No segundo turno carioca, quem ganhou foi a falta de representatividade

A vitória de Marcelo Crivella não é o mais importante aqui, e sim o percentual de abstenções, brancos e nulos.

Foto do Jornal Extra, 31/10/2016

As primeiras eleições municipais após as Jornadas de Junho de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff e durante mais uma Primavera Secundarista, nos revelou um cenário bastante conturbado para os setores progressistas do Brasil. As derrotas desses mesmos campos de esquerda, tendo em seu contraponto, a vitória dos dois partidos com mais candidatos ficha suja do Brasil — PMDB e PSDB — , mostra que os próximos anos não serão tão fáceis para os movimentos sociais e as minorias políticas.

O primeiro destaque se deve a perda de inúmeras prefeituras do PT, que inclusive não conseguiu ganhar a prefeitura na terra de Lula, São Bernardo do Campo e, também, no ABDC Paulista. Podemos atribuir esta consequência de hoje com seu inicio nas Jornadas de Junho de 2013, onde a pluralidade de manifestantes de diversos segmentos e ideologias foram as ruas contra a corrupção, e a favor dos direitos básicos — Saúde e Educação. Logo após, as eleições de 2014 foram um marco na história política de nossa jovem democracia, porque um dia após a reeleição de Dilma, o neto de Tancredo Neves — Aécio — decidiu ir as ruas não aceitando a decisão dada nas ruas, pedindo um impeachment ainda sem motivos para ocorrer o mesmo. Os campos progressistas foram as ruas e protestaram contra o golpe que já havia sido anunciado um dia após as eleições presidenciais de 2014, porém, não foram o suficiente para barrar os interesses das corporações que promoveram o mesmo, juntamente com a mídia que foi incisiva não na criminalização apenas do PT, mas de toda esquerda brasileira, como se todos fizessem parte do que eles chamam de “a maior quadrilha organizada do Brasil”.

A falta de representatividade por parte da população brasileira se inicia em 2013, e vem se agravando e aumentando conforme o sensacionalismo dado pela mídia e pelos meios de comunicação de massa, além dos ataques feitos pelos formadores de opinião da internet e nas Igrejas, lugares onde a cooptação de quem possui baixa escolaridade e está inserido num campo de alienação interminável é bastante forte. Porém, a derrota de Marcelo Freixo não se deve apenas a esses fatores, o candidato Marcelo Crivella nunca foi um candidato impossível de chegar, vide suas alianças e os escândalos que foram divulgados pela grande mídia em sua campanha. Em meio a crise, as camadas populares não querem ouvir longos discursos de difícil acesso, elas querem que seu futuro seja garantido a partir de emprego, seja qual for, deixando de lado o discurso de direitos. Onde existe milícia, não existe democracia, e o mapa dos votos obtidos nos colégios eleitorais nos mostram bastante isso.

Os boatos foram decisivos nessas eleições municipais, porque as difamações e mentiras foram ditas nas redes sociais, principalmente, onde mentiras como, por exemplo, o Marcelo Freixo ter feito a CPI das Milícias por ser a favor do tráfico, isso porque ele é a favor da descriminalização das drogas, sendo que as coisas não se ligam, mas o discurso disseminado de forma fácil fez com que tivesse algum sentido na cabeça das pessoas que já estão sendo cooptadas por pequenos formadores de opinião nessas regiões mais populares.

O discurso direto e didático de Marcelo Crivella teve grande impacto nos setores onde a criminalidade impera, mas isso não é de hoje, faz parte de um longo trabalho de base que a Igreja Universal do Reino de Deus vem fazendo desde os anos 70, indo em presídios, entrando nas comunidades, com seus projetos sociais. A Igreja entra nesses lugares no lugar do Estado, que sempre foi omisso com essas mesmas, daí parte sua grande influência com esse público. Além do mais, não devemos cair no discurso de culpar essas pessoas da derrota de Marcelo Freixo, elas já são marginalizadas, criminalizadas, discriminadas e sufocadas pelas longas jornadas de trabalho no dia-a-dia, convivem com a criminalidade em suas regiões diariamente, conhecem pessoas que perderam pessoas e já perderam pessoas, na maioria das vezes, para esta criminalidade que vem da omissão do Estado. A esquerda e os campos progressistas devem se alinhar a estas pessoas.

O discurso apolítico foi um dos que mais cresceu nessas eleições municipais, os discursos que alegam que não são políticos ou não enriqueceram na política imperaram entre as figuras novas. Isto nos mostra que a falta de representatividade e confiança na política em si, já se transformou numa forma de marketing para eleger “lobos disfarçados de cordeiro” com este discurso. A corrupção fez com que se desacreditasse cada vez mais daqueles que deveriam nos representar no Congresso, e isto tudo foi potencializado pela Operação Lava Jato, que prendeu políticos, empresários, lobistas, dentre outros. A omissão e os votos brancos/nulos foram surpreendente, são mais de 2 milhões somados, mais que o candidato do PRB, que teve 1.7 milhões, e do que o candidato do PSOL, que teve 1.1 milhões.

Um último fator, foi o da seletividade ideológica, muitos não votaram em Marcelo Freixo por conta dos boatos, porém, outros preferiram votar em Crivella ou se abster por ele ter um discurso mais progressista, isto foi o suficiente para ignorar os escândalos de preconceito, intolerância e de corrupção, mesmo ele sendo delatado na Lava Jato por desvio de 12 milhões. Esse voto ideológico não tem escrúpulos, porque prefere fingir que não viu o que está por trás da figura do Bispo, e ainda votando nele criminalizando o candidato da oposição, com medo do “comunismo”, mas deixando a comercialização da fé e propagação do machismo, da homofobia e da intolerância religiosa que matam pessoas diariamente no Brasil e no mundo.

Por tanto, quem ganhou não foi o candidato Marcelo Crivella, foi a omissão, a falta de representatividade, e a seletividade ideológica, que só reforça o preconceito disseminado e reproduzido por aqueles que acreditam no candidato do PRB, que agora tem a cidade-vitrine em suas mãos, não apenas nas suas, mas nas de Garotinho, Bethlem e Edir Macedo, seu tio e dono da IURD. O que me deixa feliz é ver que o campo progressista não morreu, os 1.1 milhões de votos em Marcelo Freixo mostram que ainda há esperança. “Ainda há tempo”.


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