O espelho do cego

Carlos Barth
Aug 26, 2017 · 3 min read
Acervo Google.

Certo dia, apareceu um cego na Barra de Tramandaí. Não se sabia de onde vinha ou se tinha parentes vivos; até porque qualquer menção às palavras família ou terra natal o levava às lágrimas. A descoberta de que os cegos também choram foi a primeira grande quebra de paradigma na minha vida, que contava na época com oito anos de idade. Mesmo assim, ainda estava em vantagem sobre minha irmã. Ela acreditava que os cegos, quando usavam óculos escuros, enxergavam.

Concordaram os populares que era melhor deixar em paz o pobre cego. Já não bastava o sofrimento de não enxergar, não era de bom tom ficar inquirindo o moço sobre um passado possivelmente triste. Tenhamos compaixão! Olhem a cara desse rapaz! Traz estampado no rosto as marcas, digamos assim, de quem já fora muito castigado pelas intempéries da vida. Envelhecido como um bom uísque, mentiam tentando aplacar o sofrimento do pobre infeliz.

A única informação dada por ele é a de que a cegueira interrompera uma promissora carreira como atacante no Aimoré de São Leopoldo. “Me comparavam ao Escurinho, do Internacional. Aí veio a cegueira, do nada…”, chorava o cego. Que lástima! Poderia ter ido jogar em algum time grande. Quiçá ser convocado para a seleção brasileira!

Sabiamente, o cego havia batido na porta de gente humilde. Se tivesse pedido ajuda à gente de posses, seria escorraçado ou recolhido à cadeia por vadiagem. Curiosamente, riqueza e solidariedade costumam serem medidas inversamente proporcionais. Entre os humildes, não faltou quem se compadecesse do rapaz. “Por hora, dorme na minha casa”, prontamente alguém disse. “Depois, construímos um barraco para ele” emendou outro.

Foi algo bonito de se ver o empenho da comunidade para ajudá-lo. Foi daquelas experiências que nos fazem ter fé na humanidade. Com a ajuda de todos, foi construído um barraco em meio às dunas, na beira mar. Terra de propriedade da Marinha, necessário registrar. Mas em meio a tantos posseiros, um a mais ou a menos não fazia a menor diferença. Os poucos móveis foram doados pelos vizinhos. E lá o rapaz passou a levar sua vida espartana. Sem luxo algum, mas era o máximo que aquela gente poderia fazer por ele. Além disso, dizem as más línguas, não faltava uma ou outra moça da comunidade que o fizesse companhia nas noites mais frias.

O cego foi completamente integrado à comunidade. Sempre filando um café aqui, um almoço lá. Pendurava os artigos de necessidade básica — cachaça e cigarro — no armazém de Seu Manoel. Prometia pagar quando saísse sua aposentadoria por invalidez no INSS. “O advogado falou que ainda este ano sai, Seu Manoel. Aí lhe pago tudo que devo”, prometia. “Sem problemas”, respondia o dono do botequim, sem muitas esperanças de algum dia ver esse dinheiro.

O inverno veio, e com ele o temido vento minuano. O barraco, apesar de ter sido construído com toda a boa vontade, carecia dos requisitos mínimos de engenharia. Cálculo estrutural? Alicerce? Nem pensar! Durante uma noite de tempestade, a rústica morada não resistiu ao vento e ruiu tal qual um castelo de cartas.

Com os primeiros raios do sol, correu pela vizinhança a notícia. Todos correram para acudir. Lembro-me de ter chegado ao alto da duna, em meio aos escombros, e ter encontrado todos constrangidos por algum motivo. O morador do barraco não estava. Havia ido embora, deixando para trás o pouco que tinha. Olhando os pertences do cego, com a inocência que só as crianças têm, fui eu quem falou o que todos queriam dizer, mas não tinham coragem: — Para que um cego precisa de espelho?

Foi a senha para uma explosão de fúria. “Safado! Farsante!”, gritavam os populares. “Abusou de nossa confiança aquele sem vergonha!”. Eu, que já havia aprendido que os cegos também choram, ainda levei muito tempo pensando se era possível ao cego se enxergar no espelho.

Do suposto deficiente visual, nunca mais se soube. Provavelmente rumou de madrugada mesmo para a rodoviária e partiu para ser cego em algum outro lugar.


Crônica originalmente publicada na Revista Philos nº 18.


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Engenheiro de profissão, escreve nas horas de folga. Escritor na Revista Subjetiva com trabalhos publicados nas revistas Philos, Subversa e Literalivre.

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