O nazismo é de esquerda?

Busquei fazer o post definitivo sobre essa questão.

Manifestantes em Charlottesville: grupos neo-nazistas marcaram presença. (Foto: AP Photo/Steve Helber).

Tenho observado um número grande de pessoas compartilhando informações de que o nazismo seria um movimento de esquerda, ou ainda uma vertente do socialismo, uma forma de marxismo. No início, tinha a crença de que um texto como esse não fosse necessário. Que o absurdo dos argumentos seriam percebidos facilmente, e que a discussão se restringia a uma parcela abominável da direita.

Com os acontecimentos de Charlottesville, no entanto – onde uma manifestação neo-nazista aconteceu –, e as discussões que os sucederam, percebi meu equívoco. E, por isso, esse texto tentará refutar todos os argumentos utilizados para relacionar o nazismo ao marxismo e o porquê da ideologia de Hitler ser considerada de extrema-direita, e não de extrema-esquerda.

Esquerda e Direita: O que isso significa?

Essa parte deveria ser óbvia. No entanto, infelizmente, a disseminação recente de textos de “institutos” cuja orientação ideológica é a libertária e outros argumentos conservadores sem fundamento acabaram deturpando ambos os conceitos. A origem dos termos para designar posições políticas é famosa: na Assembleia Nacional formada na França após a Revolução Francesa, em 1791, os deputados girondinos ficavam na direita e os montanheses nos assentos da esquerda.

Em 1791, a direita revolucionária – com cerca de 260 membros parlamentares e cuja maioria era inscrita no Clube dos Feuillants – defendia a monarquia constitucional como sistema político para a França. Algo no estilo da Inglaterra, que na época, já funcionava com o modelo bicameral de hoje – com Câmara dos Lordes e dos Comuns.

Já a esquerda, por sua vez, era menos numerosa no início, com 136 deputados. Eram os “montanheses” – também chamados de “jacobinos”, já que a maior parte era membra do Clube dos Jacobinos; apesar disso, havia uma parcela membra do Clube dos Cordeliers. Nem todos eram republicanos à época, mas todos eram desconfiados em relação ao Rei Luís XVI. Aqueles que não eram adeptos da república defendiam ideias como fazer com que o filho do monarca morasse nos Estados Unidos até a maioridade, para que aprendesse os ideais iluministas. Ou seja: eram mais radicais, desejavam mudanças maiores.

“A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix.

Essa é a origem de tudo: a esquerda desejava alterar o status quo, realizar mudanças mais profundas, aprofundar a Revolução. A direita, por outro lado, acreditava que havia sido alcançado o limite do período revolucionário. Desejavam conservar, efetuar poucas modificações – de forma a manter a monarquia, por exemplo. Logo, contudo – com uma grande mudança no cenário político francês –, as diferenças futuras ficariam ainda mais claras.

Essa alteração aconteceu já em 1792, um ano depois, com a traição de Luís XVI (ele estava ajudando a Áustria na guerra contra os franceses) tendo sido descoberta, outra assembleia foi eleita por sufrágio universal e recebeu o nome de Convenção. Nela, os jacobinos passaram a ter maioria e o período republicano teve início, uma vez que, após a conspiração do Rei, a ideia ganhou bastante força.

Assim, já em 1793, Luís XVI foi executado. Apesar de o período ser conhecido como “Terror”, por conta da perseguição política encabeçada por Robespierre — líder jacobino — , o governo promoveu medidas revolucionárias para a época e louváveis. Foi instituído, por exemplo, o ensino público gratuito. Além disso, se assegurou o Estado Laico e a escravidão foi abolida. Enquanto isso, todavia, na economia, os jacobinos tentaram controlar a inflação através da Lei do Preço Máximo, o que não deu certo.

Desenho irônico da época que mostra Robespierre executando o carrasco.

No final, Robespierre ficou tão alucinado que fez o Tribunal Revolucionário “guilhotinar” não só adversários como alguns de seus aliados políticos – caso de Danton, por exemplo. Diz-se que, devido ao tamanho gigantesco de execuções levadas a cabo na Praça Concórdia, em Paris, o lençol freático ficou contaminado de sangue. Dessa forma, a ideia de um golpe ganhou força e se concretizou, de maneira a tirar o jacobino do poder em julho de 1794, cinco anos após a Queda da Bastilha, para em seguida sentenciar o líder da Convenção à morte.

O novo governo, o Diretório, tratou logo de tentar reinstituir a escravidão – o que originaria a independência do Haiti – e revogar as demais inovações jacobinas. De fato, portanto, eram reacionários — no sentido literal da palavra — , pois preferiam o estado antigo das coisas.

Com o tempo, as definições de esquerda e direita foram se alterando com a criação de novas linhas de pensamento, mas algumas características da época da Revolução Francesa foram mantidas. Uma delas – e que realmente ficou – é a preocupação maior de cada grupo dentro do lema revolucionário: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Enquanto os jacobinos priorizavam a parte da “igualdade” da revolução, boa parte dos girondinos eram maiores adeptos da “liberdade”. É a origem das discussões entre a direita liberal e a esquerda. A outra diz respeito ao fato da direita ainda ser identificada com os reacionários e conservadores.

Havia também, durante o período revolucionário na França, grupos reacionários que desejavam o absolutismo. Grande parte destes emigraram para a Áustria e lutaram junto com os militares austríacos contra o governo francês da Revolução, e mais de uma vez. Mais tarde, por serem mais próximos dos girondinos – afinal, estes eram originalmente monarquistas – do que dos jacobinos, passariam a serem categorizados como “direita” também, só que mais ao extremo. Já os comunistas, que passariam a existir em meados do século XIX ao se tornarem adeptos das ideias pregadas por Karl Marx em suas publicações, se aproximavam mais dos jacobinos – e o desejo por igualdade deixa isso claro. Por isso, foram vistos como de “esquerda”.

Dessa forma, para a definição tradicional de esquerda e direita, regimes autoritários não marxistas geralmente são identificados como de direita, enquanto os comunistas – ou socialistas científicos, regimes de ditadura do proletariado – com a esquerda. O que, por si só, manteria o nazismo no campo da direita. Além disso, tendo em vista o fato da direita abrigar os conservadores e aqueles que acreditam na tese de que o passado era melhor que o presente – e para ele desejam retornar, o nazismo mais uma vez deve ser visto como de direita.

O historiador Eric Hobsbawm, por exemplo, aponta para o fato de os fascistas invocarem valores tradicionais, mesmo sem serem tradicionalistas. A retórica era de ódio à República de Weimar – o presente – e retorno para um passado tradicional, que supostamente seria melhor que aquele presente. Por isso, Hitler sempre resgatava a memória do Império Alemão, da Prússia e das grandes guerras do passado, como a Guerra Franco-Prussiana, que posta em contraste com o fim da Primeira Guerra, servia muito bem para seu discurso político.

O fascismo, tanto na Itália quanto na Alemanha, também era conservador em muitos outros aspectos, como sendo contrários ao direito das mulheres votarem – algo que os marxistas instituíram na União Soviética assim que a revolução triunfou – e se opondo à arte moderna, considerada muito pior que a arte tradicional – o que deu origem a eventos como o da Arte Degenerada.

Mesmo assim, existem várias pessoas cujo argumento para a categorização do nazismo como ideologia de esquerda diz respeito ao fato de o Terceiro Reich contar com um Estado forte. Esse é um argumento bastante bobo e difundido pelos anarco-capitalistas, mas que é bastante fácil de refutar.

“Maior atuação estatal é de esquerda; menos, de direita.”

Não é verdade. O nazismo de fato era anti-liberal, de forma que não acreditava em políticas universalistas e descentralizadas, mas também – e até principalmente – era anti-comunista. Assim, o Estado Nazista era contrário à luta de classes e não pretendia combater a desigualdade econômica e nem social – como desejaria a esquerda. O nazismo, também ao contrário do socialismo, não desejava abolir a propriedade privada e nem coletivizar os meios de produção, mas sim garantir a arianização da economia, buscar alianças com grandes empresas “verdadeiramente alemães” e construir um estado corporativo.

O Terceiro Reich – um Estado que pretendia ser racialmente hegemônico, escravizar e eliminar raças inferiores – constituía-se, portanto, como um modelo de capitalismo excludente e estatal. Nada mais distante do que qualquer posição de esquerda, preocupada com a igualdade sócio-econômica. Ao contrário: o motivo de existência daquele Estado era manter a desigualdade, mas uma diferente daquela que os marxistas costumam falar sobre (e combater): o governo garantia a manutenção das diferenças raciais, em vez de tentar combater a desigualdade econômica.

Adolf Hitler e Joseph Goebbels, seu braço direito.

O fato de o Estado ser centralizado e de empresas estatais – como, inclusive, a Volkswagen – terem sido criadas por Hitler não significa, de forma alguma, que este seria de esquerda. De fato, tais atitudes o afastam de um modelo estatal defendido pelos defensores do liberalismo. No entanto, a extrema-direita é bastante distinta da direita liberal e democrática desde os tempos da Revolução Francesa, caracterizando-se pelo autoritarismo. E, de qualquer forma, o Estado dos nazi-fascistas, também, se distancia daquele idealizado por Marx ou até mesmo do Welfare State.

Toda a ideia de relacionar qualquer intervenção estatal ao socialismo marxista – e a falta desta ao liberalismo – está errada. Existem liberais capitalistas que, baseados em Adam Smith e, mais a frente, Milton Friedman, defendem o encolhimento do Estado. Ao mesmo tempo, há anarquistas de extrema-esquerda que pregam o fim do Estado. Da mesma forma que os leninistas desejavam, no início do período revolucionário, o Estado Total, os fascistas assim o queriam também, mas por outras razões e para agir de outra maneira.

Para pegar um exemplo bem brasileiro: a ditadura militar tinha um Estado forte, com atuação sobre a economia e autoritário – portanto, longe do sonho liberal. Mas não é por isso que se pode cosiderá-la de esquerda, algo que seria ofensivo tanto para os seus atuais apoiadores – como Bolsonaro e seus seguidores – quanto para os antigos militares, como Médici e o general Costa e Silva. Além disso, será que para esse grupo de pessoas o Luís XIV – monarca absolutista antes do socialismo pensar em existir – seria comunista? A “quantidade” de Estado não define a sua posição ideológica.

“Os nazistas eram anti-capitalistas, portanto, de esquerda.”

Mas isso ainda não convence todo mundo. Há aqueles que caracterizam o nazismo como de esquerda apenas pelo seu caráter anti-liberal, apesar de, como demonstrarei, essas pessoas estarem erradas também. E sabe quem concordava com tudo isso? Os principais libertários do século XX, aqueles que alguns dos supostos anarco-capitalistas da atualidade dizem seguir e adorar ler enquanto relevam e flertam com o proto-fascismo. Friedrich Hayek, por exemplo, diz em “O Caminho da Servidão”:

“Foi a união das forças anticapitalistas da esquerda e da direita, a fusão do socialismo radical e do socialismo conservador, que destruiu na Alemanha tudo quanto ali havia de liberal.”
(Hayek em “O Caminho da Servidão”, página 164)

Já Ludwig von Mises – cujo nome deu origem a um grupo brasileiro que adora passar vergonha – é o autor do livro “O Livre Mercado e Seus Inimigos”, que em sua página 20, oferece essa passagem:

“Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o famoso filósofo alemão, deu origem a duas escolas – os hegelianos de «esquerda» e os hegelianos de «direita». Karl Marx era o mais importante dos hegelianos de «esquerda». Os nazistas vieram da «direita» hegeliana.”

Mas mesmo assim, ainda existem aqueles que continuam afirmando que os nazistas seriam próximos ao marxismo, e não anti-comunistas. Dessa forma, para deixar de vez isso de lado, vamos dissecar esse argumento falacioso.

Nazismo e marxismo: uma relação de ódio.

1 – A Questão do Nome: O Termo “Socialismo” e os Trabalhadores.

Sim, o nome oficial do partidos que abrigava os nazistas era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). No entanto, isso não deve ser interpretado de maneira tão superficial como fazem aqueles que acusam os nazistas de serem socialistas unicamente por causa do nome oficial da antiga legenda alemã.

Em primeiro lugar, os nomes pouco significam: o que importa é a prática. O maior exemplo possível está aqui dentro do Brasil. Dentre as siglas que se definem “sociais-democratas”, por exemplo, há o PDT, o PSDB, o PROS, o PPS, o PSD e a REDE. Mesmo assim, os poucos que são movidos pela ideologia – no caso, a social-democrata – se identificam com algum desses partidos.

Os exemplos são inesgotáveis: de Getulista o PTB não tem nada, o PP não é progressista e sim conservador, e isso sem contar todos os partidos que se utilizam do nome “socialismo” sem o defender de fato. Como o PPS, o Partido Popular Socialista, que apoia Temer – possuindo até um ministério no governo – e sendo definido, pelos outros, como de centro-direita. Mas o maior exemplo é o PMB, o Partido da Mulher Brasileira, que já chegou a contar com com 22 deputados federais e um senador. Desses, apenas dois parlamentares eram mulheres: as deputadas Brunny e Dâmina Pereira. E o único senador do grupo, Hélio José (agora no PMDB), já foi, inclusive, acusado de abuso sexual.

Mas o fato de o partido dos nazistas contarem com a palavra “socialista” não é por acaso. A Europa, ao fim da Primeira Guerra, foi tomada por movimentos de ódio ao sistema – que era liberal –, de maneira que o fascismo ascendeu na Itália em 1922 e o comunismo no antigo Império Russo em 1917. Com essa onda de anti-capitalismo, nos dois extremos do espectro político, a nomenclatura “socialismo” – que não é um nome apenas marxista, erro que acontece pelo fato de o filósofo ter criado uma nova corrente deste, o socialismo científico, em contraste ao utópico – entrou na moda, sendo adotado por uma parcela da direita também.

Dessa forma, o sociólogo alemão Oswald Spengler elaborou o conceito de “socialismo prussiano”. Ele entendia esse socialismo como pragmático e contrário, oposto, ao materialismo proletário do marxismo. Esse movimento iniciado por ele, portanto, nunca defendeu a abolição da propriedade privada, por exemplo. Além disso, o fato de ser “nacional”, por si só, já é totalmente oposto ao internacionalismo defendido pelo barbudo comunista. O próprio Spengler falava em criar um socialismo “livre de Marx”. E em um momento no qual o anti-capitalismo estava “na moda”, por se assim dizer, alguns conservadores se afastaram da direita tradicional e passaram a se auto-denominarem socialistas alemães.

Uma fala de Spengler deixa bem exposta a diferença com o marxismo, que considera a luta de classes o motor das civilizações: “O significado do socialismo é que a vida não é controlada pela oposição entre ricos e pobres, mas pelo grau que a conquista e o talento conferem, que é a nossa liberdade, a liberdade do despotismo econômico do indivíduo”.

Não há dúvida que ele e seus seguidores eram de direita. Os trechos já mencionados aqui, dos livros de Hayek e Mises, já deixam isso claríssimo por si só. O primeiro falava de forças anticapitalistas na direita e na esquerda, enquanto o segundo de “hegelianos” esquerdistas, como Marx, e “hegelianos” direitistas, como os nazistas. Ou seja: o socialismo não é um nome exclusivo de Marx, ou até mesmo da esquerda. E existem forças anticapitalistas em ambos os lados do espectro político.

E qual a razão de, no nome do partido, haver menção aos trabalhadores? “Isso prova que eles são esquerdistas”, já me disseram. Contudo, isso não é verdade. Durante esse período entre as duas grandes guerras e a ascensão de movimentos anticapitalistas, os grupos políticos viam a necessidade de “cooptar” os operários e trabalhadores em geral. Caso contrário, o marxismo estaria muito fortalecido em todos os lugares do mundo. Na Península Itálica, o fascismo de Mussolini fez esse papel, agregando o proletariado e os transformando em anti-comunistas.

Em outros lugares do globo terrestre, o Estado do Bem-Estar Social, através de leis trabalhistas e da garantia de outros direitos, fez com que a democracia fosse apoiada pelo operariado. No Brasil, Getúlio Vargas assegurou o suporte da população desfavorecida da mesma forma – inclusive “estatizando” datas antes ligadas intrinsecamente ao marxismo, como o Primeiro de Maio – e não é por acaso que o ditador ganhou a alcunha de “Pai dos Pobres”. É por conta dele que o PCB e o Integralismo não foram ainda mais fortes em solo nacional nos anos 30.

Na Alemanha, não era diferente. Após a Primeira Guerra Mundial, uma república democrática foi fundada, com base em Weimar, pelos social-democratas. E os principais grupos oposicionistas desse projeto eram os nazistas e os comunistas, com ambos disputando o apoio laboral. Colocar “trabalhadores” no nome e buscar um discurso que os agradassem, portanto, era uma estratégia política, que não só era necessária para eles como foi fundamental para a vitória do projeto nazi contra o comunista no país.

2 – O Comunismo e o Nazismo como Oponentes.

Dessa forma, ambos os grupos eram adversários diretos na Alemanha republicana que nasceu do fim da Primeira Guerra. Os projetos eram rivais e disputavam a popularidade dentre aqueles que não gostavam da República de Weimar. O fascismo, em todos os locais no qual ascendeu, já era anti-comunista por natureza: Mussolini, por exemplo, convenceu o Rei a nomeá-lo como Chefe de Governo justamente por isso, para impedir a ascensão comunista. No entanto, na Alemanha, isso era ainda mais intensificado, uma vez que ambos disputavam, democraticamente, o mesmo eleitorado.

Adolf Hitler era um anti-comunista convicto antes mesmo de se tornar nazista, ou seja, de se filiar ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Esse sentimento com certeza aumentou logo ao fim da Primeira Guerra, quando ele se surpreendeu ao retornar para a sua casa, como descreve o historiador e biógrafo Ian Kershaw.

No dia 21 de novembro de 1918, dez dias após a assinatura da rendição alemã e apenas dois dias depois de Hitler deixar o hospital em Pasewalk — no qual estava nos instantes finais da guerra, tendo ficado até cego por um breve período de tempo — , o homem que viria a se tornar ditador da Alemanha voltou para Munique, na Baviera. E acabou encontrando um cenário por ele totalmente desconhecido: a cidade havia sido tomada por uma revolução de esquerda, tal como acontecera pouco antes na Rússia ou, melhor comparando, na cidade de Paris no ano de 1870.

O governo revolucionário da Baviera, sob a forma de um Conselho Nacional provisório, era liderado pelos mais radicais social-democratas, do Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USDP). E o ministro-presidente, Kurt Eisner, era um radical – e um judeu. Aliás, Eisner era um defensor da paz há muito tempo, e encabeçou a Greve de Janeiro de 1918 com esse fim – de forma a fortalecer o argumento da “punhalada das costas” por judeus e comunistas, que Hitler defendia acerca do fim da guerra.

A experiência revolucionária duraria de novembro de 1918 e maio de 1919, e mesmo tendo tido poucos meses de existência, traumatizaria os bávaros por muito tempo – fortalecendo a ressonância das falas de Hitler em Munique, onde o partido dos nazistas nasceu e se solidificou. Foi um período de pouca liberdade, com escassez de comida – até porque o bloqueio marítimo britânico durante o conflito, mesmo tendo tido fim, ainda surtia efeito –, censura de imprensa, sequestro de alimentos, carvão e roupas, desordem e caos generalizados.

Isso tudo foi agravado após fevereiro de 1919, quando um contrarrevolucionário assassinou Eisner, então ministro-presidente. Os seus correligionários, após o evento, viram a necessidade de partir para a última etapa da revolução e proclamaram a Räterepublik (República dos Conselhos), uma tentativa de implementação do modelo soviético para Munique e o restante da Baviera. Foi um fracasso, e a cidade se viu imersa em uma miniguerra civil, desencadeando uma onda de brutalidade e derramamento de sangue.

O período revolucionário não foi extremamente marcante somente para os habitantes civis de Munique, mas também para Hitler, que viu a experiência comunista de dentro do Exército, o qual havia passado a ser comandado por conselhos de soldados, acabando com a hierarquia e enfraquecendo a disciplina. Desses meses, não só o homem que viria a se tornar o chanceler da Alemanha em 1933, mas boa parte do povo bávaro formou de vez a sua opinião de ódio em relação ao comunismo, passando a odiar o bolchevismo mais do que qualquer outra coisa.

E já que muitos daqueles líderes da esquerda eram judeus, o episódio não podia ter sido melhor para Hitler, que acusava o comunismo de ser um instrumento de dominação judaico e sobre o qual falava com ódio. Qualquer dúvida em relação a isso pode ser tirada no livro Mein Kampf, que responde e refuta diretamente ao argumento de uma parcela da direita brasileira de que Hitler flertava com (ou era) marxista.

O Mein Kampf (em português traduzido como “Minha Luta”) — que foi escrito pelo próprio Hitler no período em que passou preso, após uma tentativa fracassada de efetuar um golpe na Baviera, evento este conhecido como Putsch da Cervejaria ou ainda Putsch de Munique — é considerado a “Bíblia” dos nazistas. Nele, logo no início – na página 22 da edição traduzida da Centauro, sendo específico –, o nazista afirma: “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”.

Na página 127, Hitler deixa explícito novamente como via o comunismo: “O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria”. Ou ainda pode-se citar a página 32, na qual ele diz: “Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana”.

Em resumo, não há nenhuma dúvida de que a opinião dos nazistas e de Hitler em relação ao comunismo e o socialismo marxista sempre foi a mesma, e não era nada boa. Tanto que, ao se tornar ditador e passar a perseguir seus adversários políticos, Hitler começou não só pelos judeus, mas também pelos comunistas.

3 – O Nazismo e a Redistribuição de Renda: a “Esquerda” dos Nazis.

No entanto, dentro do NSDAP, existia uma ala mais à esquerda. A SA era a principal força desse grupo, liderada por Ernst Röhm, defendendo o acontecimento de uma segunda revolução. Para eles, era preciso haver uma redistribuição de riqueza pela sociedade, e Hitler deveria realizar isso.

Em geral, a corrente dessa esquerda do nazismo era chamada de “strasserismo”, e os seus apoiadores defendiam um nacional-socialismo mais hostil ao capital financeiro, mesmo que isso fosse por causa do anti-semitismo do grupo, que relacionava o capitalismo e os burgueses aos judeus. Ernst Röhm era o nome mais forte, pois era o maior líder da Sturmabteilung (SA), organização paramilitar nazista com 3 milhões de membros e por defender abertamente a segunda revolução.

Não dá para dizer que o líder nazista lidou bem com essa oposição interna. Na noite do dia 30 de junho para o 1º de julho do ano de 1934, Hitler – não só por discordar deles, mas por temer a independência da SA e desejar unificar politicamente o NSDAP em torno de si próprio – ordenou a execução de dezenas de seus adversários políticos. O expurgo realizado pela SS e a Gestapo, nessa noite que viria a ser conhecida como a “Noite dos Longos Punhais”, além de tornar o nazismo um partido unificado, garantiu o apoio do exército alemão ao nazismo e acabou com qualquer sinal de esquerdismo no Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Por fim…

Tendo tudo isso em vista, não dá para entender o argumento de que o nazismo seria de esquerda ou de que teria semelhança com o marxismo. Aliás, não é algo para ser entendido, pois não há sentido lógico nessa afirmação. O fato de haver um grande debate em torno disso é fruto da desinformação e da ignorância.

Não existe nada, para mim, mais perigoso que o revisionismo histórico (tanto que já escrevi sobre o tema anteriormente aqui no Medium, criticando justamente um grupo de marxistas). E a própria ascensão do nazi-fascismo comprova isso, uma vez que a tese da “punhalada nas costas” — que os alemães não haviam perdido a Primeira Guerra, mas sim traídos por judeus, comunistas e social-democratas — foi fundamental para tornar o nazismo um movimento político forte.

A tentativa de alterar a História é extremamente preocupante. Porque, afinal, como diz a mais famosa frase de George Santayana, “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Essa fala, aliás, costuma ser atribuída a Edmund Burke, por causa de um trecho similar que pode ser encontrado em uma de suas obras. Veja só o perigo de não conhecer o passado.


Recomendações de Leitura

Hitler – Uma Biografia, de Ian Kershaw.

Hitler (dois volumes), de Joachim Fest.

Terceiro Reich (trilogia “A Chegada”, “No Poder” e “A Guerra”), de Richard J. Evens.

Para ler com cuidado:

Minha Luta, de Adolf Hitler.

The Decline of the West, de Oswald Spengler.


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