Memórias de um jovem soldado — Imperceptível #4

Exército, Haiti, Rio de Janeiro e Corinthians.

Quando um carro velho percorre, numa manhã ensolarada, uma rua de paralelepípedos no periférico bairro Parque São Vicente, em São Vicente — litoral de São Paulo — soltando aquele estampido típico dos veículos poluentes de uma fumaça fedida, há quem suspeite de barulhos de tiros em meio a tantas notícias de violência como as que povoam os inseguros noticiários de fim de tarde.

Aos 27 anos, Adonis Vinicius de Souza sabe que não. Ele consegue diferenciar com precisão os ruídos de fogos dos de balas cortando o ar, sabe quando é um escapamento que grita ou uma pólvora que flutua até que os gritos venham da constatação de morte ou ferimentos terminais. Um dia após o vazamento das delações premiadas dos irmãos Batista, da JBS, que atingiram o coração do governo, Adonis vestia uma camisa do Manchester 7 Futebol Clube, time de várzea de Cubatão (cidade vizinha), cujo logo é inspirado no Manchester City, da Inglaterra.

Sentado no sofá da pequena casa de sua mãe, à poucos minutos de onde mora com a esposa, ele pedia para não reparar na bagunça, aquela fala típica da hospitalidade que somente o povo humilde em sua essência é capaz de proporcionar aos seus visitantes. Por trás de seus óculos, os olhos brilhavam de forma diferente ao falar, com nostalgia, do tempo que passou no Exército, que o fizeram se deparar com as primeiras viagens de avião, miséria e pobreza no Haiti, violência abismal do Rio de Janeiro, bem como suas experiências marcantes com a morte à sua frente, sem cerimônia, convite ou aviso de que estava por chegar.

Adonis permaneceu por sete meses no Haiti, onde viu a crueza da miséria humana face a face. Foto: Arquivo Pessoal.

Sonho, Haiti, Rio

Foi no fim da década passada que a história de Adonis cruzou com o Exército de fato, ainda que em seus primeiros anos de vida ele já vislumbrasse tudo o que aconteceria tempos depois.

“Meu sonho sempre foi fazer parte do Exército ou da Polícia. No ano em que me alistei, 2008, quase fui dispensado por excesso de contingente, pois no ano seguinte haviam muitos recrutas, mais do que a verba necessária para mantê-los por lá. Então, saí em 2010”.

Quando trabalhava para uma fábrica de cervejas, em 2012, a sorte começou a mudar ao receber uma carta, como que vinda dos sonhos, chamando-o para suprir a ausência de membros 2º Batalhão de Infantaria Leve de sua cidade, que rumariam em 2013 para a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, presente naquele país sofrido desde 2004 e que deve chegar ao fim ainda esse ano.

Mal sabia ele que, ao voltar para o lugar de seus sonhos de infância, um acidente de moto de um companheiro de batalhão lhe tiraria do rol dos suplentes e o colocaria em um avião rumo ao país do Caribe. Depois de um mês de treinamento pesado, Adonis pegou férias e logo em seguida embarcou para sua primeira viagem internacional.

“Lembro como se fosse hoje: 23 de novembro de 2013”, recorda.

Adonis faz questão de pontuar que foram sete meses e dez dias vendo crianças tomando água da vala, devido à inexistência de saneamento básico por lá. Sua voz embarga ao comentar os dias em que viu pessoas de todas as idades esperando chover para encherem garrafas d’água e galões. O ápice da miséria humana era exposto sem filtros de programas de edição de fotografias de forma crua para ele.

Distribuir água era tarefa frequente e o Exército Brasileiro era o único a fazê-la entre os demais, de tantos cantos do mundo.

Sua base em Porto Príncipe era a única destacada das demais lá presentes para colocar fim à violência e instabilidade política do Haiti. As recordações sobre os dias em que ia buscar comidas, patrulhar as ruas e ouvir relatos de trocas de tiros de outras bases são menos dolorosas do que os dias em que chorou copiosa e solitariamente. O aniversário de três anos da irmã mais nova e o vídeo enviado pela família no Dia das Mães, o qual não passou no Brasil devido ao adiamento de seu voo em decorrência do mau tempo, derrubaram quem tenta se mostrar forte, estando fardado ou não.

Duas semanas depois de sua chegada ao Brasil, teve missões mais tranquilas em meio à Copa do Mundo ao escoltar as seleções da Bósnia, Costa Rica e México, que se hospedaram no litoral paulista. Depois de um período curto de férias, o Exército o convocou para ir ao Rio de Janeiro para mais um choque de realidade entre tantos pelos quais passou. Dessa vez, na Linha Vermelha, Complexo do Alemão e a massacrante violência corriqueira, tão banal em seus tiroteios rotineiros.

O período no Exército é a recordação que mais orgulha Adonis. Foto: Arquivo Pessoal.

A morte sempre acelera

Nos sete meses em que passou no Haiti, Adonis viu seu pelotão trocar tiros uma única vez. Nos três meses de sua missão no Rio de Janeiro, eles eram diários. Houve até dias em que, acuado contra um grupo de traficantes, precisou se proteger atrás de uma caçamba.

“No Rio, a missão era mais difícil psicologicamente”, reflete.

Seu primeiro contato com a morte à frente foi ainda no país caribenho, quando viu uma pessoa ser atropelada. No Brasil, a desobediência de um de seus companheiros de pelotão lhe custou a vida na luta incansável e insensata contra o tráfico. E eles ainda tinham que arrastar os corpos abatidos para os devidos procedimentos pós-morte, fosse de algum companheiro seu de Exército ou inimigo do tráfico.

Foi nessa missão, inclusive, que ele teve de lidar com um sonho recorrente durante um mês. Era noite e mais um dos tantos brasileiros que a falência do Estado perde para o tráfico estava na garupa de uma moto, disposto e armado para atirar contra a patrulha do qual ele fazia observação à distância, em uma laje. Os poucos segundos entre ele puxar a arma e o tiro de Adonis que acertou o criminoso, antes que ele matasse um dos seus, povoou a mente do soldado mesmo quando seus olhos se fechavam. As conversas entre os companheiros de trabalho e as idas a sessões coletivas e diárias a um psicólogo, bem como os diálogos com superiores e o dilema de matar ou morrer foram o que trouxeram um pouco de paz para seu espírito, lentamente.

Quando perguntado sobre algum arrependimento nesse período, Adonis pontua os de não ter aproveitado as tantas oportunidades para estudar e ter uma formação profissional, bem como a displicência por não ter feito as provas necessárias para seguir carreira em seu sonho com antecedência. Por dois pontos e pela idade limite, já não pode seguir a carreira que sempre almejou.


Para aqueles que acham que é pouco

Sentado em um sofá de frente para uma televisão sem sinal, Adonis fala do Corinthians como quem conta histórias de sua família, com uma naturalidade de quem vive aquilo até a alma.

Não são à toa sua tatuagem no braço esquerdo com o símbolo do clube ou o “Estopim” em seu sobrenome no perfil de Facebook, remetendo à torcida organizada do qual faz parte há seis anos, depois de novo seguindo a Gaviões da Fiel.

“Tento ir em dois ou três jogos por mês”, comenta, ao citar Rio de Janeiro e Minas Gerais como destinos que já visitou para seguir sua paixão alvinegra.

Frequenta estádios de futebol desde 1997 e é saudosista ao falar dos tempos em que havia pouca elitização para a compra de ingressos, ou como ele diz, “não era modinha ver o Corinthians jogar”. Só parou de ir aos estádios com mais assiduidade depois do nascimento da filha Yasmin, há quase dois anos.

Antes frequentador do Pacaembu, Adonis tem na Arena Corinthians sua segunda casa. Foto: Arquivo Pessoal.

Entre saudosismo com os tempos de Exército, voz embargada ao falar das mortes, experiências traumáticas e paixão ao falar de seu time de coração, ele só tem descrença quando o assunto é política e futuro do Brasil.

“Parece que não tem jeito, quando estava lá dentro (no Exército) sempre diziam na época dos protestos contra a Dilma que tudo era uma bola de neve sem fim. Acho que as coisas ainda vão continuar feias”, respondeu sobre como via o momento do país.

E se os tiros foram frequentes na sua trajetória pessoal, a violência urbana e o tráfico de drogas são assuntos que lhe deixam confuso e ainda mais desesperançado.

“É complicado a gente saber quem é quem”, comentou após atender um vendedor de produtos para a cozinha, desses que batem à porta de casa. “Sei que algumas ações foram tudo para mostrar para os países de fora e ficar bonito para a televisão. A gente sabe que se as drogas, por exemplo, fossem descriminalizadas, não haveria essa força do tráfico. As trocas de tiros são meio inúteis, no fim das contas”.

Ele, que sempre é acusado pelos amigos através do WhatsApp de ser violento em suas respostas mal criadas às zoeiras típicas, nega a brincadeira. “Não sou violento, apenas um pouco bruto uma vez ou outra”.

Antes de fechar o portão, comentou que ainda faria uma entrevista de emprego naquela semana e agradeceu o desejo de boa sorte. E observou, à alguns metros, o carro velho passando pela rua, soltando fumaça e um barulho menos ensurdecedor do que os dos tiros no Haiti ou no Rio.

Apenas Yasmin fez Adonis diminuir sua frequência em jogos do Corinthians. Foto: Arquivo Pessoal.

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