Midsommar: a beleza e a sordidez

Carlos Massari
Oct 8, 2019 · 5 min read

(Esse texto contém spoilers)

O cinema é uma arte multifacetada.

Você pode gostar de um filme por causa do roteiro: uma história com estrutura sólida, capricho na construção e desenvolvimento de personagens, criatividade ou desconstrução de normas. Você pode gostar de um filme por causa da direção: planos bem construídos, ritmo, mise-en-scène. Você pode gostar de um filme pela estética, pela mensagem, pela ideologia, pela urgência temática.

Midsommar: o mal não espera a noite é um filme querido e odiado. Uma rápida olhada no Letterboxd nos dá um panorama próximo do que foi a sua recepção, com uma chuva de notas quatro ou cinco estrelas, mas um igual número de avaliações bastante negativas.

O lado positivo se dá pelo entusiasmo visual e, talvez, temático. Sem dúvidas, a obra de Ari Aster é em essência um filme, pelo estereótipo auto-construído com tom irônico na internet, de humanas. Celebração do solstício de verão, cogumelos alucinógenos, flores no cabelo, orgias… e estética.

Ari Aster já havia demonstrado em seu filme anterior, Hereditário, que eu gosto menos do que boa parte da crítica, um entusiasmo por cultos satânicos, por uma estética bem construída e por um olhar diferenciado para o terror. Aqui, ele leva tudo isso a um novo nível.

Midsommar é um filme bonito visualmente. E não é pouco bonito, não. Estamos falando talvez de uma das melhores construções estéticas do cinema recente, independente do gênero. Existe um número razoável de planos que, se você é fã de um aspecto visual clássico na sétima arte, são de cair o queixo.

Existe um ótimo trabalho com espelhos. Existe criatividade ao trabalhar com plano e contra-plano em diálogos. E existe simetria. Muita, muita simetria. As imagens, principalmente na fase sueca do filme, são quase sempre simétricas. E isso não é por acaso: dialoga diretamente com a cultura local, com o formato das runas, com as tradições da pequena comunidade.

A simetria de Midsommar e a simetria cultural da comunidade que retrata

E mais do que isso, Midsommar é um filme muito bem dirigido. Uma das questões que eu mais insisto é sobre como o cinema parece ter esquecido o que seu próprio nome significa, imagem e som em movimento. Eque quando narrativo, deve contar uma história fazendo uso justamente de imagem e som. Diálogo é acessório. Quando um filme de terror tem a coragem de não ter falas em seus quinze minutos finais, merece aplausos.

Muito já foi falado sobre a subversão do terror escuro. O filme de Ari Aster se passa todo durante o sol da meia-noite na Suécia, e daí vem até seu subtítulo em português. Não é uma construção de medo ou suspense a partir de sombras ou sustos. Não existem jump scares. Ainda assim, o clima se escalona até atingir um ápice frenético na parte final que, apesar de não ser amedrontador, é impressionante por sua violência ritualística.

Na sua casca, Midsommar é excelente. Eu gostaria de ver mais filmes de terror tão preocupados com construir sua trama e sua mitologia a partir de imagens. Sem fazer uso de recursos fáceis, sem ninguém pesquisar no Google o que está acontecendo. A estética funciona, a narrativa também.

Mas o grande problema de Midsommar é o que existe dentro da casca.

Um dos artigos mais famosos da história da crítica de cinema foi publicado na edição de junho de 1961 da revista Cahiers du Cinéma. Seu autor era Jacques Rivette e, seu título, Da abjeção.

Na teoria da abjeção, Rivette falava sobre um filme, Kapò, de Gillo Pontecorvo. O cineasta italiano emprega nele um travelling, um movimento de câmera com função estética, para mostrar a morte de uma mulher em um campo de concentração.

A cena de Kapò que inspirou a “teoria da abjeção”

De acordo com Rivette, o uso de um recurso estético para representar uma cena tão pesada era abjeto, imoral dentro da arte cinematográfica. Podemos traduzir o problema visto pelo crítico e cineasta francês como um embelezamento vil, uma tentativa de dar um verniz a um momento que jamais deveria ser visto dessa forma.

Você pode pensar que Rivette exagerou em Da abjeção. Você pode concordar com ele. Essa é uma velha discussão repleta de questões morais e históricas. Mas o fato é que, dentro de um panorama mais amplo, saindo desse travelling específico nesse filme específico, ele tem um ponto muito válido: qual o sentido de virtuosismo estético em situações de degradação humana?

Voltemos, então, a Midsommar. Todos os seus personagens (tirando, talvez, o vivido por William Jackson Parker, o Chidi de The Good Place) são terríveis. Não há vontade de torcer por nenhum deles. O sofrimento pelo qual eles passam não se transmite ao público. E isso é proposital. Ari Aster não quer que nós, enquanto público, nos incomodemos com o sadismo de sua obra.

É possível argumentar que o filme é sobre luto, mas essa é uma questão pincelada em alguns momentos, mas esquecida e enterrada na maior parte das quase três horas de projeção. E é possível argumentar que o mote é o término do casal protagonista, da personagem vivida por Florence Pugh enterrando seu relacionamento com um homem de péssimo caráter, mas isso deporia ainda mais contra o roteiro (apesar de ter várias atitudes terríveis durante os acontecimentos retratados e ter merecido um pé na bunda muito antes, o homem tem seu destino selado pela garota após ela presenciar uma orgia que, na verdade, é um estupro, com ele estando drogado e enfeitiçado).

O que sobra, então, é o sadismo. Ari Aster sabe que seus personagens são péssimos. Ele os constrói dessa forma para serem torturados e punidos. Não existe mensagem. Não existe reflexão. Existe um artifício do roteiro que tem a intenção de mover a crueldade e a violência — retratadas com puro virtuosismo estético.

Se Rivette pode ter exagerado ao citar um travelling dentro de um filme no qual a estética enverniza uma situação de degradação humana, o que dizer de um filme que é inteiramente movido por essa construção? Possivelmente, aqui não temos mais um exagero.

E por isso, podemos dizer que Midsommar é um filme abjeto. Não há como não se incomodar com uma estética tão brilhante que, no fundo, está a favor de puro sadismo.

É uma discussão muito complexa pensar se a arte pode ou não empregar virtuosismo estético em situações de violência gratuita. E isso não se resume ao cinema de terror, nem resume o cinema de terror, gênero do qual eu sou muito entusiasta e que em inúmeros de seus exemplares não é feito de puro choque sem propósito.

Mas com Midsommar, Ari Aster fez ao mesmo tempo um dos melhores e um dos piores filmes do cinema recente.

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Carlos Massari

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Jornalista, roteirista, escritor. Falo aqui sobre cinema e os esportes que não falo em outros lugares.

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