Brasil na privada

O banheiro público como o espelho de um país

Artista desconhecido

Salvo caso para lá de extraordinário, quem lê este texto já entrou pelo menos alguma vez na vida em um banheiro público. A ressalva inicial se deve à existência de pessoas que nunca fizeram coisas que para nós, “simples mortais”, são banais. Meu pai me contou certa vez de uma conhecida cujo conceito de “transporte coletivo” se resumia a “avião”: sequer tinha entrado alguma vez na vida em um ônibus escolar, pois era buscada de carro pela mãe ou pelo pai em seu caríssimo colégio particular.

Mas casos como o citado são exceções. Nós, “simples mortais”, ou usamos ônibus diariamente ou dependemos dele em algum momento da vida. E, sendo usuários deles para viagens intermunicipais, certamente entramos pelo menos uma vez em algum banheiro de estação rodoviária. E sentimos aquele tradicional “cheiro de mijo” que emana das privadas e dos mictórios, além do próprio chão.

Algo que não é característico apenas dos banheiros de rodoviárias, mas da maioria dos que são abertos ao uso da coletividade. O mau cheiro é resultado não simplesmente da falta de educação de tantas pessoas, mas também da pouca importância que se dá ao que é público: é de todos nós, mas temos como sociedade o péssimo hábito de tratar como se fosse “de ninguém”.

Infelizmente, acabamos nos acostumando a isso. Nem me surpreendo mais de ir a banheiros públicos e precisar dar duas descargas: além da esperada após minhas necessidades, ainda preciso fazer o que o “porco” que me antecedeu não fez.

E algo recorrente em minhas passadas recentes por banheiros públicos tem sido ouvir seus frequentadores reclamarem do Brasil. Dizem que a política é um ninho de corruptos e defendem fechar o Congresso “porque só tem ladrão lá” — engraçado é que fizeram campanha fervorosa por um cara que estava lá há 30 anos pois queriam “acabar com a roubalheira”.

Falam, falam e falam de corrupção e de que o povo brasileiro é mal-educado, tudo isso enquanto fazem seu xixi ou seu cocô. Terminam sua necessidade, seguem falando… Mas parece que caíram as mãos, pois a descarga não é acionada. E na hora que saem do banheiro, emendam com um “o Brasil não tem jeito, melhor é ir para Miami”.

Concordo quando dizem que políticos têm muitas regalias — felizmente há quem abra mão voluntariamente delas, como a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS), que sempre honrou todos os votos que lhe dei. Mas discordo veementemente de quem diz que o Congresso, eleito pelo povo, não é representativo dele. Na média a composição do parlamento é um nítido reflexo do que é o Brasil. Assim como o “fedorão” que emana de tantos banheiros públicos por aí.


E isso que nem falei do péssimo hábito que tantas pessoas têm de transformar qualquer lugar em “banheiro” quando de grandes aglomerações, empesteando diversos ambientes. Um erro que, confesso, já cometi e também já vi amigos meus cometerem sem que eles tenham escutado uma necessária recriminação de minha parte — ou seja, outra vez estive errado. Inclusive, assim como dar descarga não faz cair a mão de ninguém, reconhecer equívocos não faz mal nenhum — muito antes pelo contrário.