O dia ideal é o dia sem LGBTfobia

Hoje, 17 de maio, é o Dia Internacional da Luta contra a LGBTfobia. Foi nesse dia, há 27 anos, que a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. E eu queria vir dizer que a intolerância é coisa do passado. Eu queria vir testemunhar o fim de uma era das trevas para todo LGBTQ do mundo. Eu queria vir contar a boa nova de que não existem mais países que criminalizam a homossexualidade, que punem LGBTQs com a pena de morte por serem quem são. Eu queria vir discorrer sobre ser LGBTQ e não sofrer discriminação velada no trabalho, na sala de aula, na rua, na vizinhança, no círculo de amigos.

Hoje, eu queria ter o dom da premonição e saber dizer quando o mundo será um bom lugar para ser LGBTQ. Eu queria poder dizer que o preconceito ficou no passado. Queria poder dar risada de tudo que já vivi, sem que uma lágrima de preocupação me visite, como um lembrete:

A LGBTfobia acontece todo dia. E pode acontecer de novo com você a qualquer momento.

No entanto, tudo que eu tenho é a minha memória de sofrimento. As lembranças do que é viver nesse mundo doente. O riso cínico daqueles que dizem “aceitar”, mesmo que eu não tenha pedido que aceitassem. A cara lavada dos intolerantes que destilam ódio nas telas de celulares e computadores. A hipocrisia dos que me abraçaram e depois lançaram pedras nas minhas costas.

Tudo que eu tenho hoje é o fato de nunca me perguntarem o nome do meu cônjuge, depois que eu digo que minha relação é homoafetiva. Seja em bancos, em lojas, em instituições públicas. Deixar um campo em branco parece ser melhor que preenchê-lo com a verdade.

Tudo que eu sei é que as ouvidorias públicas não estão preparadas para lidar com a discriminação no ambiente de trabalho. Como quando denunciei ter sido alvo de comentários intolerantes e me mandaram procurar quem fosse competente para lidar com isso.

Tudo que eu tenho é a lembrança de que tampouco os gestores estão preparados. Meu caso ficou arquivado na minha lembrança e nos e-mails trocados com os órgãos “competentes”. E nas conversas particulares internas que, no fim, serviram para botar panos quentes no que eu vivi.

Tudo que eu posso dizer é que eu tive de desviar meu caminho porque os bêbados do bar na minha rua não sabem conviver comigo sem me apontar e fazer ameaças.

Tudo que eu sei é que eu posso obter sucesso em tudo nessa vida, seja no trabalho, seja na literatura, mas o meu relacionamento será sempre um porém quando se referirem a mim. Eu posso publicar mil livros de poesia, tornar-me presidente de uma empresa, ganhar rios de dinheiro, conseguir trabalhar no que amo, graduar-me como um dos melhores da minha turma, e ainda assim pouca gente estará lá para assistir e parabenizar-me. Ser LGBTQ é conviver com a ausência de amigos.

Tudo que eu posso dizer é que eu só posso contar com outras pessoas LGBTQ nesse mundo. O resto do mundo já me deu motivos suficientes para não confiar.

Tudo que eu tenho é o terror psicológico de ter convivido desde criança com uma identidade que contrastava com o que queriam de mim. E a sequela emocional que isso deixou em mim, mesmo depois de ter crescido, amadurecido, assumido, compreendido meu lugar de direito.

Hoje é o Dia Internacional da Luta conta a LGBTfobia e, infelizmente, tudo que eu tenho para dizer é que a luta continua, e continuará por muito tempo.

No meu sonho de como esse dia deveria ser para ser o dia ideal, somente um desejo:

Que nenhum LGBTQ morra hoje.

Que nenhum LGBTQ sofra agressões hoje. Que nenhum LGBTQ seja expulso de casa hoje. Que nenhum LGBTQ tenha seu currículo ignorado hoje por ser LGBTQ. Que nenhum LGBTQ perca o emprego hoje por ser LGBTQ. Que nenhum LGBTQ sofra bullying nas escolas hoje. Que hoje, pelo menos hoje, a LGBTQfobia nos dê uma trégua. Seria pedir muito?


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