Meu Corpo é Político

Documentário foca no cotidiano de seus personagens e sua temática quase se transforma em pano de fundo

Segundo Kathryn Woodward, no livro Identidade e diferença: A perspectiva dos Estudos Culturais,

“As identidades adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas. (…) Existe uma associação entre a identidade da pessoa e as coisas que uma pessoa usa. (…) Quaisquer que sejam os conjuntos de significados construídos pelos discursos, eles só podem ser eficazes se eles nos recrutam como sujeitos. Os sujeitos são, assim, sujeitados ao discurso e devem, eles próprios, assumi-lo como indivíduos que, dessa forma, se posicionam a si próprios. As posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossas identidades.”

Assumir algo não é fácil. Em qualquer âmbito. Mas, talvez, assumir uma identidade seja uma das tarefas mais difíceis, pois, ao fazer isso, você está se posicionando a favor de si mesmo: ao mesmo tempo em que pode ser libertador, é uma brecha na sua defesa que permite que pessoas que não têm nada a ver com a sua vida passem a achar que, na verdade, elas têm sim e você está em desacordo com o que elas acreditam. Isso é histórico. É nessas horas que você aprende a se defender ou sucumbe à pressão dos demais.

Linn da Quebrada em cena de “Meu Corpo é Político” (Foto: Studio Riff/Divulgação)
“Nas ruas, pelas calçadas, é onde faz o seu salário. Aluga o corpo a pobre, rico, endividado, milionário. Não tem Deus, nem pátria amada. Nem marido, nem patrão. O medo aqui não faz parte do seu vil vocabulário.”

É o que canta Linn da Quebrada em “Mulher”, música que fala sobre as travestis que se prostituem. Há anos as travestis se dividem entre a arte e as ruas: elas nascem nos carnavais e bailes temáticos, como homens travestidos de mulheres, e passam a habitar a sociedade fora dessa realidade também. A arte é uma forma de libertação mascarada, uma fuga. Quando essa fuga passa a não ser o suficiente e a necessidade de assumir sua real identidade se torna maior, a travesti passa a não ter valor social. É marginalizada. É considerada uma forma de subversão e é reprimida. É proibida de existir. Então passa a viver das ruas.

De anos para cá, houve uma evolução, não dá para negar. As coisas não são tão assim, mas também não são muito melhores. O entendimento sobre travestis e mulheres e homens transgêneros/transexuais já é um pouco mais evoluído e — enquanto essas pessoas começam a ocupar seus espaços de direito, como membros da sociedade e seres humanos, dia após dia — o seu discurso é cada vez mais disseminado, a sua luta é conhecida e elas não aceitam continuarem às margens da sociedade. Não é justo e não é certo. E é nesse contexto que Meu Corpo é Político (2017, Brasil, 72 min) se encaixa.

Cena de “Meu Corpo é Político”, com Linn da Quebrada (Foto: Studio Riff/Divulgação)

A proposta do documentário dirigido por Alice Riff, que estreou na última semana nos cinemas, é a de mostrar o cotidiano de quatro pessoas trans periféricas: a já citada Linn da Quebrada, “terrorista de gênero”, cantorx, “atroz”; Giu Nonato, “travesti futurista”, bissexual, escritora; Paula Beatriz, mulher trans, professora e diretora da rede de ensino estadual; e Fernando Ribeiro, homem trans, estudante e operador de telemarketing. O filme acompanha um determinado período de tempo da vida dessas pessoas e procura tocar em pontos enfrentados por pessoas trans: reconhecimento por parte das pessoas e das entidades públicas, privadas e governamentais; a assistência a pessoas trans; os direitos dessas pessoas; o posicionamento resistente que têm frente a uma sociedade ainda muito transfóbica; as diferenças entre gênero e sexualidade etc. No entanto, o formato trabalhado dispensa entrevistas comuns a documentários e deixa o espectador refém de seus próprios conhecimentos sobre trangênerxs.

Meu Corpo é Político cumpre com o que se propõe ao acompanhar a vida dessas pessoas. Infelizmente, o documentário decepciona em todo o resto. Os assuntos são tocados brevemente e não de uma forma explícita, aprofundada, da forma que tais assuntos merecem. Tudo fica muito subjetivo, muito raso. Acaba se tornando um filme para quem tem um contexto e se estamos falando de voz, de reconhecimento, de empoderamento, quanto mais pessoas forem atingidas, forem inseridas nesse meio e se tornarem a par de assuntos tão importantes, melhor.

Há quatro momentos-chaves que realmente abordam a questão dx transgênerx na sociedade: quando Fernando desabafa sobre o processo de alteração de seu nome, falando sobre a importância que isso tem para a sua identidade e como o nome em seus documentos, de antes da transição, não o representa, além das dificuldades que enfrenta, pois a sociedade não o entende como homem trans. Mais à frente, Linn da Quebrada fala sobre a aceitação da sua identidade pela sua família e conta como foi expulsa da igreja por “se montar”, além de trazer a representatividade trans para a sua arte que, à época de gravação do documentário, ainda estava sendo moldada por ela. Giu Nonato, em sua cama, lê uma carta que escreve a si mesma sobre a sua identificação como mulher trans e a dominação sobre seu próprio corpo; e — talvez o momento mais “educativo” do filme — Paula Beatriz fala, durante um debate, sobre o papel das travestis na sociedade, a importância delas na militância LGBTQ e, pessoalmente, como as pessoas a veem, a confusão que sua identidade gera nas pessoas, sendo uma mulher trans, heterossexual, que, além disso, mantém o seu pênis.

No entanto, esses momentos são pouco explorados e deixam a sensação de que algo está faltando. O documentário todo passa essa sensação: é como a preparação para algo maior que nunca vem.

Fernando Ribeiro e Giu Nonato em cena de “Meu Corpo é Político” (Foto: Studio Riff/Divulgação)

Em entrevista ao site Mulher no Cinema, a diretora disse que a sua intenção era a de fazer um filme com “pessoas vivas, que têm planos, estão trabalhando e têm outras trajetórias, porque elas também existem”, deixando de lado questões como violência e morte, comumente abordadas quando falamos de transgênerxs, propondo “que o espectador passe um tempo na vida de cada uma daquelas pessoas”, trazendo uma visão mais inclusiva. Só que, ao fazer isso, o filme desconversa consigo mesmo e joga pouca luz sobre os enfrentamentos pelos quais essas pessoas passam, apenas mencionando aqui e ali. “Com entrevistas e depoimentos a narrativa seria distante, e a ideia era proporcionar a experiência de passar um tempo juntos, ir ao bar juntos, dançar juntos, dar risada”, mas, em dado momento do filme, ao iniciar o debate com a presença de Paula Beatriz, o mediador fala sobre a “invisibilidade do T”, em referência à sigla LGBTQ. O filme em si, no entanto, não serve para combater essa invisibilidade.

Paula Beatriz em cena de “Meu Corpo é Político” (Foto: Studio Riff/Divulgação)

Seria extremamente gratificante que a visão de Riff fosse uma realidade, que a inclusão das pessoas trans fosse algo natural, que pudéssemos ver Paula Beatriz “sentando na mesa da diretora, trabalhando” e isso fosse apenas isso. Mas é necessária muita educação até chegarmos a esse ponto. É preciso conhecer toda a história de Paula até chegar ao ponto de ser a primeira diretora trans da rede estadual de ensino. Como não foi assim, a impressão que fica é de que o documentário tinha quatro personagens fortes para falar sobre o assunto — quatro ativistas da causa — e os desperdiçou. Não trabalhar essas histórias é subestimar a importância que elas têm. Entrar no cinema para conhecer essas pessoas e sair com apenas uma pálida ideia de quem elas são gera uma frustração indescritível.

Está logrado a cada um colocar a sua visão no seu próprio trabalho, isso é indiscutível, mas é de se pensar se o modelo convencional de documentário, com as entrevistas, não faria um bem melhor à temática. É preciso educação, é preciso criar o contexto, criar um ambiente onde pessoas trans não são vistas de forma diferente das demais dentro da sociedade. Sem isso, a visão de Riff é utópica. É o que queremos, mas não é o que temos. E esse cenário, infelizmente, ainda está longe de ser verdadeiro.

Trailer de “Meu Corpo é Político”


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