Mundos de pixels — parte 2: como jogos online me ajudaram na transição de gênero

Quando criamos nossos avatares em um jogo multiplayer massivo online (MMO), estamos nos inserindo em um contexto social. Ali, as pessoas interagem, formam grupos e criam suas dinâmicas — que podem ter níveis de complexidade maiores ou menores, dependendo das possibilidades que o jogo oferece e dos objetivos a serem alcançados.
Para nos adequar a estes contextos, criamos padrões de comportamentos. Assim como usamos diversas performances para nos socializarmos no mundo real (chamarei de “mundo físico” para evitar a ideia enganosa de que o mundo virtual é “falso”), também temos uma série de ferramentas para construirmos nosso “eu” no mundo de pixels.
Em ambos os mundos, mentimos de acordo com certas necessidades ou desejos, mas também nos permitimos uma boa dose de honestidade quando houver segurança. E, às vezes, é justamente no mundo virtual onde a encontramos.
Em parte, essa possibilidade acontece porque, no mundo de pixels, escolhemos como queremos ser vistos. Há uma série de opções para customizar os avatares, dando a eles a personalidade que queremos adotar dentro daquele contexto social.
Meu primeiro MMO foi Ragnarok. Nele, eu percebi que havia uma série de possibilidades para socializar, o que me era muito interessante considerando meu quadro de fobia social. Como a interação física é muito difícil para mim, vi no Ragnarok uma possibilidade de fazer amizades — ou eu pensava que essa era minha principal motivação.

Mas isso não funcionou muito bem a princípio. Mesmo em um mundo online, onde estava protegida pela distância e anonimato, a fobia social me impedia de interagir bem com os demais jogadores.
Nessa época, eu ainda não era transicionada, e sequer entendia muito bem o que é uma pessoa trans. Mesmo assim, depois de jogar por um tempo com avatares masculinos, certa vez optei por criar uma personagem feminina, uma odalisca, no Ragnarok. E foi aí que as coisas mudaram.
Eu ainda não pensava em questões de gênero naqueles dias, mas achava muito curioso como eu me sentia muito mais à vontade de interagir com os outros ao jogar com a odalisca. Levaria ainda algum tempo até perceber que o que me deixava confortável era ser vista e tratada como mulher.
No meu texto anterior sobre jogos online (link abaixo), dediquei alguns parágrafos para falar sobre um MMOSG chamado Red Light Center. Comentei que foi graças ao meu avatar feminino neste jogo que eu pude, pela primeira vez, “viver” sendo vista como uma mulher.
Minha experiência no Red Light Center foi muito mais intensa do que em Ragnarok. Isso porque os jogadores de RLC formam sociedades mais complexas do que aquelas baseadas no objetivo de caçar monstros e guerrear por castelos. O RLC, assim como outros MMOSG, gira em torno das próprias relações.
Este jogo foi criado com foco nas simulações de sexo explícito, e por isso ele oferece muito mais opções para customizar seus personagens. Mas também há bastante liberdade para criar suas próprias casas, lojas, ruas, praças, castelos… o que desejar. Uma pequena réplica do nosso mundo surgiu, junto com muitas das suas complexidades sociais.
Ao criar uma personagem feminina — vou chamá-la de Yumi — bem mais realista em comparação à odalisca de Ragnarok, e ao ser tratada como mulher no RLC, as dinâmicas mudaram mais uma vez. Não era mais um grupo que sairia para caçar monstros, eram pessoas se socializando mais ou menos como fazem no mundo físico. Isso foi mais assustador.

Aos poucos, vencendo as constantes barreiras da fobia social — que ainda não desapareceriam por completo — percebi como atuar naquela sociedade de pixels desempenhando uma performance feminina me permitia expressar traços da minha personalidade que até então eu mesma desconhecia.
Mesmo ainda sem me atentar às questões de transgeneridade, eu percebi uma diferença assustadora no meu modo de falar, agir, interagir e tomar decisões. Minha atitude, meus desejos e objetivos. Tudo começou a se manifestar de um modo que eu não podia controlar — será que eu criara uma máscara tão bem elaborada que eu mesma me enganava?
Essa possibilidade não era descabida, já que muitos usavam o jogo para fantasiar serem criaturas místicas — vampiros, lobisomens — e exercer profissões inusitadas. Viverem como milionários. Eles inventam personagens com personalidades diferentes para tornar a coisa mais divertida. E acabam se apegando a isso.

No RLC, existe o jargão “levar o personagem para fora do jogo”, que é quando o vício em permanecer no mundo online é tão grande, que se manifesta um pouco dessa fantasia, essas outras personalidades inventadas, no dia-a-dia do mundo físico.
Mas aos poucos percebi que aqueles traços de personalidade que se manifestavam em meu avatar — ou melhor, nas minhas ações por trás do avatar — eram, de fato, meus. Eu os havia reprimido devido à fobia social e os traumas de infância.
(E se você acredita em signos, esses novos traços de personalidade deram muito mais sentido ao meu mapa astral)
Junto com a manifestação de tais características no mundo físico, veio a maior consciência do meu gênero.
Além de crescer enquanto personagem no jogo, a ponto de criar meu próprio clã, com meus próprios seguidores, aliados, aprendizes e amigos, tive relações com outras pessoas por trás de seus avatares.
Com isso tive ainda mais ferramentas de explorar o gênero do meu avatar — e, de certa forma, o meu.
Havia uma dinâmica curiosa: eu não conseguia me expressar nem interagir com avatares masculinos, por mais que minha “esposa” me pedisse algumas vezes. Eles me reduziam a um “nada”, uma casca vazia de pixels. Sem personalidade ou atitude. Eu simplesmente não sabia o que fazer com eles.
Algum tempo depois, no início da minha transição, eu perceberia que essa casca era idêntica ao meu “eu” antes de cair a ficha de que sou mulher trans.
Um dos maiores aspectos no Red Light Center é a vida afetiva. Talvez todas as relações e ferramentas que permitem a existência daquela sociedade gire em torno do objetivo de conquistar afetos. E não estou falando apenas de sexo.
Tive grandes amigos no RLC, nos quais eu poderia confiar quase tudo. Meu nível de imersão foi tanto que aquelas se tornaram as únicas pessoas do meu convívio por algum tempo. Algumas experiências eram tão intensas que me marcaram por muito tempo.

Mas foram as relações românticas que me permitiram experimentar uma outra novidade até então — me relacionar com mulheres, sendo vista e tratada como mulher.
Isso foi importante em todo esse processo porque, antes de entender gênero e transgeneridade, eu resistia à ideia de ser trans por confundir tudo isso com sexualidade. Já que eu sempre me senti atraída apenas por mulheres, como eu poderia ser uma? Eu nunca tivera referências de mulheres trans lésbicas.
Se você tiver um bom nível de imersão em jogos online, viver romances no RLC pode ser algo muito intenso. Não importa muito se o que a outra pessoa está dizendo é verdade ou não, a intensidade da sua experiência e dos seus sentimentos dependerão das suas respostas a esses estímulos — não é assim na vida real?
Meus relacionamentos afetivos e sexuais no RLC me proporcionaram experiências inéditas enquanto mulher que se descobria. Talvez eu nunca consiga explicar como exatamente isso funciona, mas… bem, isso fez parte do processo de entender que estava tudo bem ser uma mulher, trans e lésbica.
Aos poucos, esse conjunto de peculiaridades que se juntavam ao redor do meu “eu virtual” se tornava cada vez mais palpável. Yumi ganhara sua própria identidade. E ficou impossível desvincilhar aquilo de mim.
Todo esse processo aconteceu enquanto eu vivia em um ambiente opressor, onde não havia nenhuma possibilidade de me assumir. Por isso, cada vez mais eu me refugiava no RLC, naquelas relações, naqueles afetos e amores.
Em algum momento, o jogo se tornou uma fuga, mas não do modo negativo. Era minha sobrevivência. Era o que mantinha minha sanidade.

Em determinada época, me vi obrigada a me abster por alguns meses de acessar o jogo. Além de deixar a pessoa que amava, deixei uma grande parte do meu eu bem escondida no armário. Claro que não deu muito certo. Eu precisava daquele escape para respirar.
Laura Kate Dale, uma mulher trans que teve processo de descoberta semelhante com World of Warcraft, expressa muito bem a mesma perspectiva:
Eu era viciada em deixar o mundo e mergulhar completamente em uma vida — em uma identidade — que não parecia ser minha. Eu tinha um vício, eu sei com certeza, mas não era realmente a respeito do jogo e compulsão. Eu era viciada em descobrir quem eu era. Havia algo saudável nisso.
Embora Yumi seja apenas uma personagem com muitas fantasias, ela permitiu trazer à tona Daniele, a mulher que trabalha, sai às ruas, vai em festas, socializa, produz e ama. Eu não sou Yumi, mas ela me mostrou as possibilidades de me explorar de um modo que seria impossível no ambiente opressor onde vivia.
Não se trata de colocar vestidos, maquiagem e cabelo comprido em um avatar. Também não é apenas sobre o corpo digital (exageradamente idealizado nos padrões estéticos da sociedade, no caso do Red Light Center). É sobre moldar sua própria vida em um simulacro da nossa sociedade. É sobre perceber as liberdades que podem existir para lidar consigo mesmo. É sobre honestidade, impulsos, estímulos e paixões.
É sobre se conhecer quando tudo no mundo exterior te força a permanecer em uma concha.

