Revista Subjetiva
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Ninguém sabe ao certo o que acontece dentro de um buraco negro

Photo by Jeremy Perkins on Unsplash

Detrás da minha máscara com formato de sorriso existe um poço de ressentimento. Ele é invisível, mas posso sentir sua energia, sua densidade. Não coloco a máscara de propósito, não quero enganar ninguém. Mas sinto a necessidade de esconder esse buraco infinito de mágoa e rancor que, embora invisível, apresenta o risco de sugar tudo ao meu redor. Simplesmente me nasce o fingir que está tudo bem, o “fake until you make it”. Tenho medo de demonstrar minha vulnerabilidade, de que a minha incomodidade seja incoveniente.

A máscara realiza seu trabalho com primor. E como está feita do meu próprio rosto, ninguém percebe que é de mentirinha. Só eu sei que esse sorriso de comercial não é real. Sinto a boca aberta em uma meia lua, a bochecha estirada, o ar frio que bate no nervo exposto do dente, a força pra manter a cara nessa posição. Movimento artificial, totalmente diferente do que se sente quando o sorriso é de verdade.

E como quero sorrir de verdade…

Sentir o riso fluir solto, gargalhar até. Quero tanto ser essa pessoa. Mas, por mais que tente realizar esse desejo, o poço sem fundo continua atrapalhando meus planos. Não me lembro quando esse acúmulo começou a se formar, não consigo lembrar dos dias iniciais do poço, quando olhava pra dentro dele e ainda podia ver o fundo. Ainda dava pé.

Não, quando fui notar o que estava acontecendo, o buraco escuro e silencioso já tinha ganhado grandes proporções. Acho que foi se alimentando de pequenas frustrações, momentos chiquitos de tristeza ou desengano. Na hora pareciam coisa boba, sem importância. Já ia passar.

Mas não passou.

A fusão da raiva, medo, cansaço e desespero, todas essas emoções que fui sentindo à conta-gotas e guardei sem perceber terminaram gerando esse fucking buraco negro. Sua órbita tem força, quer arrastrar meu sorriso falso, desintegrar a máscara, consumir tudo até se consumir no todo e deixar de existir. Ou talvez queira nos levar pra outro tempo e espaço e permanecer por lá, longe de tudo que causa essas mini-dores que tendo a acumular. Não sei.

Ninguém sabe ao certo o que acontece dentro de um buraco negro.

Enfim, uma batalha intergaláctica acontecendo aqui nesse corpitcho! Às vezes finjo que não sei que a única heroína que pode me salvar da (auto)destruição sou eu mesma e vou empurrando a situação com a barriga. Mas será mesmo que não vai passar? Não dizem que o tempo cura todas as feridas? Não é assim?

Outras vezes, decido encarar o desafio e guio minhas tropas em direção à vitória. Escrevo, vou na terapia, desabafo. O poço se retrai um pouquinho e eu ganho esperança. Sigo em frente. Em outros dias, parece que a sombra desse inimigo duplica de tamanho e penso que nada vai dar certo. Salve-se quem puder!

Um sobe e desce, um vai e vem, uma dualidade cansativa, mas nada novo sob o sol. Ser humana é se equilibrar no gume afiado de uma faca e tentar não se cortar demasiado.

Uma quantidade de metáforas nesse texto, por favor! Pra que tanto? Mas tudo bem, o exercício de hoje era dar vazão a esses sentimentos malucos e dramáticos, deixá-los ser tal qual são. Conforme ia escrevendo, fui deixando meu rosto real aparecer, sem sorriso falso pra disfarçar. Seriam as metáforas uma espécie de sorriso textual? Palavras para suavizar o buraco no meu peito?

Talvez fosse muito mais fácil simplesmente dizer que me sinto mal e queria não me sentir assim. Talvez precise encarar o buraco negro de frente, aceitar que existe, e vida que segue. Sem fingir, sem insistir que tudo vai ficar bem. Somente existir, somente continuar caminhando, vivendo, tentando.

Não sei. Mas há tantas coisas que não sabemos ao certo. Essa é somente mais uma delas.

E é isso ai.

Obrigada por ler ❤ Se gostou, deixe seus aplausos 👏

Outras histórias e meu livro em: regianefolter.com 💛

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Regiane Folter

Regiane Folter

Escritora brasileira vivendo no Uruguai 🌎 Autora de “AmoreZ” 💛 https://www.regianefolter.com/