Mundo Desestabilizado

Eu estou aqui e sozinha
mas tudo bem.
Dormia um sono leve embalado por música latina, tocando para abafar o maldito silêncio. Tremeu o meu corpo de dentro para fora. Pensei que a cama com suas molas instáveis desestabilizavam meu equilíbrio e me rumavam para fora do sono. Mas não podiam ser molas, se todo efeito tem uma causa, qual seria o ato gerador de uma cama bamba?
Conclui:
devia tremer o prédio.
Se tremia,
aonde estava o afoite desregulado dos andares?
Ao longe só escutei o vômito. Alguém tossia e lançava para fora substâncias repelentes ao interior do corpo. O meu corpo tremia, e distante, alguém sofria com os seus próprios líquidos abjetos.
Não havia silêncio.
Entrei no mundo desestabilizado em alguma hora daquele dia. Como na infância quando mamãe levara-me no médico: “A menina reclamou desconhecer o próprio corpo, doutor. Diz sobre sensação de perder identidade, tem-se como outro, e ao tempo que sabe quem é, vê-se como se não o fosse.”
Disseram-me que não era nada. Mas hoje…
Entrei no mundo desestabilizado em alguma hora desse dia. Meu corpo tremia. Pensei que fosse cama com suas molas ou prédio com seu nome bambo, mas não era. Na noite desse dia sentei mais cinco em volta da mesa. Cerveja, petiscos — não quero. Não como a setenta e duas horas mas pareço ter estômago cheio — ilude-me a doença para que não possa lutar contra. É como a menina quieta durante todos esses anos. Não falo dela.
Pensei em avó a perder-se em zumbido encefálico agora que meu cérebro martela intrépido — não fale assim.
(Veja, não sou eu. Há outra por dentro).
De doença a qual se apega — tios, tias, mãe, primas. Pegou em mim.
Avó esqueceu passado, tão lento em suas mudanças que é para fixar marcas com mais afinco — cresceu com o trêmulo barulho dos estômagos vazios e as abundantes ambições de coisas pequenas: farinha feijão e o doce de fruta.
Não como a setenta e duas horas e não me importa se agora há comida.
Gritou mulher apossada. Quem?
Gritei de dentro para fora de mim.
Sou eu.
Estou morrendo, mas meu corpo está lutando.
Brota o ser guardado desde a infância. Alimentou-se durante anos das minhas entranhas para agora rejeitar os sabores deste mundo ao retorno da intensidade que meus ancestrais os desejaram. Sentei-me à mesa mas não escutei palavra alguma como na vez — foram vezes — em que estava na sala em volta de inúmeras pessoas, fazíamos isso e aquilo e, de repente, eu desliguei.
Estou sozinha.
Fora de mim.
Desde pequena envenenada para sentir tristeza e mundo vazio. Disseram-me que não era nada mas meu corpo treme. É nascimento, rebento de menina-outra a viver por dentro durante todos estes anos.
Não estou sozinha, aqui me perco.
Nada
Tudo
Esta bem.
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