O jogo “Baleia Azul” é verdade?

Decidi investigar o assunto que ganhou a atenção das redes sociais e da mídia nacional recentemente. Esse artigo é sobre a minha descoberta.

Imagem retirada da rede social “VK” (Foto: RFE)

Você provavelmente já deve ter ouvido falar de um jogo chamado “Baleia Azul”. A partir do final de fevereiro, dezenas de portais de notícia – tanto em inglês quanto em português – escreveram sobre o jogo, que teria se disseminado pela internet na Rússia. Supostamente, os jovens que concordavam em participar teriam que tirar as suas próprias vidas ao final de tudo.

O que se espalhou é que os jogadores concordariam em participar da “brincadeira” e, em seguida, “curadores” — ou “administradores”, dependendo da tradução — passariam uma série de tarefas que deveriam ser realizadas em um período de 50 dias. O último dever seria o suicídio, considerado como o que faria a pessoa “ganhar o jogo”.

Todas essas ações — ainda alegadamente — teriam que ser registradas, seja por meio de selfies ou mensagens sublimares. Antes do suicídio, algumas das tarefas incluiriam atos nada agradáveis como a automutilação. E, caso os jogadores desejassem desistir, os curadores os intimidariam e ameaçariam para impedir que isso ocorresse. Uma história macabra, e com um quê de Black Mirror, que interessa aos leitores logo de cara.

Mas será que tudo isso é verdade? É isso que eu fui tentar descobrir.

Esse artigo é o resultado de uma grande pesquisa, na qual me deparei com muitos textos em russo (até em búlgaro e lituano, também) e com a necessidade consequente de buscar o auxílio do Google Tradutor. Um cuidado com a apuração da verdade que, infelizmente, parece faltar na imprensa tradicional.


A reportagem da Novaya Gazeta

Os primeiros relatos acerca da existência do jogo são de um artigo, escrito em maio de 2016, da revista russa Novaya Gazeta. É dali que surgiu a alegação de que o jogo da morte da Baleia Azul — nome este que teria sido escolhido pelo modo como algumas destas baleias propositalmente encalham e morrem — teria resultado em uma onda de suicídios.

A notícia, escrita em russo, relatou dezenas de suicídios de adolescentes na Rússia ocorridos dentro de um período de seis meses. Segundo o autor, algumas dessas pessoas que teriam tirado as suas próprias vidas faziam parte da mesma comunidade de jogos online no “VK”, a principal rede social do país. O site — originalmente “VKontakte”, depois tendo o nome abreviado — funciona de maneira muito similar ao extinto Orkut, que outrora foi a rede social mais utilizada pelos brasileiros.

Foi reportado que uma série de hashtags dentro do VK, como “estou no jogo” e “acorde-me às 4:20" (horário que apesar de frequentemente associado ao uso de maconha, teria sido o escolhido para que os jogadores acordassem e realizassem as suas tarefas), estariam relacionadas à “brincadeira”.

A publicação russa continuou a relatar os incidentes que teriam ligação com o caso. Em um deles, a Novaya Gazeta fez um novo relatório, dizendo que o Centro Russo de Tecnologia da Internet teria rastreado mais de 4.000 usos das hashtags do jogo apenas no dia 20 de janeiro de 2017. Casos suspeitos também teriam sido relatados em outras nações anteriormente integrantes da União Soviética, como Ucrânia, Bielorrússia e Arzerbaijão.

No total, supostamente foram contabilizados 130 suicídios de jovens (chamados pela reportagem de “crianças”) ocorridos na Rússia, no período entre novembro de 2015 e abril de 2016. Quase todos seriam membros da mesma comunidade no VK. A Novaya Gazeta relatou, ainda, que “pelo menos” oitenta dos suicídios estariam ligados a jogos como o da “Baleia Azul”. O último artigo foi em 16 de fevereiro.


A investigação da Radio Free Europe

Ao mesmo tempo que a imprensa ocidental — por meio de tabloides como o Daily Mail — começou a noticiar o caso, em fevereiro deste ano, alguns órgãos decidiram apurar as alegações da Novaya Gazeta. Foi o que fez a Radio Free Europe (RFE).

Primeiro, constataram que em toda a Rússia — bem como em outros países da Ásia Central, como o Cazaquistão e o Quirguistão — as manchetes alarmantes sobre o jogo realmente haviam se tornado muito frequentes, sempre relatando casos de crianças e adolescentes que teriam se matado por causa do jogo.

Mas enquanto a internet russa estava em polvorosa com os perfis de jovens jogando ou procurando ingressar no jogo, fotos chocantes de automutilações com cortes baseados em hashtags do jogo e supostos links para vídeos de suicídios cometidos por adolescentes, nenhuma morte na Rússia ou na Ásia Central estava com certeza ligada ao Baleia Azul. Essa foi a principal descoberta da RFE.

Por exemplo, em 6 de fevereiro, um morador da cidade cazaque de Karaganda, aos 19 anos, cometeu suicídio por enforcamento. O incidente foi amplamente atribuído à influência de um grupo que praticaria o Baleia Azul. No entanto, o tio da vítima, Marat Aitkazin, disse à Radio Free Europe que não havia qualquer conexão entre a tragédia e o jogo da internet.

Enquanto isso, na Rússia, uma audiência realizada em 16 de fevereiro da Assembleia Federal do país para discutir uma proposta de lei que aumentava as punições por incitar ao suicídio, foi marcada por membros ouvindo alegações de que o jogo teria sido criado por “nacionalistas ucranianos”, em uma campanha profissionalmente preparada e que já teria atingido pelo menos 2 milhões de jovens. Isso tudo foi relatado pelo jornal Kommersant.

A RFE, então, apurou duas ações policiais que teriam ocorrido em duas localidades russas a respeito do jogo. Na região da Ossétia do Norte, a mídia local informou que, em 17 de fevereiro, quatro habitantes da área — incluindo dois menores — haviam sido detidos por suspeita de organizar um grupo de baleias azuis que “poderia” ter desempenhado um papel em um suicídio. O caso teria ocorrido na data de 1º de Fevereiro, vitimando um adolescente de 15 anos em Sindzikai. Já em 20 de fevereiro, os promotores de Altai abriram uma investigação devido à suspeita de que um grupo de Baleia Azul, formado por pessoas não identificadas, teriam pressionado — sem êxito — um garoto de 15 anos a cometer suicídio durante um período de três meses. Não há mais informações sobre os casos, apenas as disponíveis na pouco confiável imprensa da região.

Nos últimos seis meses, dezenas de suicídios e tentativas de suicídio na Rússia, no Cazaquistão e no Quirguistão foram provisoriamente ligados ao jogo, embora, em uma análise mais detalhada, nenhum deles tenha encontrado um vínculo conclusivo. Só que, mesmo assim, uma prisão comprovadamente aconteceu. No dia 14 de novembro de 2016, policiais de Moscou prenderam Filipp Budeikin, de 21 anos, sob a alegação de que ele seria um organizador de um “grupo de morte” de Baleia Azul. Relatos da mídia disseram que, na época, outras 10 pessoas de várias regiões da Rússia foram detidas ao mesmo tempo, mas todas — após serem interrogadas apenas como “testemunhas” — foram liberadas.

As autoridades disseram que Budeikin era suspeito de cumplicidade em 15 suicídios. No entanto, o seu advogado, Rostislav Gubenko, disse à RFE que apenas um único caso ainda estava sob investigação. Ele permanece preso, pois um tribunal autorizou a polícia a manter o jovem detido até 15 de maio. O advogado disse:

“Eu acho que eles simplesmente apressaram as coisas (…) Havia um artigo no jornal, um pouco de escândalo, pressão para fazer algo e eles pensaram que provas contra [Budeikin] iriam sair, mas não existe nada”.

Outras Apurações e Acusações

A reportagem da Novaya Gazeta, todavia, não foi criticada apenas no Ocidente. O site russo Meduza foi um dos que apontaram erros no artigo. Eles afirmam que a alegação original da Novaya Gazeta foram baseadas unicamente no fato de que muitos dos jovens que haviam se matado frequentavam as mesmas comunidades do VK. No entanto, o artigo do Medusa argumenta que é mais provável que pessoas depressivas tenham o costume de acessar as mesmas comunidades, e não que as comunidades estavam tendo efeito direito sobre o suicídio de seus membros. Uma constatação baseada em uma lição básica de estatística: “Correlação não implica necessariamente causalidade”.

Na Bulgária, outras pessoas decidiram investigar o caso. Por exemplo, Georgi Apostolov, do Centro Búlgaro pela Internet Mais Segura. Apostolov acusa os russos e, em especial, o governo de Vladimir Putin de usar as informações sensacionalistas sobre o jogo para restringir o acesso à internet. Ele cita, inclusive, uma medida similar na Turquia de Erdoğan baseada em combater pornografia infantil. O que, de certa forma, vai de encontro com as acusações bizarras no Legislativo russo sobre “nacionalistas russos” estarem por trás do jogo. Ele ainda questiona, em tom irônico:

“E é possível que mais de um ano e meio nenhum outro suspeito foi encontrado? A polícia russa e os serviços secretos não são tão ineficazes, não é?!”

Não demorou para que um jornal da mesma Rússia, o Izvestia, fizesse um artigo investigativo mais cuidadoso. A reportagem de 10 de março aponta que a rede social russa VK identificou “dezenas de milhares de robôs”, não pessoas reais, usando as hashtags relacionadas ao Baleia Azul. Haveriam ainda três outros tipos de pessoas que fazem uso das hashtags: curiosos, na tentativa de descobrir mais sobre a tendência, anunciantes, capitalizando-a para promover o que eles estavam comercializando e “profissionais testando tecnologias para disseminação de informações”.


Considerações Finais

Portanto, não há qualquer tipo de comprovação acerca de mortes relacionadas ao jogo macabro, apesar da preocupação acerca do tema em território russo. O assunto acabou levando à prisão do jovem Filipp Budeikin, nas proximidades de Moscou. Porém, o mesmo ainda não foi julgado e parece haver carência de provas acerca de sua participação no suicídio de outros adolescentes.

No entanto, a história não pode ser descartada apenas por não haver comprovação. Três fatores precisam ser analisados acerca da difusão do boato.

O primeiro é o interesse demonstrado por dezenas de jovens brasileiros em participar do Baleia Azul. Provavelmente, tratam-se de adolescentes em depressão buscando uma maneira de cometer suicídio. Sobre isso, um relato no Facebook particularmente me afetou. O dono de um movimento de empoderamento de pessoas gordas, chamado “BALEIA”, relatou ter recebido uma grande quantia de pedidos para ingresso no grupo vindo de indivíduos que pensavam que aquilo se tratava do suposto jogo da morte russo. Isso pode ser muito grave, pois demonstra o quão recorrente é, em território nacional, jovens que desejam acabar com as suas vidas. Apesar de, é claro, nada excluir a possibilidade de também se tratarem de curiosos, buscando saber mais acerca do funcionamento do Baleia Azul.

Em segundo lugar, a irresponsabilidade de alguns usuários da internet deve ser mencionada. Desde que os boatos se espalharam, em geral através de sites pouco confiáveis baseados na prática de clickbait, várias pessoas passaram a criar regras para o jogo. Em sites como o 4chan, os indivíduos que criam essas regras dizem o estar fazendo “for the lulz”, algo equivalente em português para a expressão “pela zoeira”. É por causa da atitude de pessoas assim que o boato pode, de fato, se transformar em algo real e incentivar pessoas a se matarem.

Por último, a irresponsabilidade de alguns órgãos tradicionais da imprensa brasileira precisa ser criticada, por não apurarem bem a notícia. No exterior, o único jornal de relevância a publicar uma matéria acerca dos acontecimentos foi o Daily Mail. O tabloide é o segundo mais lido do Reino Unido (perdendo apenas para o The Sun), no entanto, nunca foi sinônimo de confiabilidade. Até a Wikipédia o considera uma fonte não confiável.

Isso não impediu com que portais brasileiros publicassem notícias, a partir do final de fevereiro deste ano sobre o tema, assumindo que tudo dito pela Novaya Gazeta há um ano era verídico. Dentre eles, a TV Record, o Portal Vírgula (hospedado no UOL), a Revista Capricho e o Último Segundo, do IG. É muita irresponsabilidade. Além de mostrar um ínfimo comprometimento com a verdade, demonstra uma enorme irresponsabilidade dos jornalistas, que “deram Ibope” para um jogo suicida.

Felizmente, em alguns espaços, pessoas comprometidas com os fatos ainda existem.


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