Mais cinco violências no Conto de Aia que foram inspirados em violências contra mulheres na vida real

Parte 2

Carol Correia
Sep 1, 2018 · 11 min read

Observações:

  1. Somente serão mencionadas violências dirigidas a mulheres, mas certamente há violências apresentadas em Conto de Aia que são dirigidas a homens também.
  2. Haverá spoilers.
  3. A parte 1 deste texto também se encontra veiculado na Revista Subjetiva.

6) Exigência da assinatura para métodos contraceptivos

Em um dos flashbacks da série, June pede a seu marido assinar uma permissão para ela ter a possibilidade de comprar sua pílula contracepcional — pois sem a assinatura, ela é proibida por lei de fazê-lo. O flashback é feito com fins de atentar que nenhum direito conquistado costuma ser cerceado da noite pro dia, eles costumam ser limitados tantas vezes ao longo do tempo que ninguém sequer perceba que eles sumiram.

Limitações a direitos reprodutivos são tão comuns que não temos o hábito de questioná-los. Inclusive, costumamos pensar que direito reprodutivo é o equivalente ao direito ao aborto legal e seguro; o que não é.

No Brasil, o procedimento da laqueadura [esterilização requisitada por mulheres que não desejam engravidar] é relativamente simples e dura pouco mais de meia hora. Ela está disponível pelo Sistema Único de Saúde para mulheres com mais de 25 anos ou com dois filhos. E, mais importante, é necessário o consentimento do cônjuge para ser realizado (art. 10, caput, I e §5º, Lei nº 9.263/96).

Inclusive, se for feita a esterilização sem o consentimento do marido, ela é passível de ser processada pelo marido por danos morais ou, ainda, ter seu casamento anulado.

Na verdade, tanto a laqueadura [esterilização feminina] quanto a vasectomia [esterilização masculina] requerem a assinatura do cônjuge, por razões de planejamento familiar. Mas, embora a lei oferte esse tratamento igualitário, as expectativas sobre a mulher ser mãe são exigidas pela sociedade, enquanto a do homem ser pai são ignoradas — prova disso são os 5,5 milhões de crianças sem pai no registro no Brasil.

De qualquer forma, a exigência da assinatura do cônjuge implica uma afronta a autonomia individual, pois decisões personalíssimas não podem se sujeitar à anuência de terceiro — mesmo se o terceiro for seu esposo.

É interessante salientar que na Lei Maria da Penha (art. 7º, III, Lei nº 11.340/06) estabelece cinco formas de violência doméstica:

Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

III — a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos [grifo nosso]

Logo, a Lei 9.263/96, anteriormente mencionada, está em desacordo com a Lei 11.340/06.

7) Aias como “barrigas de aluguel” e maternidade por substituição

A maternidade de substituição é o objetivo das aias; engravidarem em lugar das esposas inférteis dos Comandantes. E assim como na série, a maternidade por barrigas de aluguel são práticas violentas contra mulheres.

Barrigas de aluguel é um tema apresentado como possibilidade para casais que são incapazes de engravidar. O que é ocultado é a coerção, exploração e a vulnerabilidade presente.

Na Índia, as agências de barrigas de aluguel mantinham um excedente de bebês nascidos antes de serem requeridos por uma família.

Crianças que nascem com problemas de saúde ou qualquer tipo de deficiência ou dificuldade são abandonados pelos pais adotivos. Na Tailândia, com o nascimento de gêmeos, Pipah que é neurotípico e Gammy neurodivergente [no caso, com síndrome de Down], o casal que requereu os bebês “mudaram de ideia” e decidiram manter apenas Pipah, rejeitando Gammy. A separação dos gêmeos foi pivô para restringir algumas condições da maternidade de substituição na Tailândia.

Em gestações com dificuldades ou, então, em gestações de risco, a vida do bebê é priorizada acima da vida da gestante. As mulheres que estão servindo como substitutas são vistas apenas como reprodutoras, não mais como humanas.

Problemas de saúde devido a essas gestações não são pagas pelas agências, muito menos pela família que requereu a criança. Logo, mulheres que se tornaram barrigas de aluguel como forma de conseguir dinheiro, acabam sendo deixadas com contas médicas altas.

8) Violência doméstica

Na segunda temporada é apresentado que em um momento Serena desobedece Fred, seu marido e, por isso, ele a ‘disciplina’, para expurgá-la de seu ‘pecado’ a responsabilizando por suas próprias ações.

Fred agredir Serena é parte do direito dele de discipliná-la. Sua conduta não é considerada criminosa. Mas é necessário compreender que: a situação retrata violência doméstica.

Violência doméstica são violências por parte de uma pessoa contra outra num contexto doméstico, casamento, união estável, namoro ou contra crianças ou idosos.

A Lei Maria da Penha estabelece cinco formas de violência doméstica e familiar: violência psicológica, violência física, violência sexual, violência patrimonial e violência moral.

O Mapa da Violência 2015: homicídios de mulheres no Brasil afirma que a violência doméstica é a violência mais fatal às mulheres no Brasil; assim como afirma que o número de morte de mulheres negras nessa situação aumentou 54% em dez anos, enquanto o homicídio de mulheres brancas diminuiu em 9.8% nesse período.

por Melina Bassoli

Estima-se que cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos, em que o parceiro é o responsável em mais de 80% dos casos.

Segundo a pesquisa Data Senado sobre violência doméstica e familiar de 2015, uma a cada cinco mulheres já foi espancada pelo marido, companheiro, namorado ou ex.

Os dados comprovam um problema de violência de gênero, no entanto, ainda é visto como um “problema do casal”. Uma pesquisa do Ipea de 2014 sobre a tolerância social à esta violência aponta que 63% dos entrevistados concordam que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”, 65% concorda que “mulher que é agredida e continua com o parceiro porque gosta de apanhar”, 89% concorda que “a roupa suja deve ser lavada em casa” e 82% considera que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Esse não é um problema existente apenas no Brasil.

Segundo a OMS, cerca de 35% das mulheres em todo o mundo já sofreram violência pelo parceiro em algum momento de suas vidas.

Na pesquisa da Asociación de la Encuesta Mundial de Valores em 2010 foi avaliado se e quando é justificável agredir uma mulher e teve como resultado que em 17 de 41 país analisado, um quarto ou mais dos entrevistados acredita ser justificável a violência doméstica.

Infelizmente, devido a crença ainda presente de que a violência doméstica é aceitável, ela continua a acontecer, assim como a aprisionar várias mulheres a seus parceiros abusivos.

9) Jezebel e exploração sexual

A dicotomia da puta e santa é reforçada em Gilead com a criação das Jezebel, um clube exclusivo a homens de alto cargo que coloca mulheres para serem exploradas sexualmente.

Pensa-se que Gilead é criada para servir aos ensinamentos de Deus, em que luxúria é um pecado e a ideia de transar com alguém que não é seu parceiro é passível de crime capital. No entanto, tais considerações apenas são válidas para as mulheres — como é mostrado na série/livro, homens usufruem da possibilidade de poderem usarem toda e qualquer mulher sexualmente.

As mulheres são serem criadas para estarem a serviço dos homens. As esposas são as santas, a imagem da mulher do lar, pura e dessexualizada. E as jezebel são as putas, que existem para satisfazer os desejos sexuais masculinos.

A escolha do nome do clube é, no mínimo, interessante. Jezebel é uma personagem bíblica, uma princesa fenícia que foi casada com o rei de Israel. No livro de Reis, Jezebel domina seu marido, com sua forte personalidade e se considerava profetisa. Ao se tornar a esposa do Rei de Israel, ela passou a dar ordens, segundo o que acreditava. Tornou-se muito influente. Quando Israel se tornou teocrático, Jezebel forçou todos os sacerdotes a cultuar Baal. Ela cultuava deuses fenícios e passou a combater o Deus de Israel.

Jezebel foi confrontada pelo profeta Elias, que reafirmava o Deus de Israel sobre os deuses fenícios. É dito que Elias derrotou todos os sacerdotes de Baal.

O ensinamento é: o Deus de Israel é a única divindade; e todos que não o seguem serão derrotados.

Jezebel passou a ser associado a uma mulher sem escrúpulos e sensual.

Não obstante, a imagem da Jezebel passou a ser associada especificamente a mulheres negras.

Suzane Jardim explica que:

POIS BEM na era vitoriana, tinha toda uma imagem da boa mulher e basicamente ela era europeia e cristã — fim. Até que um dia europeus entraram em contato com mulheres africanas e atribuíram aquela seminudez usada nos trópicos à promiscuidade.
Se eles se deparavam com aldeias africanas onde poligamia era uma prática então… vish, obviamente as mulheres negras só podiam ter uma luxuria incontrolável e ainda por cima eram pagãs, logo, não deviam ter moral nenhuma — igual a Jezebel.

Mas claro que isso não era um problema pros homens europeus da época né? Afinal, se tem essas minas aí, elas não são de Deus e portanto não tem moral, elas tão sempre quase nuas e são insaciavelmente luxuriosas ENTÃO SUPER DE BOA transar com elas sem pedir ou usar o corpo delas como exibição.

E essa concepção da mulher negra insaciável é a usado coo justificativa para as violências sexuais cometidos contra mulheres negras; afinal, elas sempre querem…

Afirmei que era interessante a escolha do nome do “clube de cavalheiros”, porque esse estereótipo da mulher negra não deve ser desconhecido de Atwood. Então o apagamento da questão racial nessa violência é problemático. Afinal, Atwood utiliza de violências reais para se basear no desenvolvimento da história [ela faz questão disso] e essa violência, em especial, é racializada.

De qualquer forma, as jezebel são uma alegoria a exploração sexual. As jezebel são as mulheres que “não assimilaram as posições do novo governo”, como disse Comandante Waterford.

Elas são as marginais que são ofertadas a seguinte proposta: ir para as Colônias, onde serão expostas a resíduos tóxicos e morreram uma morte lenta e dolorosa ou poderão ir a Jezebel, onde serão estupradas todas as noites — mas hey, elas são permitidas revistas antigas e usar maquiagem, então tá tranquilo… é considerado preferível…

A oferta entre duas opções indesejáveis manipula a mente das mulheres de modo a pensarem que há uma escolha real — quando não há. Ser morta aos poucos ou ser morta aos poucos, mas de formas diferentes não é uma escolha.

Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, 63,2 mil vítimas de tráfico de pessoas foram percebidas em 106 países em 2012 e 2014. As mulheres e meninas são usualmente destinadas à exploração sexual; enquanto homens e meninos costumam ser traficados para trabalho forçado.

10) Problemas psicológicos decorrentes da violência sexual

Falamos no ponto 2 sobre cultura do estupro e como existe uma normalização da violência sexual, de modo a absolver o agressor e responsabilizar a vítima pelo que fizeram a ela.

Neste faremos uma continuação do tópico anterior, de modo a focar não sobre o ambiente que é hostil às mulheres e as vê apenas para o prazer sexual masculino, mas sim sobre o ato de violência sexual em si e os problemas decorrentes dessa violência.

Nessa segunda temporada, Serena e Fred planejam estuprar June — e o fazem. Obviamente, June, como aia, já foi submetida a várias violências sexuais (que eles chamam de Cerimônia), mas esse é um pouco diferente.

É diferente porque no mundo de Gilead, a Cerimônia é planejado e protegido pelo Estado sob a justificativa de engravidar mulheres comprovadas férteis. Mas essa aia já estava grávida, então o próximo estupro não estava programado para acontecer até o fim da amamentação e ela ser enviada a outro Comandante. Mas ele acontece.

Pelo desenvolvimento da primeira temporada, é possível afirmamos que quando o dia da Cerimônia chega, a aia fica mais quieta; preparando-se psicologicamente para o que irá acontecer mais tarde… A maioria delas aprendeu a se dissociar.

Dissociação psicológica é um mecanismo de defesa, pois protege a psique do sujeito que vivencia uma situação de extrema tensão emocional e psíquica e devido a essa experiência dissocia os pensamentos, as emoções e os sentimentos sobre a experiência traumática.

Neste estupro, June não se preparou, ela não se deitou e ficou calada. Ela gritou, apelou pela humanidade de Serena e ofereceu resistência física ao toque de Fred.

Serena que auxiliou no cometimento do estupro, reconhece que foi estupro — algo que não tinha acontecido até então [e esse reconhecimento não a absolve de nenhum modo].

Gilead é baseado em estupros rituais; a maior parte das novas crianças de Gilead são fruto de estupro. O estupro serve para fins de reprodução.

Na verdade, a violência sexual é reembalada como uma relação sexual; no máximo, concubinato — jamais como uma violência. Estupro, para todos os efeitos, é legalizado.

Para não haver confusão, vamos definir estupro: Estupro é toda relação sexual, com ou sem penetração, sem consentimento de todas as partes.

Novamente, para não haver confusão, vamos definir consentimento: Consentimento é quando você QUER fazer algo. Se você não quer, mas cede por pressão, não há consentimento. Se você não está consciente, não há consentimento. Se alguém te força ou te agride, não há consentimento.

Uma violência sexual não apenas te abala naquele momento, como também, pode acarretar problemas psicológicos e sociais, tais como depressão, ansiedade, transtornos alimentares, transtorno de estresse pós-traumático, distúrbios sexuais, distúrbios do humor, abuso de drogas, problemas de autoimagem, autoestima e comprometer relacionamentos interpessoais.

Essa violência causa uma marca que pode perdurar por muitos anos nas vidas das vítimas.

Infelizmente, é possível mais paralelos

Como falei na parte 1, a história das mulheres é cercada de violência dirigida a elas. Sendo algumas violências apagadas, simplesmente por não termos acesso a toda história das mulheres e outras vezes porque essas violências são naturalizadas e justificadas por questões culturais e/ou religiosas.

Continuarei listando mais paralelos, conforme a série se desenvolva.

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Carol Correia

Written by

uma coleção de traduções e textos sobre feminismo, cultura do estupro e racismo (em maior parte). email: carolcorreia21@yahoo.com.br

Revista Subjetiva

Tudo aquilo que você não encontra na grande mídia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade