Minha avó e outras mães

Maman, Louise Bourgeois, 1999.

Sempre que apareço nos jantares, almoços e celebrações familiares, cada vez mais enxergam a minha avó em mim. Minha avó era uma mulher pobre, da roça, que viveu um casamento abusivo em que seus filhos passaram fome mesmo com a despensa cheia de comida porque seu marido priorizava mais o lucro do que a saciedade de sua prole. Minha vó sofreu abortos espontâneos por trabalhar demais carregando peso — acredito que nada disso transpareça na minha pele delicada e branca, nas minhas roupas limpas, no meu inglês e meu diploma. Mas tudo isso está ali. Eu fui criada para sair dessa realidade, mesmo que eu não a conheça diretamente.

Dona Larissa escrevia. Como queria ler seus cadernos mais confessos, aqueles que não tinham o tom religioso das cartas que entregava a cada filho ou filha que se casava, recheada de desejos de bençãos e boa sorte à nova vida que se iniciava. Minha avó falava diante de um microfone na câmara dos vereadores, uma cortesia da minha mãe, que era secretária. Ela gostava, e temos muitas fotos do seu rosto enrugado, manchado e muito satisfeito nesses momentos. Não a julgo nem um pouco, porque conheço bem o prazer de segurar um microfone, sua voz mais alta que os outros, uma autoridade.

Creio que minha avó teria sido escritora hoje em dia. Dona Larissa morreu antes dos 90 anos em decorrência de um tumor no cerebelo, justo o órgão que mais lhe era útil tanto para a escrita (quando ela errava, transformava a letra deformada numa florzinha trêmula) quanto para a costura, outro interesse forte. Quantas mantas ela fez, quantas roupinhas para uma neta que nascera prematura, quantos casacos, cachecóis, sapatos e mantas de fuxicos coloridos. Tanto tempo preenchido com agulhas.

No Natal de 2016, usei um vestido que comprei por R$20 de uma amiga, de um tecido esvoaçante, preto, estampado de flores sóbrias. Minha tia que cuidou da minha avó até ela passar a chamar-lhe de “mamãe” se emocionou, assim como hoje, no Dia das Mães, em que mais uma vez minha escolha de vestimenta lembrou Dona Larissa. Aparentemente ela amava os florais escuros tanto quanto eu, e não é a primeira vez que nos comparam.

Penso na minha mãe e sua raiva de mim. Como deve ser difícil enxergar a própria mãe na filha, um misto de saudade, raiva, carinho e ressentimento. Todas as coisas que não puderam ser ditas à uma mulher evangélica, conservadora, rígida e ainda assim subversiva. Quantas mulheres você conhece que ousaram nos anos 70 ou 80 abandonar o marido, separar-se, escrever mesmo que em cadernos íntimos? Eu devo ser uma espécie de furacão na vida da minha mãe, vestida com os mesmos tecidos que Larissa escolheria, com a mesma força, rebeldia e grosseria, mas falando em feminismo, marcando minha pele com tatuagens, lidando com o ocultismo com o mesmo respeito que ela recusava um anjo de porcelana por ofender sua religião. Como sinto falta de Dona Larissa e sua falta de paciência em me ensinar o tricô, os meus pontos abertos diante dos seus olhos cansados.

Acho que nunca passarei pela família sem dor e sem culpa. Visitar esse lugar sempre será doloroso. Não me identifico com as fotos bonitas e declarações que postam no Facebook e, por mais que eu saiba que minha mãe esperasse um texto tão oco quanto os que os amigos estão postando, eu prefiro permanecer em silêncio. À ela, reservo somente o verdadeiro, porque acredito que depois do drama do meu nascimento e crescimento e tantas, mas tantas lágrimas e gritos ela merece a verdade. Eu a amo, mas não de um jeito que uma foto sorridente e uma frase entre aspas pode expressar. Eu a amo porque somos uma só. Eu a amo porque somos Dona Larissa. Dona Larissa nos amou pra caralho porque éramos dela. Não existe contar isso com palavras bonitas. Minha mãe, no fundo, sabe disso, quando se deita depois de algumas cervejas e um churrasco.

Ela sabe que no fundo, em três gerações, nenhuma de nós foi suficiente, e acredito que, talvez, lá no fundinho, ela saiba que essa rebeldia de sair da linha, de gritar, de acender um cigarro, de abandonar o embuste do marido, tudo isso tenha sido passado com os gritos de partos complicados e sapatinhos de tricô. Dona Larissa nos ensinou muito. Feliz Dia das Mães, mãe. Obrigada, desculpe e bem-feito. Você não é frágil e por isso não sou dócil. Eu te amo.



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