O fim do termo saudade como charme brasileiro

Estadão

Não lembro a primeira vez que ouvi Belchior, deve ter sido ainda na minha infância, entre trechos cantarolados sobre um medo de avião ou sobre a dureza de ser um rapaz latino-americano. O que sei e o que sinto é que poucos artistas conseguem me descrever tão bem como ele.

Acho que a palavra mais precisa seria intensidade. O intenso na dor e na alegria, no desprendimento e na crítica, na capacidade de entrega nessa louca aventura humana. Não é por coincidência que minhas descrições em perfis de redes sociais contêm suas letras, nem tão por acaso que recorro a ele nos momentos de maior desespero e como quase contei no calendário os dias para quando pudesse cantar com toda a entrega que pedia: tenho 25 anos, de sangue e de sonho e de América do Sul.

Eu tenho mais que 25 anos e tenho mais sonho e mais sangue perdido nas linhas dessa história. A revolta que vem da solidão das pessoas nessas capitais foi sendo substituída pelas pequenas nuances de sentimento nessa divina comédia humana.

Lembro de estar morando em Portugal, correndo com a entrega de um trabalho e. naquele desespero de que quanto mais multiplico, diminui o meu amor, recorri a Belchior para expressar em palavras o sentimento de pressa e pressão que quase todo mundo sente. Um amigo angolano que estava na sala e foi obrigado a ouvir, porque os fones de ouvido não conseguiam prover toda a intimidade necessária, perguntou quem eu ouvia. Segundo suas palavras, devia ser um músico nordestino que só eu ouvia. Ele estava certo em partes, mas não era alguém que só eu ouvia, porque as palavras mais faladas que cantadas, expressavam mais do que minhas dores pequenas e egoístas. São palavras que expressam a perversa juventude de tantos corações selvagens por aí.

É quase uma ironia que ele seja assim tão importante pra mim, quando ele não é exatamente da minha geração. Faz pensar que ele estava certo ao dizer que nossos ídolos continuam os mesmos de nossos pais e que as nossas aparências não enganam tanto assim.

O mundo inteiro está naquela estada ali em frente e você pode não saber, nem ver, mas o que há algum tempo era novo jovem hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer.

Não é preciso nenhuma teoria ou tramas astrais, a dureza das coisas reais consegue dar conta dessa e de outras alucinações.


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