“O Perfume Amargo das Amêndoas” de João Carlos Leite, e a tematização da guerra na Literatura

A literatura pode ser sutil como uma rosa e potente como a mais pesada das artilharias.

Nada causa mais temor e fascínio do que as experiências de guerra. Ainda mais se elas se encontram na memória como um lapso, uma passagem do qual não se está certo se viveu ou não. É desse modo que o escultor Miguel Ângelo passa os seus dias. Atordoado pelas imagens dos campos de extermínio nazista e das experiências médicas macabras pactuadas pelo Führer. O personagem de O Perfume Amargo das Amêndoas traz um gosto metálico na boca, enquanto suaviza com as mãos as expressões duras dos corpos de argila que o rodeiam.

Nada parece verdadeiramente normal para ele. Ou quieto, reconfortante. É um pouco como nos sentimos nos dias de hoje, certos de que a qualquer momento algo como uma bomba pode estourar aos nossos pés. Tem a infantilidade norte-coreana jogando dados com o presidente pavoroso dos Estados Unidos. Os atentados terroristas que criam a figura sombria de um monstro — o terrorista — nada mais do que um ser humano (ou até um Estado) com poder bélico.

Se buscarmos no Google a palavra “terceira”, uma 3º guerra mundial aparece bem antes de uma terceira temporada de uma série qualquer que romantiza o diabo (sim, “Lúcifer”!), e até da pesquisa sobre a terceira idade. Antes da diversão e da vida plena, estamos nós aqui, pensando nos modos de autodestruição.

Na fuga da guerra, Miguel Ângelo se esconde nos arredores da cidadezinha de Paraíso. (A ideia de que o interior abriga coisas mais escusas do que podemos pensar. De forma, que é o refúgio perfeito para quem não quer ser encontrado. Ou, para quem guarda entre as paredes da casa bem mais que esculturas). Durante uma tempestade é procurado por uma garotinha cuja mãe está prestes a morrer. Na urgência do momento, Miguel oferece ao leitor uma passagem para os seus tormentos, realiza um sofisticado procedimento médico que nos faz duvidar se temos diante de nós a vítima ou o carcerário.

A confusão está instaurada. Com a atitude benevolente de Miguel, a cidade recebe uma enxurrada de gente que acreditam estar diante de um milagre. Na guerra ainda cabe a fé, e na fé ainda cabe os extremismos. Ainda é possível vermos a imposição de uma bancada evangélica no Senado, que a cada dia sufoca as nossas esperanças no mesmo passo que o turbilhão de gente tomou a cidade de Paraíso.

Ao mesmo tempo que o personagem principal precisa lidar com a implicação de seus atos, temos a figura de Antônia, mulher astuta e corajosa, com um mistério que enrique a narrativa. A personagem desenvolve uma relação dúbia com o escultor desconhecido. Entre o afago e a necessidade eles investigam um nevoeiro intrigante, que traz o cheiro de amêndoas queimadas. O mesmo perfume que Miguel sentia em outros tempos.

Com O Perfume Amargo das Amêndoas, João Carlos Leite consegue nos informar que a literatura pode ser sutil como uma rosa e potente como a mais pesada das artilharias.

Ao intercalar períodos narrativos, histórias geracionais e sobrepor conflitos, João Carlos Leite, escritor brasileiro, nos empurra de tal forma à narrativa, que nos vemos ali, no meio de Paraíso. Em um tempo inexistente, talvez cobertos de névoa. E por isso a necessidade de intercalar a crítica do livro com as situações recentes do mundo. A obra, embora demonstre a literatura na discussão de um passado fictício, nos remete a conflitos atuais. Não na correspondência da ficção com os acontecimentos reais, mas através do gosto que a leitura deixa na boca. Tem esse mesmo perfume amargo.


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