O orgulho crespo despertou a preocupação do brasileiro médio com o déficit habitacional?

Não. Pessoas não estão interessadas e nem preocupadas com a população desabrigada que mora na rua. Nunca tiveram. É praxe do pobre brasileiro pobre, repetir falácias vazias sobre assuntos que deveriam ser a pauta de todos os dias porque lhes atinge diretamente.

A quantidade de pessoas que chamam pessoas que ocupam imóveis vazios de ‘invasores”, vomitando o pensamento tendencioso da cafona classe média nacional, defensora aguerrida dos interesses de uma alta burguesia, que não lhe tem visível desprezo, é de entristecer os mais patriotas, aqueles que acreditam que a nação tem jeito. É aquela turma que parcela um pequenino apartamento na parte “Nobre” da Periferia em 30 anos e passa a se comportar como se fossem personagem das novelas insípidas de Manoel Carlos.

Essas pessoas nem ao menos se dão o trabalho de conversar com lideranças políticas que militam pela causas da moradia (e principalmente aqui, da falta dela.) para saber que não é mendigo ou andarilho ou morador de rua.

São pessoas que vivem em SITUAÇÃO DE RUA. Porque é uma condição imposta pelo sistema desigual em que vivemos, o sistema de privilégios sociais, alicerçado pelas opressões estruturais principais de gênero e raça.
Se essas pessoas tivessem preocupadas com pessoas em situação de rua, estariam discutindo déficit habitacional e a ineficiência das políticas públicas que não fazem recortes raciais e por isso não conseguem e nunca conseguirão dar conta do problema. Essas pessoas saberiam por exemplo que, somente em São Paulo, temos cerca de 290 mil moradias desocupadas, sob a alegação meritocrática de que quem compra tem o direito de fazer o que quiser, inclusive deixar vazio enquanto cerca de 712 mil famílias permanecem sem ter onde morar ou morando de forma precária. Focando nos sem tetos, temos um aumento de pessoas nessa categoria, nas grandes metrópoles brasileiras, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro: 25 mil pessoas em situação de rua em 2016, segundo o IBGE, só na capital paulista. A densidade populacional cresce em média 7% ao ano e o número de pessoas desabrigadas tem crescimento em torno de 4% anualmente. Ou seja, para cada 7 pessoas a mais na cidade de São Paulo, 4 estarão em situação de rua. Não há reação nenhuma contra pessoas que corroboram com a condição dessas pessoas deixando de cumprir a função social da propriedade. Aliás, especialistas em empoderamento sabem o que significa isso? Deveriam saber, está na Constituição Federal de 1988.

Se pessoas tivessem preocupadas com pessoas que vivem em situação de rua, estariam discutindo sobre regularização fundiária, COHAB e CDHU e suas construções problemáticas sob vários pontos de vista, estariam discutindo sobre a validade ou não de medidas paliativas como auxílio aluguel e locação social. Estariam discutindo sobre albergues e abrigos públicos e as diversas violências que acontecem nesses lugares que acabam se apresentando como soluções temporárias pouco seguras e até rejeitadas segundo relatos de quem acessa esses serviços. E saberiam, instintivamente até, que morar é um direito fundamental e é dever do Estado achar medidas que ao menos, minimizem o déficit habitacional que leva milhares de pessoas a viver de forma precária.

Também estariam linkando esses números, aos altos índices de desemprego entre pessoas negras que também são o grosso das estatísticas sobre pobreza e desigualdades.

E saberiam que, todo e qualquer problema grave ou agudo da sociedade brasileira perpassa invariavelmente pela questão racial e as tecnologias do racismo para manter pessoas negras (maioria entre as pessoas em situação de rua) no lugar de subalternidade social, ou seja, na base da pirâmide.
E que falar sobre aceitação estética é parte intrínseca de uma luta que vai, inclusive, solucionar as capilaridades do racismo que atinge a área habitacional, já que ausência de moradia, embora pessoas brancas também sejam atingidas, é a negritude que mais sofre com ela considerando que esse é uma das vertentes das desigualdades geradas pelo racismo.

Ninguém no Brasil, ou quase ninguém, está preocupado com falta de moradia ou população em situação de rua e muito menos com seus problemas diários que incluem o uso indevido de suas imagens, ilustrando a fetichização da pobreza e alimentando o esporte mais praticado pelo brasileiro que o próprio futebol: a demagogia.

Pessoas em situação de rua são fotografadas e essas fotos circulam as redes, os sites, até mesmo os livros, como memes, frases de autoajuda, notícias falsas, e lições de moral daquelas bem canastronas. E nunca foi motivo de crítica acaloradas ou despertou reflexões sociais nem ao menos superficiais. O que ocorre é que as pessoas estão mesmo muito incomodadas com esse bando de mulheres pretas, lindas, marchando pelas ruas e expondo seu orgulho pessoal e racial, que se tornou uma arma contra um dos braços do racismo que corrói nossa autoestima como forma de nos fazer achar que somos feias e portanto, sem valor humano, aí entra na conta também o machismo, porque beleza é moeda e arma psicológica para aprisionar mulheres em uma busca por perfeição que as mata de várias formas.

A beleza de mulheres brancas é contemplativa e deslegitima a inteligência e a da mulher negra é casual e exótica, insatisfatória por não se adequar ao padrão branco.

Então um fotógrafo faz o que centenas de outros estão acostumados a fazer, tirar foto de pessoas em situação de rua e expor de forma desumanizadora para deleite dos demagogos que podem usá-las para manifestar toda sua “alma piedosa”. Mas com um fato novo: posicionando (ou aproveitando a distração dessas…) meninas negras que marcham em um ato de contra-narrativa ao discurso secularmente usado para diminuir e ofender mulheres negras, o de que nosso cabelo crespo é feio. E desencadeia uma série de críticas, não ao Estado que não cumpre sua função de prover moradia adequada aos seus cidadãos e cidadãs que pagam por isso e pagam bem caro. Mas às meninas negras que estão lutando do jeito que podem, para se fortalecer e inspirar outras meninas negras a desenvolver autoestima vivendo em um país onde a maioria negra é escondida, rejeitada, violentada de todas as formas. Um país que diz abertamente nos seus veículos de comunicação que somente a branquitude é portadora de beleza e qualidades humanas que mereçam ser mostradas e exaltadas. Um país que ridiculariza meninas negras desde a mais tenra idade sem sentir nenhuma culpa por isso, levando muitas a depressão, suicídio, isolamento, mutilação de seus corpos.

Mulheres negras perdem emprego por conta da estética natural. São sempre alvo de piadas racistas e de ataques públicos sobre sua imagem e fenótipo negro. Passam uma vida inteira sem saber qual a textura real de seus cabelos, pois alisamentos ainda são muito acessados e exaltados como melhor alternativa para “cabelos ruins”.

Marchar orgulhosa ostentando um cabelo crespo é altamente político. Mas as pessoas querem mais querem que elas resolvam todos os problemas listados no início do texto. Como se elas pudessem, como se elas não fossem vítimas da nascente desses problemas, do mesmo modo que homem negro que dormia no banco da praça.

É só isso. Pessoas culpando aquelas que estão brigando diariamente para (sobre)viver com o mínimo de dignidade estando abaixo de todos na sociedade patriarcal e racista. Óbvio que empoderamento só pode ser coletivo, embora se sustente por ações individuais, mas se todo mundo sabe disso porque estão falando como se as meninas sorridentes ao lado do morador em situação de rua fossem as causadoras dessa situação? Porque mulheres negras ainda são odiadas pelo grosso da população que vive a espera de qualquer suposto deslize para manifestar esse ódio racista.

E no final a foto e a discussão que se seguiu a divulgação dela, representam a criminalização de mulheres negras que se amam somado ao lugar de subalternidade que racistas gostariam que essas mulheres estivessem ocupando em silêncio e indefesas, tal qual o morador em situação de rua que dorme no banco onde elas sentaram, para descansar ou para serem fotografadas. O que a branquitude quer é fotografá-las naquelas condições, já que o racismo trabalha para isso.

E segue o baile da disputa de narrativa e da tentativa de enxovalhar nossas lutas históricas que muito tem incomodado e vão continuar incomodando até que as pessoas se toquem e recuem dos privilégios sociais construídos pela raça negra para desfrute egoísta da raça branca. E “Sebastiãos Salgados” que continuem livres, para fetichizar a pobreza que sustentam seus privilégios.

Viva o Brasil Colonial da hipocrisia racial.



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