“Mensageira da sorte” e o equilíbrio no caos | #LeiaComASubjetiva

Foto: Carol Vidal

Quando o caos impera e tudo que se vê em volta é confusão e injustiça, torna-se difícil acreditar que seja possível fazer algo para mudar a situação. Pequenos gestos parecem insignificantes se o mundo como conhecemos pode implodir a qualquer momento. É em um cenário caótico e com esse tipo de questionamento que conhecemos Sam, protagonista e narradora de “Mensageira da Sorte”, romance de estreia de Fernanda Nia, lançado pela Editora Plataforma 21.

Para a ambientação, a autora imagina a cidade do Rio de Janeiro comandada por uma grande corporação, a AlCorp, e, no momento em que a história se passa, uma série de protestos estão acontecendo pela cidade, mostrando a insatisfação da população pela atual conjuntura em que vive.

O livro é muito ágil e logo no início, a protagonista acaba no meio de um protesto quando tentava chegar em casa e, por acidente, descobre um novo mundo: o Departamento de Correção de Sorte, uma organização extranatural secreta incumbida de nivelar o azar na vida das pessoas. Sem querer, Sam se torna uma mensageira temporária, e toda a história vai se desenrolar enquanto a menina tenta cumprir sua função e entender no que se meteu.

Durante toda a leitura, temos a sensação de sermos tragados para a confusão, mesmo que ela seja apenas iminente. O clima de tensão está ali e é um bom pano de fundo para o desenrolar da trama, que bebe dos acontecimentos reais. Outro mérito da obra é a boa construção de Sam, o que faz com que logo nos importemos com o que acontecerá com ela.

E é nesse contexto que Sam começa a se questionar sobre seu novo trabalho: que sentido faz entregar essas mensagens se a cidade está ruindo? Por que essas pessoas são privilegiadas e são avisadas do que pode ajudá-las a sair da situação que se encontram? Em meio a tudo isso, ainda precisa lidar com a escola, os sentimentos que nutre pelo vizinho youtuber e a culpa que sente pela morte do pai.

A personagem parece sobrecarregada, mas logo percebe onde reside a magia da vida: se tudo está perdido, são esses pequenos gestos que, juntos, proporcionam uma mudança maior. Muitas vezes, temos a vontade de abraçar o mundo, resolver grandes questões, sem olhar para o que está à nossa volta precisando ser modificado. São as chamadas microrrevoluções que estão ao nosso alcance e, por menores que pareçam, são a semente necessária para romper antigos padrões e, aí sim, provocar uma mudança maior.

Apesar do clima tenso, um fator que chama a atenção na leitura é o uso do humor durante a narrativa. Na maior parte das vezes, a estratégia funciona, mas chega uma hora que a autora perde o timing e acaba exagerando e prejudicando o ritmo da cena. Queremos saber o que vai acontecer em seguida, mas a personagem está fazendo piadas e divagando. Há também soluções convenientes para resolver conflitos, especialmente na parte final do livro, o que acaba enfraquecendo as ótimas sequências até ali.

“Mensageira da Sorte” é um livro sobre busca de sentido quando o mundo que conhecemos parece ruir. É sobre entender a importância de cada pequeno gesto para modificar a realidade. Mas, principalmente, é um livro sobre união e importância do equilíbrio em meio ao caos. Uma importante leitura para os dias atuais.