Manter-se vivo é uma forma de resistir

Pra ser resistência, o primeiro requisito é estar vivo.

Tiago da Silva
Nov 14, 2019 · 2 min read

Você não pode resistir em um caixão.

Pense no cenário de ocupação de territórios durante o expansão nazista: foi importante, é claro, o esforço das pessoas que compraram a briga, fizeram estardalhaço e denunciaram/protestaram contra as monstruosidades. O mundo tinha que saber, afinal. Sofreram, mas deram sua contribuição. Foram observadas de perto, perseguidas e eventualmente mortas. Sua forma de lutar foi digna e valente.

Mas, existe mais de uma forma de lutar.

Algumas outras famílias e pessoas, que também fizeram a diferença na vida de centenas de famílias judias, tinham uma coisa em comum: ficaram na delas, não se envolveram na guerra escancaradamente e, a sua maneira, dentro das suas possibilidades, salvaram quantos puderem, pacifica e discretamente. Escondendo famílias nos seus sótãos e porões. Acobertando, abrigando e alimentando uns aqui e outros ali sem chamar a atenção das autoridades.

Tá entendendo o que eu tô querendo dizer?

De outra forma. Durante a escravidão no Brasil foi necessário coragem pra que homens e mulheres escravizados se rebelassem e, a custo de suas vidas, denunciassem, contestassem e até colocassem fogo na casa de Senhores de Escravos com os desgraçados dentro. Revoltas, motins, matança. Era vida ou morte. OK.

Mas também foram valentes os pretos velhos que passaram por tudo aquilo sem recorrer à violência.

É deles o testemunho que ficou. Graças aos vivos uma parte das tradições pode ser preservada, e esse lado da história pode ser contada.

Optar por continuar vivendo, enquanto que os que ama estão fazendo a guerra e morrendo no processo, não é necessariamente um ato de covardia. É uma forma — dura — de resistir. Uma forma que também cumpre um papel relevante.

Essas poucas palavras são sobre os tempos de violência que se avizinham. E sobre como os mártires são ótimos, mas alguém precisa criar os filhos deles, e garantir que a sua história seja contada.

É um texto sobre covardia e coragem, e um convite à reflexão sobre os significados de ambos os termos.

Se você gostou do texto, dê a ele de 1 a 50 aplausos clicando nas mãozinhas no final do texto ou ao lado dele. Quanto mais aplausos, mais as histórias se destacam.

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Tiago da Silva

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Às vezes me surpreendo com o que escrevo, porque não sabia que pensava assim.

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