INCONTÁVEIS III — O Casamento Arranjado

Karina Sanitá
Jul 24, 2017 · 3 min read

— Mas quando marcaram seu casamento, você já namorava com o…

Ah, já namorava! Via nos campos de futebol que tinha nos sítios, assim. Aí depois ele foi tombar terra para os Mancine, lá perto da minha casa, e posava na casa do cara, né. Como ele era vizinho nosso, foi de noite na minha casa. Aí nós mudamos de sítio, mas pra mim nem era namorado. Eu tinha ido com a Lisete no poço, buscar água na tia Mafalda que não tinha no meu. Não, não levei a Lisete. Eu fui buscar água no poço da tia Mafalda e quando voltei a Lisete estava na rede chorando. Aí peguei ela e o Zé veio de encontro comigo falando

— O Toninho tá aí, Nené.

Fui na sala, ele estava lá. E no próximo sábado ele ainda voltou e disse: “Vou falar com teu pai”. Mas eu nem… Aí fiquei na cozinha com o Zé, porque estava um temporal, mas um temporal… Caia tudo terra nas coisas porque não tinha forro, sabe? A minha casa era… Era a sede, mas não tinha, não existia forro.

Uns dias depois minha mãe vinha da cidade de charrete, mas deu uma chuva e não sei o quê. E eles moravam perto do Ribeirão, onde a gente passava pra ir pro sitio do meu pai. Ali antes da Dobradinha tem o Ribeirão, não tem? A ponte do Ribeirão. E ali quando chovia ficava tudo cheio d’água. Tinha dado uma enchente ali, e eles pegaram e foram na casa da minha sogra, da mãe do Toninho. Na casa deles que era pertinho ali, numa subida mas era perto. Ficaram lá conversando a tarde inteira e a minha sogra convidou minha mãe para almoçar lá, e eles foram no domingo. Eu fiquei, ela levou só a Elisete, que era bebê. E eu fiquei com os outros em casa, fiz comida e tudo. Aí… eu nunca vou esquecer, esse dia eu não esqueço nunca na minha vida.

Eu estava escolhendo feijão para o outro dia, que a gente cozinhava feijão todo dia, né. E eu não sabia fazer sopa. Que eu ia na roça de segunda até sexta. Eu lavava roupa pra minha mãe no rio e tudo, mas comida fazia arroz e feijão, assim. Sopa nunca tinha feito. Eu puis pimenta do reino, mas ficou tão ardida, menina! Ela riu como se estivesse lá, com o prato de sopa na mão.

Mas aí eu estava escolhendo feijão e minha mãe chega. Ela falava assim

— Ela não sabe de nada! e dava risada. Falou umas quatro vezes.

— O que que eu não sei? — eu perguntei.

— Ah, nós marcamos seu casamento.

— Mas como assim marcaram meu casamento?

E comecei a chorar. Chorei, mas chorei chorei chorei muito! A minha mãe falou:

— Mas por que você tá chorando? Marcamos, marcamos pra maio, mas você pode escolher o dia.

Ah, meu deus do céu. Eu não estava preparada.



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Karina Sanitá

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Jornalista e cientista social.

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