“Midsommar” é um deleite em termos técnicos, mas peca em nos manter conectados ao seu argumento original

Depois de brilhar em “Hereditário” (seu longa de estreia, vale apontar) não demorou muito para que Ari Aster se sentisse estimulado a desenvolver um novo projeto. Curiosamente (ou não) o luto também faz parte do conceito de “Midsommar”, mas se no primeiro filme do diretor e roteirista o seu foco era na capacidade desse sentimento de destruir famílias aqui é no seu potencial em exterminar a sensação de pertencimento de um ser humano.

Dani (interpretada com visceralidade impressionante por Florence Pugh) perde os pais e a irmã de uma só vez em um incidente desesperador, e cabe ao seu namorado Christian a missão ajudá-la a lidar com a solidão até então desconhecida. O problema é que a união dos dois já está em frangalhos, se sustentando somente pela culpa de um e pela dependência do outro.

Em uma tentativa desesperada de superar o luto e se reconectar ao companheiro a jovem decide se convidar para acompanha-lo (junto aos seus amigos, que não a apreciam nem um pouco) em uma viagem para uma vila sueca, onde um deles cresceu e na qual se passa um curioso festival de verão, que tem como objetivo principal celebrar a chegada da estação.

É interessante dizer que esse primeiro ato do longa funciona primorosamente bem, e nós somos impelidos a nos identificar plenamente com a protagonista em meio às suas perdas pessoais, ao declínio do seu namoro e a busca por resolução a partir de uma experiência de vida completamente inusitada.

A câmera de Aster não nos deixa esquecer em nenhum momento da vulnerabilidade absoluta de Dani naquele cenário, observando-a quase sempre de cima, de costas ou de lado, retirando-lhe completamente o direito de defesa ao nosso olhar. Os takes mais próximos acabam, por outro lado, sendo extremamente sufocantes, desmascarando o seu leve sorriso de alento e escancarando a sua dor, não lhe dando sequer a oportunidade de fingir.

Enquanto o foco da obra é nessa análise da protagonista em uma série de quadros adversos tudo caminha muito bem, mas a chegada ao pequeno vilarejo sueco obriga o longa a se perder do que pareciam ser os seus propósitos originais, tentando abraçar vários novos. O que soava consistente até então começa a apresentar lacunas óbvias, não havendo fôlego para abordar de forma equilibrada tantos subtextos completamente distintos.

Somos apresentados a uma sociedade focada na coletividade em seu sentido mais puro, que existe mais como um organismo único do que como um grupo de indivíduos. As peles brancas, os cabelos extremamente loiros, as flores coloridas, as vestes limpas e seus rituais extremistas nos geram estranheza e incômodo devido ao esperado choque cultural, e quando vemos a nossa protagonista abraçar quase que naturalmente todos esses processos perdemos de vez nossa referência e identificação na trama.

Infelizmente não existem outros personagens muito mais complexos nos quais possamos nos ancorar, e mesmo que eles fossem multifacetados ainda não nos engajariam, já que até os coadjuvantes parecem aceitar as condições e regras daquele ambiente passivamente, sem pestanejar ou tentar se rebelar, e esse clima de muito mais contemplação e muito menos ação não combina com o pavor crescente que eles tentam mostrar (e nos fazer) sentir.

A consequência óbvia é que nós sem grande demora abandonamos o barco, nos tornando apenas espectadores de toda aquela série de eventos raros e ao mesmo tempo catastróficos, mas sem que sejamos impactados por grandes efeitos ou emoções, uma vez que não nos percebemos minimamente envolvidos após o início do segundo ato e até o encerramento do filme.

Ainda que haja um esforço visual e sonoro para causar repulsa e pavor em várias medidas a verdade é que “Midsommar” deixa a desejar no seu argumento base, cortando a ligação chave que mantínhamos com uma protagonista e uma história cheias de possibilidades. Toda a loucura e histeria apresentadas depois desse rompimento já não nos assustam ou afetam, então a sensação de apatia que parece afetar todos os turistas também acaba nos atingindo na cadeira do cinema. Uma pena!

Nota: 6,0

Revista Subjetiva

Andressa Faria de Almeida

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