se apresentavam e davam seus documentos, assim evitavam que mais uma mãe desaparecesse e mais uma vez elas passavam em cima do sistema militar que queria a todos calar.

Como é de imaginar em uma ditadura, a censura era grande, a maior parte dos veículos de mídia argentino eram fechados com o governo e os que não eram temiam por suas vidas, mas em duas situações o governo não conseguiu conter a força das mães com a mídia. Primeiro, bem no início, quando acontece uma marcha de ONG’s dos Direitos Humanos, a polícia acaba prendendo jornalistas estrangeiros e assustados com truculência militar, noticiaram internacionalmente o caso, com as mães dando entrevistas em frente das delegacias, rezando e gritando na cara dos homens fardados “ASSASSINOS”.

A segunda vez foi em 1978, com a Argentina sendo sede da Copa do Mundo de futebol. O governo estava utilizando o evento como sua maior propagando e demostrar que estava tudo bem no país. Mas algumas emissoras em vez de estarem nos estádios, acharam muito estranho ver mães desesperadas na principal praça da capital do país, então no dia primeiro de Julho, os jornalistas foram a Plaza de Mayo para entender o que estava passando. E assim aconteceu, no exterior todos ficaram sabendo o que se passava realmente naquele país.

Agora em evidência internacionalmente, as mães começaram a viajar para pedir ajuda a políticos e órgãos internacionais. Vão aos Estados Unidos para se reunir com a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos; à Itália e se reúnem com o presidente italiano; e tentam contato com o Papa, mas a igreja católica argentina aconselha o Vaticano a não receberem.

Depois de alguns meses, finalmente a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos chega ao país para investigar a acusação de terrorismo de Estado. O governo argentino teve que aceitar calado a sua chegada, devido a pressão norte americana que sempre levantava a bandeira dos direitos humanos como uma das suas diretrizes. Os especialistas da Comissão Especial, passaram 14 dias no país entrevistando famílias de desaparecidos e presos. Mas no final, nada de relevante fizeram, o único saldo positivo da visita foi abrir os olhos dos argentinos que ficavam indiferentes, o que gerou um debate na sociedade sobre os fatos e faz com que os milicos mudem de estratégia e passem a dizer que todos os desaparecidos estavam mortos, tudo com a finalidade de cessar o assunto o antes possível. Mas as mães mais uma vez não ficaram caladas, elas não aceitaram a réplica, pois não tinham provas, que eram os corpos dos seus familiares, então elas continuaram atrás da verdade, em saber onde estavam seus filhos e se estavam mortos como mataram e porque.

Em 1980, as mães são indicadas ao Premio Nobel da Paz, não ganham, mas são reverenciadas pelo ganhador Adolfo Pérez Esquivel — militante dos direitos humanos. E foi mais uma pancada pro governo, pois novamente a luta das mães era lembrada internacionalmente.

As mães marchando na Plaza de Mayo

Em 1981, aconteceu a primeira Marcha da Resistência das mães, em que fizeram uma vigília na praça de quase 24 horas.

Em 1982, o Presidente Comandante Galtieri declara guerra a Inglaterra pelas Ilhas Malvinas. Uma guerra totalmente inventada para tirar o foco da repressão no país e provocar o patriotismo nos argentinos. Desde seu início era uma guerra perdida, e as mães da praça alertaram sobre, mas mais uma vez as chamavam de loucas a antipatriotas. A Guerra durou 2 meses e 5 dias com 649 mortos do lado argentino e 258 do lado britânico, ou seja, o exercito argentino foi massacrado, o que afundou definitivamente o governo militar, pois a população passou a desaprovar as condutas militares e a popularidade caiu. Os movimentos e organizações de direitos humanos como a das Mães da Praça de Maio, que já tinham uma visibilidade internacional, começa a ganhar apoio nacional. A guerra provocada foi um tiro no pé e os esforços de censura e repressão não surtia mais efeito. Desta forma eleições são convocadas e após sete anos de um regime autoritário e sanguinário e em 1983, se elege democraticamente Raúl Alfonsin.

Não esqueceremos

Com o restabelecimento da democracia, a luta dessas mulheres além de continuar na busca de seus filhos e netos, começava a segunda etapa, ir atrás da justiça, ou seja, lutar para que todos os militares que estavam envolvidos com o assassinato de cerca de 30 mil pessoas fossem condenados e não fossem anistiados.

Hoje em dia, as mães e avós continuam na luta, porém, devido as divergências políticas, elas se dividiram em Associação Madres de La Plaza de Mayo e Madres de La Plaza de Mayo Linea Fundadora. Desde o começo da procura conseguiram encontrar 122 netos graças ao exame de parentesco através das avós ou avôs, que elas foram atras na década de 80 em uma universidade americana, pois não existia este tipo só o para descobrir materno ou paterno. E após alguns anos, conseguiram descobrir um teste de prove 99,99% do parentesco. Com isso, elas criam um banco para armazenar os perfis genéticos das avós, assim podendo auxiliar a identificar uma pessoa que desconfia sua origem e vai procurar a instituição para obter respostas para suas dúvidas.

Essa é a história de mulheres de garra, que há 40 anos lutam. Mulheres que não aceitaram a repressão do Estado. Mulheres que indignadas saíram as ruas e afrontaram um dos piores sistemas militares da América Latina. Mulheres que não descansaram até que todos os culpados que estavam vivos fossem condenados. Em 30 de abril de 1977, essas mulheres começaram o processo de construção de um novo espaço político, uma nova forma de resistência, as ditas loucas, as “Madres de la Plaza de Mayo”.


Dedico este texto à todas as mães que lutam diariamente para proteger sua cria. Seja na Argentina, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo que diariamente estão perdendo seus filhos para a violência do Estado.


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