Mundo das palavras

E a máquina de escrever por amor em todas as fontes

Reprodução: Tumblr

Ano passado, eu entrei na onda dos documentários e que onda fantástica, diga-se de passagem. Começando pelos docs de artistas, resolvi assistir o da Amy Winehouse. Confesso que pulei as críticas (o documentário levou o prêmio do Oscar em 2016) e como não vim aqui hoje gerar polemicão, e sim falar sobre escrita, fica aqui a parte que mais me aqueceu o coração na história toda:

“I write songs because I’m fucked up in the head, and need to get something good out something bad. I thought — I’m going to die if I don’t write down the way I feel. I’m going to do myself in — It’s nothing spetacular.”

Na tradução simultânea, ela diz que escreve porque é fodida da cabeça. Eu também sou Amy e essa frase valeu como um abraço amigo. E disse muito sobre você e sobre mim. Foi mais ou menos nessa mesma época que eu comecei a escrever aqui, no Medium, e dessa vez, pra valer. Assim como a Amy, eu vivia um dos momentos mais tortuosos da minha vida. Doente da cabeça, sem muita força pra remar essa canoa, quase como uma epifania essa ideia se transformou em impulso e eu resolvi tirar água de pedra também.

Quando eu era mais nova, cada paixão equivalia a pelo menos umas três cartas de amor. “Meus sentimentos”, eu intitulava. Nem sempre entregues, muitas vezes anônimas e todas com a mesma coisa em comum: crushes platônicos que eu meio que tenho até hoje. Dia desses, uma amiga minha me consolando, depois de um fora não muito diferente dos antigos (olha a força de uma geração) me disse que eu vivo dessas paixões porque minha inspiração pra escrever se alimenta delas. Eu concordo. Mas não é só isso.

Nessas caraminholas residem as mais diversas emoções e sensações, coisas que eu nem sempre consigo externalizar falando, mas descobri que posso, escrevendo. O truque? Nunca existiu. As palavras simplesmente vinham na minha cabeça e eu sem saber muito bem o que fazer com elas, transportava pro papel. Os armários eram abarrotados de pensamentos que não queriam mofar e precisavam da luz do dia pra continuar vivendo. Eu sabia que precisava enfrentar o que ainda não tinha nome. E como sou curiosa desde que nasci e desde que nasci sou contestadora também, fui fundo nessa direção. Nada desce fácil aqui, mas tudo é sempre muito observado por esses olhos que a terra não há de comer. Quero ser cremada, estejam avisados.

E foi nesse mundo das palavras que eu encontrei comigo. Encontrei essa menina das cartas anônimas da sétima série, encontrei a garota apaixonada que escrevia porque não aguentava mais guardar pra si mesma tanto sentimento e encontrei a minha parte que deixou de lado o sonho de ser atriz e achava que nunca mais faria nada que trouxesse mais vida a essa vida. Mas achei e é nesse monte de palavras que existe meu abrigo multicolorido. Eu desabrochei aqui e continuo desabrochando todos os dias.

O que é a vida se não uma boa história pra contar? Ou, uma infinita porção delas. Escrever me trouxe amigos, gente que divide o barco nas situações mais particulares (trocamos a canoa por um barco a vela agora), gente que aprende comigo e me ensina também. Porque o que sai daqui vem de dentro pra fora. Sem preconceitos. São nossas ideias, nossos sonhos, nossos sentimentos e como enxergamos esse mundão todo. É a voz de quem não era ouvido. É a voz de quem era massacrado. E é a voz de quem não sabia falar nem pra si. Não era essa a troca genuína que a galera tinha como objetivo?

Não vim aqui pincelar um caminho florido cheio das coisinhas bonitinhas onde todo mundo é alegre e sorridente. Porque essa não é a realidade e porque definitivamente não seria eu. Mas, esse cambio gratuito me ensinou mais sobre respeito e sensações que eu pouco conhecia. Escrever desbrava terras nunca antes pisadas. Trocar no meio é o roteiro dessa aventura.

“O que você fala passa, mas o que você escreve fica.”

Essa frase proferida pela Matriarca espanhola da familinha na qual eu vim dividir essa vida louca, caiu igual raio na minha cabeça quando eu mais precisei. Eu não conheço nenhuma bruxa pero que hay, hay. Esse raio cósmico, hoje é meu lema, me indicou uma nova profissão, um novo caminho e representa bem essa cachola aqui. É a arte que faz parte e faz todo sentido também. É minha cura, meu combustível pra me manter sã e minha fonte de vitamina mental. O mundo que se cria e se descobre com o lápis na mão e o dedo na tecla.

Vou mandar um salve nas entrelinhas pra Rita Lee com suas viagens vestida de ovelha negra, Clarice Lispector com sua inquietude calculada e Machado de Assis com a ironia mórbida de um defunto cara de pau, porque foram os últimos livros que eu li nesses dias. Sem os escritores e esse universo onde qualquer coisa existe e tudo é possível eu não encontraria tanta inspiração. 
Meu convite, que parece ser o mesmo quando eu abro um livro dos meus autores preferidos é pra quem passar por essas essas linhas, aderir um bloquinho. Pra depositar uma frase bonita que passou pela cabeça, ou desanuviar um coração em frangalhos. O desabafo no caderninho deixa tudo mais leve, escrever é isso também.

E nessa ciranda feita de papel nós não estamos sozinhos. Ainda bem!


Este texto faz parte do Especial: Dia do Escritor da Revista Subjetiva, que se inicia no dia 25 de julho.


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