Na caverna do mito: Por dentro de grupos de apoio a Jair Bolsonaro no Facebook

Em seu livro “A República”, o filósofo grego Platão apresenta ao mundo o que ficou conhecido como “O Mito da Caverna”. Trata-se de uma passagem que fala sobre alguns prisioneiros que estão desde o nascimento dentro de uma caverna, onde passam o tempo inteiro olhando para a parede que é iluminada pela luz de uma fogueira. Nesta parede são projetadas sombras que representam pessoas, animais, plantas e objetos, que mostram cenas e situações do dia-a-dia. Como nasceram ali, tudo o que eles sabem sobre o mundo está naquelas imagens na sombra. O mundo é a caverna e não há nada além dela.

Na história, Platão sugere uma alteração no ambiente. Imaginemos que um dos prisioneiros fosse forçado a sair da caverna. Entraria em contato com a realidade fora dela e perceberia que passou a vida inteira julgando imagens projetadas na parede. Ao voltar para a caverna, iria transmitir todo o conhecimento que aprendeu no lado de fora. Porém, provavelmente seria ridicularizado, pois seus colegas só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede da caverna. Seria chamado de louco, receberia ameaças e excluído da comunidade.

Neste texto, utilizo da alegoria de Platão para fazer um paralelo com um fenômeno bastante significativo que surgiu no Brasil após os protestos de 2013. Trata-se da ascensão de Jair Bolsonaro, não apenas como político, mas como uma figura que conseguiu reunir em torno de si uma legião de admiradores e fãs, que vêm das mais variadas localidades, inclinações políticas e classes sociais.

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Regras para a participação em um dos grupos

No intuito de compreender este público com mais profundidade, considerei estudá-lo a partir da perspectiva antropológica, por meio da etnografia, me inserindo nos ambientes em que eles se organizam. Sendo assim, participei ativamente durante 40 dias de três grupos no Facebook: Jair Bolsonaro — O Mito, com 130 mil membros; Apoiadores de Jair Bolsonaro, com 330 mil membros e GACB — Grupo de Apoio à Candidatura de Jair Bolsonaro, com 310 mil membros. Não há estatísticas sobre o perfil dos integrantes, mas o público masculino acima de 30 anos é bastante expressivo. Percebe-se também a presença de mulheres que endossam e compartilham do mesmo discurso, não havendo distinção entre pautas exclusivamente masculinas e femininas. Além disso, observando uma série de perfis, os integrantes são das mais diversas áreas profissionais e acadêmicas. Ao mesmo tempo em que tem gente com ensino médio completo, tem graduados e pós-graduados. Enquanto existem profissionais autônomos, tem funcionários públicos, professores e militares. Os grupos também possuem proprietários, que normalmente são no máximo 5 pessoas¹, e uma quantidade entre 15 e 30 moderadores, que são os responsáveis por manter uma certa ordem e fazer as regras serem cumpridas. Dentre estas regras, que estão expressas nas descrições dos grupos, está em evidência uma das exigências mais importantes: não são aceitos “esquerdistas” ou pessoas que não declarem voto em Bolsonaro. Considerando esta questão, precisei ocultar vários conteúdos do meu perfil que poderiam indicar a minha inclinação política e que me fizesse não ser aceito. Assim, consegui entrar em todos os grupos e pude dar o pontapé inicial no trabalho.

1 Existe uma grande quantidade de perfis falsos nos grupos, inclusive entre os moderadores. Perfis com pouco ou nenhum amigo, com imagens da internet e que só compartilham conteúdos de Jair Bolsonaro.
Jair Bolsonaro, rodeado de fãs, em visita ao Rio Grande do Norte

O mundo real conectado

Uma pesquisa etnográfica realizada na internet sempre tem suas particularidades. Existem temas que são mais complexos de serem estudados especificamente na internet, bem como outros que são mais adequados que sejam compreendidos a partir dela. No caso em questão, estamos falando de um fenômeno de abrangência nacional, que não tem necessariamente bases físicas, mas se observa num lastro ideológico forte e que se dissemina a partir de milhares ou milhões de pessoas em todos os cantos.

Esta onda de apoio ao político Jair Bolsonaro veio crescendo de forma volumosa desde 2015 e se ampliou significativamente em 2016 e 2017. Apesar de existirem vários grupos que se encontram pessoalmente e se mobilizam em prol do deputado, sua grande massa de apoiadores não se reúne presencialmente, mas virtualmente. Portanto, os grupos virtuais são as salas de reuniões em que as ideias são reunidas, as pessoas se integram e o movimento se fortalece. Em cada esquina, escola, bar e família pode existir uma ou mais pessoas que apoiam o candidato. Elas podem declarar este voto ou podem ficar silenciosas, entretanto, quando trata-se da presença online a pessoa acaba demonstrando seus gostos, hábitos e preferências — ainda mais tratando-se de política. É possível perceber defensores de Bolsonaro em fóruns, páginas em mídias sociais, portais de notícias e em diversos ambientes na internet.

A partir do compartilhamento de notícias e participação em debates acalorados na área de comentários do Facebook, podemos ter uma pequena noção de quem é apoiador e quem não é. Apesar de essa participação parecer ser orgânica, estas pessoas têm uma conexão em comum além da posição política: grupos que as possibilitam se conectarem e se sentirem integradas na causa. O mundo real para o apoiador do Jair Bolsonaro em nada difere do mundo virtual. Na verdade, é lá que eles percebem que não estão sozinhos e sentem que são fortes.

O que os une

“Restaure o império do Brasil, único governo que deu certo no país”
Esta foi a primeira publicação que vi logo aos 10 minutos de participação no grupo. O autor deste post colocou junto da frase uma imagem com fotografias de 6 imperadores que governaram o pais na época do império. O post não repercutiu muito, mas já deixou claro pra mim o que vinha pela frente. Dentro desses grupo fervilha conteúdo durante o dia inteiro. Tal qual na alegoria de Platão, eles só acreditam naquilo que querem. Os mais variados temas são colocados em pauta e recebem interações constantes dos participantes. Estes temas fazem com que as pessoas se sintam integrantes no movimento, já que as pautas convergem com as posições e crenças pessoais das pessoas.

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Imagem publicada no grupo para relembrar os imperadores do Brasil

A partir da recorrência de temas discutidos, pude perceber quais são as pautas defendidas. Em geral, quem discorda deles é classificado como esquerdista e não há nenhuma outra possibilidade além dessa. Portanto, se alguém fala que não concorda com as opiniões de Jair Bolsonaro, ou que não acredita que intervenção militar é a melhor saída para o Brasil, esta pessoa é petista, comunista e “esquerdopata”, que é um termo usado na internet para tratar a ideologia de esquerda como se fosse uma doença (psicopatia). Uma integrante do grupo postou um link de uma notícia do site “Agentes Federais do Brasil” com a manchete “FHC se desespera com a ascensão da Direita e Bolsonaro”. Junto da manchete, a integrante comentou: “Vai se ferrar, comunista nojento”², e o que se vê nos comentários é uma sequência de afirmações na mesma linha da criadora do post. “Esse Fdp é o mentor de luladrão”; “Este merda FHC é um canalha no seu governo militares sofreram muito”; “o burguês comunista tá com medo”.

2 Inseri todos os comentários do jeito que foram escritos no grupo, com o intuito de demonstrar ao leitor a maneira com que as pessoas escrevem e se manifestam na internet.
Programa “Encontro com Fátima Bernardes”, considerada “marxismo cultural” por um dos membros

Para os integrantes do grupo, até mesmo a Rede Globo é de esquerda. Um integrante fez um post para explicar o porquê dessa opinião. Para ele, todos os programas da Globo são de esquerda. “Encontro com Fátima, puro marxismo cultural (…) Amor e Sexo, gayzismo, africanismo e luta de classes…”, disse ele. E a justificativa não se restringe aos programas de auditório. “Novelas em geral, todas tem gays, travestis, capitalistas malvados (…) Sobre o jornalismo, basta ver o que falam do Trump, do acordo do clima, do Estado de Israel, etc” finaliza o integrante. Apesar disso, nos comentários desta publicação as coisas são mais objetivas: “Eu nem assisto a REDE ESGOTO mesmo, por isso não vou comentar nada neste pôster, disse um dos membros.

Ainda assim, a Rede Globo não é a única emissora de esquerda. Na verdade, os apoiadores de Bolsonaro entendem que há um complô midiático para destruí-lo, questão que é defendida pelo próprio candidato. Em um vídeo lançado em sua mídia social, Jair Bolsonaro comentou sobre duas capas de revistas que falaram sobre as eleições de 2018, especificamente as revistas Veja e Istoé. De acordo com ele, sua imagem foi colocada de forma a transmitir a ideia de que ele não deve ser escolhido pela população para presidente da república. “Mais uma revista que entra pra coletânea do fake news. Eles aceitam qualquer um, menos Jair Bolsonaro. É bom já ir se acostumando porque a população brasileira acordou”, disse o deputado. Dentro deste grupo de fãs, além da firme aversão à esquerda e o forte consenso antimidiático, existe muito mais em comum. Um jovem, com a aparência de ter entre 20 e 25 anos, posta uma notícia do site BlastingNews (mais um famoso site de notícias duvidosas) com a manchete “General do Exército anuncia intervenção militar e diz quando ela começará”. Juntamente com a notícia, ele questiona aos membros sobre o que eles acharam do anúncio. “Falta coragem”, disse um membro. “Tomara que seja verdade” e “Essa eu quero ver”, comentam outros.

Esse apoio intensivo à intervenção militar é frequente e justificado pela situação em que o país se encontra. Para eles, nada é capaz de solucionar os problemas de saúde pública, educação, segurança e de moral e bons costumes que o país enfrenta além de uma administração federal militar. A relação entre intervenção militar e moralidade é extremamente forte, e a vigilância de temas considerados progressistas é constante. Em um post, uma adolescente contou uma experiência que aconteceu em sala de aula.

“O professor de BIOLOGIA começou a falar o quanto era antiético se referir a esses “”travestis”” como ele, pois temos que respeitar e chama-lo de “”ela””, dizendo que isso esta ferindo a liberdade desse travesti, e minha liberdade de discordar que ele seja uma mulher? Como fica?”

Neste post, várias pessoas concordam com ela. “Querem respeito e não respeita quem não concorda com eles, esquerdistas intolerantes”, disse outra garota. Vários comentários são agressivos, o que também é uma característica de muitos integrantes do grupo. “Esse professor é um esquerdopata comunista maldito!”; “Chama ele no canto e fala baixinho no ouvido dele “vc é um merda”. Nesta postagem, questionei as pessoas da seguinte maneira: “Vocês não acham que um professor de biologia tem conhecimento para falar sobre questões de gênero?” Apesar de ter questionado muitas pessoas, a única que me respondeu apenas exclamou que eu só posso ser um esquerdista para falar uma coisa dessas.

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Sem profundidade

Aqui as pessoas não dialogam. Não há debate, cada um faz seu próprio comentário, sem ler o anterior e sem esperar resposta, como se fosse um grande mural de recados e não um fórum de debates. Percebi isso com mais convicção ao comentar frases contrárias às ideias deles e não ser respondido por ninguém. Eram raras às vezes em que alguém me notava e respondia minha crítica, mas mesmo assim, a conversa acabava caminhando para uma briga, e não para um debate. Quando alguma notícia sobre alguém é publicada, muitas pessoas falam frases como se estivessem conversando com esta pessoa da notícia. Eles não comentam sobre a declaração ou sobre o tema em questão, mas sim ofendem a pessoa da manchete, de uma maneira como se esta pessoa pudesse ler o xingamento, como se fosse de forma direta, pessoal, cara a cara. Um exemplo foi a notícia com a manchete “Juninho Pernambucano pede para fãs de Bolsonaro deixarem de segui-lo”. Juninho, que é ex-jogador de futebol e comentarista de Rede Globo, foi atacado no grupo de uma forma como se estivesse ali dentro e pudesse ler os comentários: “Vc é um lixo seu otário”, “O que podia esperar de voce… da Rede Globo.”

A simplificação das coisas a partir de comentários rasos e sem profundidade ocorre a todo o momento, principalmente quando os assuntos são as pautas que eles defendem — independente se for notícia real ou falsa. Me acostumei a ver as pessoas acreditando em notícias mentirosas apenas pois representam aquilo que elas querem acreditar. Porém, existem situações em que há cautela antes de julgar. Um post de uma notícia com a manchete “Polícia apura agressão de operário por policial e agente em SC; veja vídeo” resultou em uma série de comentários divergentes. Uns, apoiam a suposta atitude do policial: “Só quem apanhou foi ele, então mereceu”. Outros foram contra: “Que vergonha, um trabalhador, abuso de poder, vamos todos falar com a corregedoria”. Mas grande parte das pessoas ficou em dúvida com relação ao ocorrido: “Será que foi só isso mesmo?”, disse um membro. Junto disso, vários questionam se o vídeo não está mal intencionado: “Ninguém analisou o contexto da ação do Policial. Soltam o vídeo e depois uma legenda para falar mal da Polícia”; “Pena que não mostraram o início de tudo”; “Vai saber o que ele fez antes?”.

Nestas situações, é possível perceber que quando o assunto pode impactar quem eles apoiam e atinge diretamente suas convicções, há cautela e cuidado antes de opinar. Em alguns casos, simplesmente se ignora o fato ou até se defende, minimizando a dimensão. Uma publicação diz que “Bolsonaro admite que estuprava animais”, juntamente com um vídeo de uma matéria do extinto programa CQC, da Bandeirantes. Nos comentários, diferentemente de outros posts, aqui há ponderação e cautela. As justificativas vêm das mais diversas formas, seja naturalizando a situação: “Ahh….gente vai pesquisar mas roças com os senhores pra vocês verem que isso era natural da molecada”; com piadas: “E ele agora vai estuprar um molusco… aguarde!!!!”; ignorando o fato: “É só boato, pessoal…”; ou descredibilizando o autor do post: “Tirem essa pessoa do grupo, aqui é só para apoiadores não difamadores”. No entanto, quando a matéria fala sobre alguém que eles não gostam, não há nenhum movimento de cautela, pelo contrário, mesmo quando alguém avisa sobre a inveracidade do conteúdo, continuam firmes e repercutindo uma notícia mentirosa.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL), um dos grandes alvos dos apoiadores de Jaird Bolsonaro

Um post trazia a seguinte manchete: “Jean Wyllys propõe emenda à Bíblia para retirar trechos considerados homofóbicos”. A fonte da matéria é o site Sociedade Oculta, um portal similar ao humorístico Sensacionalista. Aqui, não há cautela: “Isso é como um piolho, só tem jeito matando”; “E nós, família cristã, devemos propor leis pra jogar na fogueira esses viados legisladores”. São julgamentos sem receios, entretanto, sempre quando são informados de que a matéria é mentirosa eles relutam ou dizem algo como “Mas mesmo assim, ele é ruim de qualquer maneira”, ou “Independente disso, dessa pessoa eu espero qualquer coisa”.

Opressores confessos

“Este tinha que ser morto embalado para morrer feliz”. Esta foi uma das sugestões que um membro deu sobre a notícia anterior, a respeito da absurda manchete sobre Jean Willys. Mas não para por aí. Um membro disse assim, em caixa alta: “TEM QUE EXTERMINAR UMA ABERRAÇÃO DESSA”. Outro membro fala de forma mais pragmática: “Eu proponho que mate essa aberração, chamado Jean Wyllys”. O deputado Jean Willys, que é integrante do PSOL e declaradamente de esquerda, é grande alvo do grupo. Aliado ao posicionamento político existe o “agravante” de que ele é homossexual. Além dos assuntos sobre ele, diversas outros posts no grupo abordam a homossexualidade. Houve um momento em que eu queria saber se essa repulsa contra a população LGBT tinha a influência religiosa, já que uma das pautas defendidas pelos membros é a da religião. Resolvi questionar um membro da seguinte maneira: “O que tem de errado em ser gay? A pessoa vira assassina? Bandida? Corrupta?”. Fui respondido com esta mensagem:

“O problema não é ser gay meu amigo. O que mata a sociedade são as imposições e os ativismos, eles não se contentam em apenas ser. Querem que todos sejam iguais a eles. Não se faça de desentendido”.

Posteriormente, foi publicado um manchete com o título “Vereador ameaça prender Pabllo Vittar no Paraná”. O autor do post comentou: “Tudo bem que agente deve respeita a opinião de todo mundo mais só eu que acho que gay e trans não deveriam existir?”. Aqui, apesar de já ter entendido o que eles pensam sobre gays, eu esperava alguma repreensão dos membros. Mas não, me equivoquei. “Isso é um erro, nao deveriam existir mesmo”, comentou um. “Não deveriam mais existem, não tendo direitos a mais por isso já tá ótimo”, disse outro. “A parada é bem simples. A maioria é que deve comandar, não a minoria! E Pablo Vitar, deveria ser preso sim!!”, acrescentou mais um. E teve este comentário que solucionou minha dúvida sobre o envolvimento da religião neste posicionamento sobre gays: “Gay e trans tem que virar homem, eles não nasceram gay nem trans eles viraram e igual bandido ele não nasce bandido ele escolhe essa opção….”. Questionei: “Você é cientista? Estudioso do assunto? Quais são as provas disso?”, e fui respondido: “SÓ É PRECISO ACREDITAR EM DEUS PRA TER ESSA CERTEZA”.

Certeza é o que eu já tinha sobre muita coisa neste ponto da pesquisa. Pude entender que, nestes grupos, muitos posts são de links de sites e blogs suspeitos, com conteúdos categorizados como disseminadores de fake news. É por meio disso que as pautas do grupo são disseminadas para fora dali e ganham a internet. São pautas variadas, como a militarização das escolas, a liberação do porte de armas, o voto impresso nas urnas eleitorais e a oração religiosa nas salas de aula, por exemplo. Mas isso não fica apenas dentro dos grupos.

Além de todo este fortalecimento de ideias e de união entre os membros, há uma organização para que a força deste movimento seja sentida fora das fronteiras dos grupos. Faz parte da rotina chamarem os membros para comentar em páginas de esquerda, de direita, em portais de notícias ou em qualquer lugar da internet em que estejam falando algo contra o que eles acreditam. Eles se reúnem, canalizam suas forças e atacam — e é aqui que eles admitem quem verdadeiramente são. “Vamos oprimir… Veja esquerdista querendo derrubar o mito… #bolsonaro2018. Comentem dentro do vídeo”. Assim publicou um membro, chamando os outros participantes a irem marcar presença numa postagem da revista Veja no Facebook. A matéria em questão foi uma entrevista que a revista fez com Jair Bolsonaro. Em outro post, um membro compartilha uma postagem da página “Time Ciro Gomes” com um vídeo de Bolsonaro saudando a bandeira dos Estados Unidos. A convocação para atacar é expressa da seguinte maneira: “Vamos dar aquela oprimida padrão p/ página do Time do Jumento do Ciro Gomes”. E não ocorre apenas em páginas do Facebook. Uma garota publicou em seu perfil pessoal uma foto com o ex-presidente Lula em que diz que ele era o homem que ela mais difamou na vida, mas que após uma conversa com ele, mudou de ideia. Aqui, um membro do grupo convocou os apoiadores de Bolsonaro para a opressão: “Vamos oprimir no facebook dessa aproveitadora, que, acuso Eduardo bolsonaro de assédio, piranha”. Outro membro do grupo fortaleceu o pedido: “Foda-se todos os viadinhos covardes da esquerda, enquanto não souberem respeitar as opinião contrárias e a religião alheia a opressão só vai aumentar e nunca ficaremos passivos diante de toda sua imundície”.

Após ficar 40 dias nesta caverna de pessoas que se definem opressoras, não foi possível compreender os meandros profundos deste perfil nem discorrer sobre a origem deste fenômeno, mas sua lista de pautas, motivações e inimigos ficaram claras. Inclusive, faço parte desta lista, principalmente após ler a mensagem que me fez sair de todos os grupos e finalizar minha estadia: “Estou pronto para pegar em armas… Que a morte seja o único destino possível para os esquerdistas desse país. Convido os esquerdistas a começarem a luta armada. Não vejo a hora de reagir”, disse um homem de aparentemente 40 anos, que tem a foto de uma igreja católica na capa do perfil pessoal e compartilha imagens da família e de trechos bíblicos em sua timeline.


Este artigo foi desenvolvido como trabalho de conclusão dos módulos de Etnografia e Antropologia Urbana na Especialização em Antropologia Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Paraná — PUCPR/2017. As falas aqui contidas são verdadeiras e podem ser conferidas diretamente nos grupos citados por meio da ferramenta de pesquisa. No texto, não foram inseridos prints das falas para não expor os autores sem autorização.