O 150 BPM é a revolução do funk

Por que você precisa conhecer o 150 BPM?

Pra quem não sabe, BPM significa batidas por minuto e o funk 150 BPM nada mais é que um funk com batida acelerada.

Favelas, bailes e repressão artística

Essa nova modalidade do funk se expande a partir do início de 2017, ano em que o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) já se provava falido nas favelas do Rio.

As UPPS, desde seu estabelecimento nas favelas cariocas no fim de 2008, vinham reprimindo várias expressões culturais dentro das favelas, dentre elas, os bailes funk.

Com a decadência dos bailes, os DJs do funk passaram a produzir bem menos, afinal, seu principal meio de experimentação estava limitado.

Além disso, o surgimento do canal Kondzilla estabeleceu o funk paulista como o expoente do gênero.

Mas tudo muda a partir de 2017. Bailes voltaram, os DJs do Rio precisavam se reinventar… Surge o 150 BPM.

O DJ Polyvox foi o primeiro a produzir funk a 150 BPM. Foto: Clara Sthel

Por que o 150 é revolucionário?

O 150 BPM é transgressivo de diversas formas.

Ele marca de vez o retorno dos bailes de favela, importante esfera pública de experimentação artística e lazer. Além de ser o responsável pela emancipação financeira de vários jovens periféricos.

DJ FP do Trem Bala. “Da favela para o mundo”, é o DJ de 150 mais estourado do YouTube. Foto: Clara Sthel

O DJ FP do Trem bala tem apenas 21 anos e já se sustenta através do funk. Ele produz suas músicas no computador e as disponibiliza gratuitamente na internet. O sucesso permite que ele faça shows e também tenha renda através dos vídeos no Youtube, canal com mais de um milhão e meio de inscritos. Desde junho, o canal ganhou quase um milhão de inscritos.

A emancipação financeira é fundamental para a juventude periférica. Para além disso, ter sua arte reconhecida é primordial para sua auto estima e pertencimento social.

O que é mais revolucionário do que molecada da periferia ganhando dinheiro e disponibilizando sua arte gratuita na internet?

Gênero

DJ Iasmin Turbininha. Foto: Clara Sthel

A Iasmin Turbininha não precisa fazer textão sobre feminismo: sua vivência é puro feminismo.

Mulher, negra e lésbica, Iasmin é uma das principais DJs de uma cena dominada por homens, mas nem por isso deixa de ser respeitada por sua capacidade artística.

Um dos seus princpais hits é um remix de outra funkeira tradicional, e cá pra nós, tá muito melhor que a versão original (que tem batida de funk paulista, diga-se de passagem):

No segundo semestre, o 150 estourou para além do Rio e as MCs também. Um dos principais nomes da cena é a MC Rebecca, dos hits “Cai de Boca no Meu Bocetão” e “Vou te Dar Coça de Xereca”.

Depois do sucesso, ambas foram adaptadas sem o linguajar “explícito”, mas o que importa é que Rebecca se fez ouvir falando sem neurose e papas na língua. Tati Quebra Barraco e Valesca também botaram o pé na porta nos anos 2000, mas agora é a vez de Rebecca, junto com várias outras MCs da cena, cobrirem esse vácuo, dessa vez na “putaria acelerada” do 150 BPM, em busca de tornar o meio menos machista.

Território

Se pegar pra ouvir um 150 e do nada aparecer alguém falando “baile do Jaca”, vai se acostumando: é marcação de território. Mesmo que aparecendo sem grandes pretensões na música, é outro detalhe fundamental na cena do 150 BPM.

Variadas músicas tem inserções que fazem menção à outras favelas: “Juramento”, “Borel” e “Colômbia” — essa última em referência a um baile famoso do Complexo do Lins.

Os próprios DJs carregam em seus nomes alusões ao seu território. Rennan da Penha e Zebrinha do Pistinha, por exemplo.

DJ Zebrinha do Pistinha posa pra foto no Complexo do Lins, onde mora. Foto: Clara Sthel

O 150 BPM chegou pra ficar.

Sua batida surgiu no baile da Nova Holanda mas já chega às casas de festa mais caras do Rio, e até mesmo de outros estados.

Em julho, o 150 chegou no Kondzilla com “Me Solta”, do Nego do Borel e produzida por Rennan da Penha.

Três meses depois, DJs conhecidos de São Paulo começam a cantar a 150 BPM.

Livinho, voz do funk paulista, fez participação com Rennan da Penha, um dos principais DJs do 150.

O “ritmo louco”, como chamam os DJs, fez jovens encontrarem uma saída profissional através da música, ressignificou espaços que antes estavam abandonados (ou até mesmo usurpados) e chegou com pé na porta na indústria musical hegemônica.

É como diz Iasmin Turbininha:

“quem não gosta vai ter que aturar, porque o bagulho tá estourado… Se não gostar, vai ter que tampar o ouvido.”

De onde tirei essas informações? Assiste “150 BPM: o Ritmo Louco”.

O filme tem participação do FP, da Iasmin, do Polyvox, do Zebrinha, da Valesca, entre outros. Sua produção foi a inspiração pra esse artigo e tem muito mais informação sobre o ritmo que mudou a cara do funk.