O neo homus Lovecraftus e o pós modernismo.

Em Novembro deste ano faz-se 100 da publicação de Dagon, conto de H.P Lovecraft autor de ficção científica e horror cósmico, que achou na internet solo fértil para a proliferação de suas obras mais aclamadas e em sua mitologia calcada em seres de poderes absolutos, sublimes, cujas formas e pensamentos se estendem para além da compreensão humana, não tendo em si moral ou qualquer apreço pelas formigas que se entendem como homens.
Mas, ao colocar os Cthulhus Mythos em perspectiva olhando a fundo dentro da vida de seu autor, de sua escrita e até mesmo dentro da sua própria mitologia, um detalhe não pode, e sequer deve ser ignorado.
Não é segredo para ninguém que esteja disposto a encarar as obras com seriedade que Howard era profundamente racista, xenófobo e elitista não só em sua vida pessoal, mas sua escrita e até mesmo a mitologia de Cthulhu são calcados na não-compreensão do estranho, daquilo que está para além do que seria civilizado.
Não é possível, como muitos insistem em fazer e dizer que “É preciso ler com o olhar da época” ou “desassociar da escrita”, pois Howard não poupa seu desprezo na descrição de pessoas de cores ou outras nacionalidades em seu próprio texto, não suficiente, é parte integral dele para a compreensão no que diferencia o protagonista, branco e europeu/americano, racional e civilizado do negro/amarelo/pardo/latino/afins pagão, bárbaro.
Até o mesmo o conceito das criaturas é baseada nisso, se decidir colocar sob uma perspectiva psicológica, em como muito das fobias de Lovecraft estão personalizadas em arquétipos monstruosos, dando destaque para o Faraó Negro em específico, que é quem age maliciosamente na terra, convertendo homens para seu culto, quem destila a loucura por onde passa e sempre é um forasteiro.
Porém, é possível se utilizar da figura do autor, de seus personagens e das suas obras para compreender o conflito que está ocorrendo agora na mente e nos corações da sociedade, mais especificamente, a brasileira.
Utilizando do artigo do Doutor em Literatura Comparada pela UFRJ, Alexander Meireles da Silva, intitulado O homus Lovecraftus Contra A Humanidade, publicado pela Revista Abusões vol. 4 3º ano, onde usando dos protagonistas dos contos “Dagon” (1917), “O Chamado de Cthulhu” (1926) e “A Sombra Sobre Innsmouth” (1927), argumenta o horror existencial que o homus Lovecraftus se deparou a época em vista da chegada da Modernidade, afetando-lhe principalmente sua noção de identidade.
Aqui, a intenção é utilizar deste mesmo molde para a melhor compreensão de como a chegada e do estabelecimento de tempos pós-modernos, afeta e se prova uma aberração incompreensível para o homem moderno, que em vista
disto, não suporta o peso deste impacto e se volta para a conservação de seus valores, mesmo que isso signifique um retrocesso civilizatório.
HOWARD PHILLIPS LOVECRAFT, SUAS OBRAS E SEUS ERROS

É ideal dar-se o contexto, ainda que, aqueles já íntimos de suas obras e trabalhos já estejam exauridos de ouvir estas informações, estas se tornam essenciais para compreender como a época em que este viveu e os conflitos que se originaram durante sua idade adulta escorreram para sua obra.
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890 em Providence, descendente de uma das famílias mais ilustres, filho de um negociante de joias e metais preciosos, o escritor teve durante algum tempo, berço de ouro e todo os privilégios que uma família aristocrata com raízes puritanas poderia ter, antes da doença de Winfield Lovecraft padecer de sífilis, que o levou à loucura e o deixou sozinho com sua mãe, que também começava a padecer de problemas psicológicos. Restando ao avô, Whipple van Buren Phillips o encargo de sustentar a família, e neste processo estimulando o neto no ato da escrita e do estudo, já sendo ressaltado pelo autor que a biblioteca do avô era onde mais passava seu tempo.
Com a morte do avô, a família Lovecraft padeceu de mais uma crise e o jovem Howard viu-se perder todos os seus privilégios aristocratas, desde então, não conseguir atingir seu desejo de entrar na universidade, objetivo este que tanto almeijava, tendo com isso que acabar por ganhar a vida como escritor de revistas de pulp e durante algum tempo como jornalista.
Sua vida mudaria quando se casaria com Sonia Greene, acabando por se mudar ao Brooklyn em Nova Iorque, casamento este que não durou muito tempo, acabando em um divórcio amigável e seu retorno a Providence, onde moraria até morrer em 1937 devido a um câncer no estômago não tratado. Seu contexto, não só territorial, temporal e cultural era de um choque.
Com as ideias de Sigmund Freud sobre a psique humana, Charles Darwin sobre a evolução humana, dentre outros, o século 19 ficava para trás e consigo, vinha o século 20. A modernidade vinha em passos rápidos e viria a colocar em cheque toda a noção identidade, suas crenças e seus valores, que não só eram questionados, mas sendo deixados para trás, mas no contexto americano, mais um fator entrava e que seria fundamental: A chegada dos imigrantes e com eles, vinham o choque de culturas opostas, o tão conhecido “multiculturalismo”, um dos aspectos que o sonhador de Providence mais odiava em testemunhar no Brooklyn.
Não é exagerado declarar que, se não se encontrava aqui uma “decadência” dos valores puritanos, se presenciava ao menos, sua dissipação.
Entretanto, Howard se encontrava não só alinhado com os valores puritanos de sua terra natal, mas também, com os valores iluministas, que em si, já era o começo do “modernismo”.
O projeto “moderno” nasce com os esforços iluministas que procurava desenvolver uma ciência objetiva, a moralidade e a lei universal, a arte autônoma nos termos da lógica própria interna dela mesma, assim, usar o acúmulo de conhecimento gerado por muitas pessoas trabalhando livre e criativamente para a emancipação humana e do enriquecimento da vida diária, consequentemente, isso traria o domínio sobre a escassez, da necessidade e das calamidades naturais.
A ordem social agiria de forma racional para sua libertação da irracionalidade do mito, da religião e do uso arbitrário do poder, até mesmo do lado sombrio do próprio humano. Somente através deste projeto idílico, todo o potencial humano poderia ser alcançado e as qualidade eternas e imutáveis se mostrariam. Alinhado a isso, havia-se a crença da existência da única resposta para toda e qualquer pergunta, logo, o mundo podia ser controlado e organizado dentro de um modo racional, se presentado da maneira correta. Uma das coisas que Lovecraft detinha muito próximo de si em sua forma de entender o mundo e o centro do universo civilizado com branco e europeu.
É na queda desde preceito por volta de 1848 que também viria o conceito da geometria não-euclidiana, formas que, para o sonhador de Providence era inconcebível e não compreensível.
Ainda que Howard, à primeira vista não pareça abarcar a crença iluminista, é ideal se ter em vista que, isso não se confirma se, pensado que, para este, a razão e racionalidade superior, artifícios recorrentes da corrente descrita, pertencia ao homem branco europeu.
Com isso em vista, os protagonistas das histórias de H.P Lovecraft nada mais são do que o iluminista, que ao se deparar com o novo projeto moderno emergente, o ato da a mera existência do diferente, se torna incapaz de conceber aquilo, incapaz de domínio daquilo, pois desafiava a própria noção de um mundo possível de dominância da razão.

A biografia de Lovecraft demonstra não só os valores e seus conceitos aristocráticos ruindo, mas sua própria construção de identidade arrigada em seu sentimento de superioridade não encontrando espaço na sociedade do século 20, tendo que dividir espaço com outros tipos de pensamentos, mas acima de tudo, outros tipos de pessoas.
Resultado da onda imigratória na década de 1980, este não partilhavam da classe que ele detinha, enxergando estes, como boa parte dos cidadãos americanos, como uma ameaça à sociedade pela mudança que este trazia, tendo em vista que a maioria destes imigrantes terem sua origens no leste europeu e da América Latina, que não partilhavam das mesmas religiosidades e crenças culturais puritanos, nem mesmo da mesma raça tinham.
Dessarte, a mentalidade do escritor se revelam, sendo mais constante, seu racismo e xenofobia, ainda que traços de homofobia, antissemitismo e sexismo sejam possíveis de sejam encontrados, é essencial que o ódio primitivo a anuncio da modernidade este se escorrem para a escrita de Lovecraft, contribuindo para consolidação do que veio a ser conhecido como cosmicismo.
No artigo do Prof. Dr. Meireles da Silva, o papel dos protagonistas dos contos de Lovecraft que se deparam com ameaças além do conhecimento e alcance da civilização, voluntariamente ou não, tendo suas vidas marcadas por isto é a crítica do autor a Modernidade, algo que o professor veio a cunhar como ‘’homus Lovecraftus’’ sendo encontrado no próprio conto Dagon, que viria a iniciar o Cthulhu Mythos, e no próprio Chamado de Cthulhu, que consolida este universo e se apresentam os elementos que demonstração a visão do escritor sobre o momento.
O HOMUS LOVECRATUS
Na descrição do Prof. Dr. Alexander Meireles da Silva, o homus Lovecratus se caracteriza pelo homem (no caso dos contos, o personagem) que adentra em espaços e lugares que lhe são estranhos, buscando ali ordem em meio ao caso, no entretanto, estes ambientes não só são resistentes a sua racionalização, mas são incapazes de serem compreendidos pela ótica iluminista, resistindo a qualquer controle.
Desde sua exploração ou testemunho, o homus Lovecratus é exposto a uma realidade da qual não é capaz de compreender e se percebe inseguro diante dele. Utilizando de citações de Marx sobre a modernidade, o artigo demonstra que até mesmo a utilização da água em ambos os contos só demonstração como tudo que antes era dado como certo e sólido, se desmancham na fluidez e na ostensividade, ilustrando o impacto da Modernidade sobre estes seres.
Seu dinamismo e flexibilidade o assustam. Ainda que a utilização de seres aquáticos seja derivada da repulsa de Lovecraft a seres aquáticos e a falta de conhecimento do que haveria por debaixo dos oceanos, não é impossível perceber como o elemento água aqui funciona dentro da construção da crítica e da rejeição do sonhador de Providence ao século 20.
O marinheiro que navegava por essas mesmas águas, encontra por debaixo daquele véu de ignorância, a realidade que desafiam sua compreensão do que seria mar, encontrando ali mais do que ele julgava que existia nele, tornando seu ambiente antes familiar, algo incompreensível e que resguarda perigos da qual vem a ser contaminado para sempre, não sendo capaz de lidar com a descoberta de Dagon.

Em vista das forças externas desconhecidas, o homus lovecraftus padece diante do horror, sua realidade é assolada por ‘’demônios dos espaços insondáveis’’ e aquilo que julgava certo se desmancha ao ar. É nessas criaturas que ele encontra o Outro, o anti-eu, e nessa luta, somente encontra a si três finais: A morte, a insanidade ou a contaminação pelo horror.
Para este ser, isto era a representação do impacto que a Modernidade exerceu sobre o morador de Providence, que em seu tempo em Red Hook, em Nova
Iorque, presenciou daquilo que chamou de “sujeira”. Aquilo que era atrasado e barbárico, aos olhos do escritor, não só estava no seu lar, diante dos seus olhos, se tornam arautos da própria Modernidade e a extinção da tradição civilizatória até então tida. Para Lovecraft, pior do que a morte ou a insanidade, é a identidade do ser sendo colonizada por estes seres.
O destino final do homus lovecraftus é o fracasso na tentativa de manter seus costumes, pensamentos e valores no mundo que era submerso pelas águas da modernidade e pelos seres que habitam nela.
A QUEDA DO MODERNISMO E ASCENÇÃO DA PÓS MODERNIDADE
O projeto utópico da corrente iluminista não resistiu ao se deparar com o século XX, o século do holocausto, do militarismo, nazifascismo, dos campos de concentração, de duas guerras mundiais, por fim, o fantasma da aniquilação nuclear. O desencanto aos conceitos do iluminismo foi tão profundo ao ponto de erguer-se suspeitas que este mesmo projeto otimista tinha este mesmo destino; se canibalizar e se perverter, transformar sua busca de emancipação em sistema de opressão, utilizando o nome da libertação da raça humana. A lógica oculta é que, a racionalidade iluminista é a lógica da dominação e da opressão, com essa atitude, traz consigo a ânsia pela dominação da natureza humana e desata na sua própria auto dominação. (Dialética do Esclarecimento, Horkheimer e Adorno, 1972).
O ser moderno era aquele que se encontrava em um ambiente que prometia aventura, poder alegria, crescimento, transformação de si e do mundo, paralelamente que ameaçava destruir tudo o que tínhamos, tudo o que sabemos e o que éramos. Um paradoxo de si, ele se via numa espiral de desintegração e renovação, luta e contradição, de ambiguidade e angústia.

Para que o novo exista, o velho há de ser destruído. Dada essa condição o modernista há de destruir para criar. O sacrifício de representar uma verdade eterna é uma destruição passível de uma autodestruição, no esforço de alcançar o eterno e o imutável, tentando deixar uma marca no efêmero. A única forma de falar do eterno é congelando o tempo e sua transitoriedade. O preço disso foi alto demais para as gerações vindouras.
Foi-se no choque do otimismo do iluminismo, desde sua criação até a realidade rasgada de Hiroshima que, junto com a crise moral do pensamento iluminista, surge levantes culturais antimodernistas dos anos 60, trazendo consigo a degeneração da autoridade intelectual, geralmente marcada pela sabedoria da elite, a coletiva masculina, branca e hétero sendo trocada pela cultura pop, o gosto cultural. Gosto da massa é em si, o sinal inconsciente do consumismo capitalista.
Ainda que fracassadas em suas próprias réguas para os levantes dos anos 60, é aqui que se demarca a virada para o pós-modernismo.
O pós-modernismo começa aceitando a efemeridade em que se encontra, a fragmentação, o descontínuo e o caótico, respondendo-o simplesmente navegando por ele, aceitando tais fatos como absolutos. Acolhendo a fragmentação e a efemeridade de maneira positiva traz consigo uma queda da metanarrativa, ou seja, as verdades eternas não podem ser especificadas.
Não suficiente, ela agrava a decadência dos juízos científicos e morais, o domínio da estética (aparência) sobre a intelectualidade e o social, e o que rege as narrativas são as imagens. Não há um centro definido, uma referência, sequer mesmo as antigas lealdades a autoridade e ao centro único de poder legítimo onde todos podem recorrer. É uma sociedade que se fragmenta em sociedades menores.
Porém, mais importante do que meramente tais fatores, o pós-modernismo é o que acontece quando, as metanarrativas ou visões totalizantes de mundo, acabam por encontrar seu fim. Nem Deus, nem a ciência, nem Marx eram mais capazes de explicar o mundo em seu absoluto e para todas essas sociedades menores que habitam um corpo maior. A noção de mudar o mundo é encarada com profunda desconfiança, aqui, por exemplo, entra o que Mark Fisher determina como Realismo Capitalista (do inglês, Capitalism Realism) adentra, como a crença de que não há mais além do capitalismo para o mundo.
Com a queda da metanarrativa, a ciência entra em crise.
Se utilizando do conceito de “jogos de linguagem” de Ludwig Wittgeinstein, que descrito de uma forma grosseira para efeitos de simplificação e compreendimento do argumento que Jean-François Lyotard se utiliza para explicar o saber narrativo e saber narrativo, seria que, a linguagem deve ser encarada enquanto um jogo ativo onde seus participantes usam palavras na intenção de causar determinados efeitos nas pessoas e nos objetos.
Ou seja, palavras só funcionam dentro de um contexto correto específico. Um exemplo prático: Quando se está negociando o preço de algo, a linguagem que se está empregando ali tem o contexto de convencimento. A forma como ela é
utilizada, suas sentenças, tudo é feito e pensado para que, naquele “jogo de persuasão”, ambas as partes consigam um acordo que julgam vantajosas para
si. Essa mesma conversa, em outro cenário, não faria sentido, sequer seria empregada daquela forma.
Explicado o conceito, agora é possível explicar que existem dois tipos de saberes para Lyotard: O saber científico e o saber narrativo.
O narrativo, faz com que o saber se construa e se propague, portanto, essas são histórias utilizada para contar sua própria existência no momento, seu passado e suas ambições. Desse modo, elas são capazes de expor os sucessos e as falhas dos heróis, representar estes em modelos, das suas instituições, não suficiente, elas mesmas são dotadas de seu próprio “jogo de linguagem”, pois aqui adentra não somente um compromisso com uma verdade, mas com justiça, beleza, felicidade e dentre outros.
Assim, aqui há uma avalição e uma legitimação de instituições, não suficiente, contém aqui uma integralidade nos discursos. Não há aqui, sequer a necessidade de prova. E como toda boa história, elas são contadas como o comunicador a ouviu e tem ali um compromisso implícito que esse conhecimento será passado a alguém.
O científico, por outro lado, opera por outras regras. Sua veracidade é incontestável por aquele que a pronuncia, pois pode apresentar provas desta. Não suficiente, esse saber é atestado por um acordo entre uma comunidade específica e tem sua aceitação. Seu “jogo de linguagem” é isolado e demanda a exclusão de toda outra, também é isolado de outros saberes sociais. Quem detém a legitimidade aqui, é quem profere esse conhecimento, e ainda, para que este saber seja substituído, se demanda por meio de provas e argumento refutar o anterior.

Entretanto, estes dois saberes precisam um do outro. Para que uma sociedade entenda um saber científico, não é incomum imbuir nela uma narrativa. Para se explicar o aquecimento global, os especialistas não se utilizam dos termos técnicos, nem da matemática e das diversas ciências que atestam tal fato, mas sim, da narrativa que, com a emissão de CO² na atmosfera, há um aquecimento na terra e isso a longo prazo, vai nos levar a um futuro ambiental desastroso.
Mas a crise da ciência se apresenta quando, a metanarrativa da legitimidade se opera por outras vias que não as da modernidade (a razão superior), e com essa condição, o “jogo de linguagem” altera.
A ciência já não consegue, enquanto uma verdade, encontrar legitimidade justamente por ser encarada como mais um “jogo” dentro de vários e é encarada como um saber narrativo, e é pelas regras destes que este não consegue se suportar. Não suficiente, a ciência é encarada pelas metanarrativas decadentes do iluminismo.
Ela não foi capaz de emancipação, pelo contrário, foi através dela que os piores atos da história da humanidade foram cometidos. Sua ação nem sempre é justa sobre a realidade. Os campos de concentração onde os cientistas nazistas se usavam dos prisioneiros como
cobaia trouxe, de fato, avanços tecnológicos e medicinais, mas seu preço foi uma contagem de corpo assustadora, o mesmo pode ser dito sobre o poder dos átomos, que expandiu a compreensão do universo e seu funcionamento, mas também forneceu a arma que, neste momento, é capaz de erradicar a humanidade várias e várias vezes devido a quantidade de ogivas que estão em posse de países.
Logo, como o “jogo” da legitimidade agora se opera? Local e contextual, criando consensos provisórios e parciais. Hoje se concorda com algo, mas amanhã, será descartada se não tiver mais resultados.
Dado contexto, acaba que a ciência se torna uma comodity. A ciência boa é a ciência que, na lógica capitalista pós-moderna, é a ciência que dá dinheiro.
O NEO HOMUS LOVECRAFTUS E A PÓS MODERNIDADE
Dada as explicações devidas, é possível enfim fazer um diagnóstico do que aconteceu com o homus Lovecraftus desde a morte de seu criador até os dias de hoje.
Hoje, o homus Lovecratus, ou melhor, o neo homus Lovecratus ao adentrar, de fato, na pós modernidade, buscou ali aplicar seus moldes antigos do modernismo. E falhou.

Ele, mais uma vez, não é capaz de compreender a realidade que habita e se vê inseguro neste lugar hostil que se encontra. Mais uma vez, ele está sob a água que antes julgava que sabia sua propriedade e se depara que ali habita algo além do conhecimento dele, além de sua razão superior, além da coesão. Novamente, tudo que era sólido há de se desmanchar na água. Dinamismo e flexibilidade são normas mais uma vez. E aquilo lhe preenche de horror, e o Outro surge.
Ele, mais uma vez, não é capaz de compreender a realidade que habita e se vê inseguro neste lugar hostil que se encontra. Mais uma vez, ele está sob a água que antes julgava que sabia sua propriedade e se depara que ali habita algo além do conhecimento dele, além de sua razão superior, além da coesão.
Novamente, tudo que era sólido há de se desmanchar na água. Dinamismo e flexibilidade são normas mais uma vez. E aquilo lhe preenche de horror, e o Outro surge.
Aqui, o Outro sempre existiu mesmo que lhe fosse invisível, sempre habitava e sempre habitou os mesmos lugares que ele. Agora, ele não só existe, mas como sua existência há de ser reconhecida e sua razão tem o mesmo peso que a dele, ampliam-se aqui os “jogos de linguagem”.
O “Outro” são, aqui, o surgimento das minorias como uma força que deve ser reconhecida, novas perspectivas são colocadas dentro da sociedade. E a vivência deste outro não só é diametralmente oposto a figura do Neo Lovecraftus, mas o que lhe assusta é que, essa voz tem o mesmo peso que a dele.
Não suficiente, esse “Outro” também é uma força que também recusa os “jogos de linguagem” dele, não há mais esse encontro entre ambos. Coesão é
corroída ao seu extremo e onde havia um espaço único, criam-se espaços diversos, onde ele sequer é bem-vindo, também conhecido como “espaços seguros”. Esse “Outro” também tem a audácia de questionar o que ele havia aceitado como verdade e única forma de viver, chegando a se recusar este.
Para o neo homus Lovecratus, o “Outro” se torna assim, degenerado, imoral e acima de tudo, o “pós-moderno”. E enquanto aquilo que é o anti-eu, só lhe resta três soluções: Morte, insanidade ou contaminação.
Entretanto, para este, ele mesmo, há muito foi contaminado pelo pós- modernismo. Ele mesmo já não está mais operando pelas próprias regras que o iluminismo e o modernismo lhe cobravam. Não mais acredita sequer acredita na emanicipação e na liberdade dos outros, também não acredita mais em fatos absolutos. Para ele, verdade é uma questão de estética, o que lhe parece real e nem mesmo as autoridades mais são absolutas, nem o centro de poder legítimo é, sequer legitimo.
Para o neo homus Lovecratus, ciência é uma questão de crença, naquilo que lhe soa mais verdadeiro e que corresponda ao que acreditava anteriormente, como também está pronto para abandonar essa crença quando lhe for conveniente, ou negá-la. Ele aceita isso em troca da derrota definitiva do Outro, ele se torna fragmentado e assim, navega pelas águas voláteis. Somente há uma visão de mundo que aparenta uma coesão, mas que em seu interior se anulam ou se contradizem, quando não, são duas verdades que são irreconciliáveis. Dizer que o modelo neoliberal foi o que causou a convulsão no Chile e dizer que as reformas neoliberais conduzidas no Brasil é o que tem são, de fato, duas verdades, mas em contato uma com a outra, se tornam esquizofrênicas.
Apoiar um candidato que discursa contra o direito de crença e de discurso do oponente, dizendo que seu motivo de apoio é justamente a sua liberdade de crença sendo cerceada pelo “Outro” é devido a sua crença de não estar orbitando nessa mesma sociedade que o “Outro”. Ele está em outra sociedade, outro fragmento dela, com outras normas e outros funcionamentos que não o do opositor.
O anti eu vive na esquerda, e ele na direita, em sociedades fragmentadas com “jogos de linguagem”.
É bem simples dizer que, o neo homus Lovecraftus diz que odeia o pós-modernismo, mas não confia na palavra daquele que primeiro falaram dela e a explicaram, mas em filósofos com livros de autoajuda, quando não, em embusteiros, simplesmente porque a narrativa lhe agrada, não os fatos. Fatos e fatos alternativos, ele escolhe qual lhe for conveniente pro momento.
Ele já está imerso profundamente nas águas do pós-modernismo e não há retorno para isso, mesmo que tente. Para alguns, sequer mais é possível se falar sobre alienação, pois alienação denota uma identidade sólida, quando este mesmo
novo homus Lovecraftus é tão volátil quanto, tão caótico e tão enlouquecido quanto os que acusa serem.
E é justamente por não compreender o que é, por si só, aquilo que ele chama de “pós-moderno” é que lhe incapacita de olhar para si mesmo e reconhecer estes traços. Tão niilista e tão cínico quanto aqueles que julga lutar.

Logo, é possível dizer que, ao se deparar com os novos tempos, ele padeceu ao horror. Primeiro ele enlouqueceu, se tornando esquizofrênico, depois morreu simbolicamente, para então retornar, como um ser contaminado pelo próprio horror que experienciou. Ele já é aquilo que abomina, mas se tornou tão demente neste processo, tão integrado a nova realidade, vibrando na mesma sintonia, que é incapaz de se perceber como tal.
E talvez, no dia que vier a tal, de fato, seja o dia do seu destino derradeiro. Sua transformação completa, a terminada da sua espiral em direção a insanidade ou enfim, sua morte concreta.
REFERÊNCIAS
O homus Lovecraftus Contra A Humanidade — Dr. Alexander Meireles da Silva. (Pg. 44)
David Harvey — Condição Pós-Moderna
Stanley J. Grenz — Pós-Modernismo
Abordagens do pós-moderno em música: a incredulidade nas metanarrativas e
o saber musical contemporâneo — João Paulo Costa Nascimento
A Condição Pós-Moderna — Jean-François Lyotard

