(Crédito: Agência Brasil)

Ministra Damares, vamos falar de abstinência?

Edson Amaro De Souza
Jan 24 · 5 min read

Ministra,

usei o Google antes de escrever este texto, porque gostaria de saber o que realmente a senhora andou dizendo, porque não quero atribuir à sua pessoa palavras que de sua boca não saíram — como é praxe muita gente fazer contra nós, esquerdistas. Há um texto da VEJA, datado de 23 de janeiro, que atribui à senhora a seguinte declaração: “Pais e responsáveis por cuidar de adolescentes, digam-me qual é o mal de conversar com um menino ou uma menina, a partir dos 12 anos, e dizer que talvez ainda não esteja maduro o suficiente para começar a ter relações sexuais? Que grande risco isso pode trazer?”

Após ler o texto da VEJA, consultei sua biografia na Wikipédia para saber de sua formação e sua experiência profissional (mestrado “bíblico” não conta). A senhora graduou-se em Direito pela falecida FADISC (Faculdades Integradas de São Carlos) e foi secretária de Turismo na mesma cidade de São Carlos, na gestão do prefeito Vadinho de Guzzi. Então nós temos histórias de vida bem diferentes.

Sou professor de escola pública. Tenho 43 anos e não tenho filhos, o que causa estranheza à clientela da escola. Uma colega da mesma escola, na casa dos seus 30 anos, escutou de uma adolescente a pergunta que ela, mulher de classe média, achou absurda: “Professora, a senhora tem netos?” — E eu desconfio que a professora que ouviu isso além de solteira era virgem, dada a maneira como ela pratica sua fé — há anos não a vejo, talvez esteja casada hoje. No universo da adolescente que fez essa pergunta, tão natural quanto os flamboyantes florescerem em dezembro é uma mulher de 30 ter netos, pois naquela comunidade carente as mulheres são mães aos 15 e avós aos 30.

Para que a senhora tenha uma ideia do que é a carência da juventude do bairro Jardim Catarina (chegue em São Gonçalo, RJ, e pergunte pelo Jardim Catarina), uma vez passei o carnaval em Rio das Ostras e fui para a sala de aula com uma camisa que mostrava a Praça da Baleia e o nome dessa cidade. Reagiram como se eu tivesse passado o meu carnaval em Paris ou Londres, pois uma viagem dessas está fora do alcance deles. Quando eu disse que não tenho religião, me perguntaram: “O que você faz no domingo?” Essa pergunta revela que ir à igreja para eles não é uma escolha mas a única coisa possível a fazer no domingo, enquanto eu posso ir ao cinema, ao teatro, à praia, ao motel, beber com os amigos ou ficar em casa lendo um livro.

Diante dessa carência, o que mais pode uma menina de 15 anos fazer além de ficar grávida? Se ela não for funkeira, for de igreja, vai terminar o Ensino Médio e casar com alguém da igreja, arranjar um subemprego, tipo fazer faxina ou vender doces na rua, ou, se der sorte, será caixa num supermercado, e fará filhos. Por mais que a esquerda comemore que a política de cotas aumentou significativamente a entrada de jovens negros e periféricos, oriundos de escola pública, nas universidades, fazer uma faculdade ainda é, para muitos adolescentes pobres, um sonho tão distante quanto pisar no solo lunar, ser canonizado pelo papa ou condecorado pela Rainha da Inglaterra.

Se a senhora consultar a coleção de O GLOBO de 1996, encontrará um artigo do falecido (e, a meu ver, nada saudoso) cardeal D. Eugênio Salles chamado “O avanço da pornografia” em que o dito cardeal chama de pornógrafos professores que ensinaram adolescentes a usarem preservativos. E 24 anos depois, continuamos a discutir a gravidez na adolescência. A ignorância quanto a métodos anticoncepcionais não impede que alguém faça sexo.

Aliás, a ignorância sobre temas relativos ao sexo é assustadora. Em 2017, eu dava aulas à noite para uma turma de adultos, em Itaboraí, e levei um texto para falar de prevenção, pois se aproximava dezembro, mês do combate à AIDS. Eis que um rapaz, casado, me perguntou: — Professor, eu quero ter um filho. Eu uso camisinha como o governo manda e ela não fica grávida. — Eis então um homem maior de idade, casado, que faz sexo regularmente e não sabia que a camisinha existe não apenas para prevenir a AIDS mas para evitar uma gravidez; ele não sabia que é justamente o esperma, aquele líquido que o seu pênis expele e a camisinha retém, que pode causar a gravidez na mulher! De outra feita, ano passado mesmo, 2019, eu estava comentando a obra “Depois Daquela Viagem”, de Valéria Piassa Polizzi, livro em que a autora conta como era viver com o HIV na era FHC, e um adolescente me disse que caldo de cana cura AIDS! Veja o perigo da desinformação, ministra! No conselho de classe, a diretora contou que uma aluna da nossa escola ficou grávida porque não levava a cartela de pílulas anticoncepcionais para casa, pois tinha medo que o pai as descobrisse. Então o namorado, solidário, fazia o favor de tomar as pílulas no lugar dela. Ninguém disse ao casal que as pílulas anticoncepcionais foram feitas para agir no organismo da mulher e não no corpo do homem.

Mas eu bem sei que de pouco adiantará alguém levar para a sala de aula um pênis de plástico e ensinar como se coloca um preservativo; de pouco servirá explicar detalhadamente como funcionam as pílulas anticoncepcionais. O que realmente faz a diferença é dar às meninas a possibilidade de planejarem seu futuro, dar a elas a esperança de se tornarem atrizes, arquitetas, veterinárias, juízas, arqueólogas, presidentas. A menina que tem um projeto de vida, que sonha em ser independente e se realizar profissionalmente, ou não abrirá as pernas para o namorado ou fará uso de métodos anticoncepcionais.

Então, ministra, a melhor maneira de evitar a gravidez na adolescência é investir em Educação pública. Infelizmente, todos aqueles que participaram do golpe de 2016 votaram a favor da PEC do Teto de Gastos, que congela até 2036 os gastos com as áreas sociais, incluindo a Educação — ou seja, por mais que cresça a população, o volume de recursos para a Educação, que jã são poucos, continuará o mesmo. E o sr. Jair (Falso) Messias Bolsonaro participou desse crime contra o desenvolvimento do país. Bolsonaro mostrou, então, que o seu patriotismo é apenas uma fantasia para dias festivos.

Mas já que falamos de livros, ministra, a senhora certamente já deve ter lido alguma obra de José de Alencar, nos seus tempos de estudante. Ele é autor de clássicos como “O Guarani”, “Iracema” e “Senhora”. Sabe de quem ele era filho? De um padre. E o jornalista José do Patrocínio, um dos grandes nomes da campanha abolicionista? Filho de padre também. Tendo isso em mentes, responda sinceramente: se há mil anos a Igreja Católica não consegue impedir que os padres façam sexo, eles, que fizeram voto de celibato, dá para acreditar que a senhora impedirá os adolescentes de transarem?

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Edson Amaro De Souza

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